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sexta-feira, dezembro 18

Cerimônia de Casamento


Para Sonia Sant’Anna


Ilustração: Modelo Malena, da La Sposa
http://sposabellanoivas.wordpress.com/2008/01/03/malena-la-sposa-2008/



O vestido era o mesmo que não usou há vinte anos quando um infarto fulminante lhe matou o noivo nas vésperas do casamento. Todo esse tempo ficara protegido das traças e do tempo por bolotas de naftalina, guardado em uma caixa de papelão. Ainda no dia do enterro decidira que nova boda seria questão de tempo. Chorara mais a não consecução dos seus projetos do que pela vida de Miguel, perdida tão cedo.

Agora, a caminho da igreja, com meia hora de atraso como convém, se recorda de todas as trapaças que a sorte lhe pregou: aquele infarto que tardando alguns dias a teria tornado viúva, uma condição bem mais adequada às suas expectativas. O namoro com Rodrigo, sua única paixão, que lhe custou dez longos anos de adiamento do sonho, marcando e remarcando a data ao sabor de uma miríade de circunstâncias racionalmente defensáveis. Até o dia em que ele a trocou irracionalmente por uma colega de trabalho que o levou ao altar como quem vai ao cinema.

A Rodrigo se seguiu uma fase de namoros breves, pois resolvera não conceder a mais ninguém prazo maior que três meses para a decisão pelo enlace. Foram tantos os namorados que de muitos não consegue se lembrar. Um dia entendeu o conselho de Margarida, sua melhor amiga, que lhe havia dito que casamento é um investimento de longo prazo, como o de ações na Bolsa de Valores, e concluiu que talvez a sua ansiedade para recolher os dividendos fosse a causa do seu insucesso, afinal, excluindo o fato da morte prematura de Miguel e a canalhice de Rodrigo, fora sua a responsabilidade pelos malogros seguintes.

Analisando suas atitudes e resolvida a tratar o assunto com a lógica do mercado, Helena comprou e leu com afinco alguns compêndios de marketing e traçou seu plano estratégico focando seus esforços sobre um “target” formado por homens solitários na faixa etária dos 40 aos 50 anos, com boa educação e condições financeiras estáveis. Inteligente que é, investiu em um microcomputador conectado na Internet e foi à caça nas salas virtuais dedicadas ao seu público-alvo. Durante quase um ano dedicou diariamente quatro horas das suas noites teclando com desconhecidos. Marcou encontro com alguns e, tantas as decepções sofridas, já estava pra jogar a tolha quando conheceu Arthur, que preenchia todos os requisitos.

A igreja estava linda. À sua entrada os músicos iniciaram a valsa nupcial. Esperando-a no altar Arthur, cuja inacreditável timidez era responsável por uma cinqüentenária castidade. Ao seu lado, ainda firme, apesar de já beirar os oitenta anos, caminhava Raul, seu pai, vindo do interior para cumprir o ritual de entrega da filha ao noivo. A cerimônia decorreu sem surpresas. O casal retirou-se da festa à francesa para a lua de mel e o vestido voltou à caixa de papelão.

Naquele mesmo dia, enquanto o avião decolava para Miami, decidiu que nova boda seria questão de tempo: é um desperdício que um vestido tão lindo seja usado somente uma vez. A técnica para conseguir noivos já está dominada. Agora Helena quer aprender a se livrar de esposos.



Fred Matos
publicado em "Melhor Que A Encomenda"
Coleção "Selo Editorial Letras da Bahia"
Fundação Cultural do Estado da Bahia
2006

sexta-feira, maio 29

um dia rotineiro


não sei quem é o autor da ilustração


Uns vão direto para casa, outros para o bar no fim do expediente. Aqueles uns para evitar zanga caseira ou mesmo por outros motivos que podem ser tantos e não são do meu tento. Atenhamo-nos aos que vão para o bar. Há solteiros, casados, alegres, tristes. Solitários alguns, outros não. Há os que vão por falta de coisa melhor pra fazer, outros pra fazer hora até a hora da coisa melhor, quando tomam de um só gole a última dose e saem à francesa. E há os que vão porque após se amoldarem a uma rotina cumprem-na simplesmente tomando-a como compromisso. José Antônio é um destes. No dia seguinte ao da sua demissão esperou os ex-colegas na porta da empresa, como fazia quando tirava férias. Não deu importância nem à compaixão de uns nem ao desprezo dos que até a véspera o lisonjeava. Quando, no bar, naquele dia, o chefe do departamento visivelmente escabreado tentou justificar a dispensa atribuindo-a a ordem superior, José Antônio sorriu e disse que estava tudo bem, que entendia e ergueu um brinde à firma. O chefe suspirou aliviado. José Antônio se orgulha de ser o único do grupo que nunca faltou ao compromisso. 

José Antônio para não alarmar a família, esposa e filhos, não os comunicou que estava desempregado. Estava convencido de que uma outra ocupação era questão de poucas semanas. Como Isolda nunca telefonava para o escritório, preferindo quando necessário alcançá-lo pelo celular, não havia como ter o seu segredo revelado. Manteve a rotina diária de sair cedo para o trabalho e retornar após o happy hour. Ocupava os dias oferecendo os seus serviços em outras empresas, mas desde que estivesse livre a tempo de se reunir no fim da tarde aos ex-colegas. Os meses foram passando sem que conseguisse um novo emprego, já dilapidara todo o saldo da poupança, endividara-se com amigos e agiotas, mas era o primeiro a sacar a carteira na hora de dividir a despesa. Perguntado onde estava trabalhando mentiu. Pego um serviço aqui, outro ali, vai dando pra o gasto e é uma vida mais sossegada que a de empregado regular, sem hora pra entrar ou sair.

Certa manhã, cedinho ainda, antes de todos os outros como lhe era característico, João Antônio foi para a firma, cumprimentou o porteiro que o conhecendo de muitos anos não fez óbice à sua entrada, tomou o elevador, na sala ainda vazia se sentou na escrivaninha que um dia fora sua, retirou das gavetas todos os papéis, os examinou e vendo que lhe eram estranhos atirou-os na lixeira, recostou-se na poltrona, pôs os pés sobre a mesa, acendeu um cigarro, tragou duas baforadas, e morreu tossindo.



Fred Matos
Conto publicado em “Melhor que a encomenda” 
Coleção Selo Letras da Bahia 
FUNCEB, EGBA – 2006.

terça-feira, maio 19

o mestre


foto: Mário Cravo Neto


Imerso na sombra da noite é preciso chegar próximo para ver o homem deitado na fenda da pedra negra onde o respingo das ondas só alcança quando é maré alta. Buscou abrigo naquele pedaço ermo da praia de Itapuã quando os homens e máquinas da prefeitura cumpriram a ordem de reintegração de posse demolindo os barracos da favela Bela Vista. Mas isso faz muito tempo, tanto tempo que ele já não sente desconforto quando o corpo calejado se amolda na aridez da pedra úmida, portanto é assunto de que não se ocupa quando encontra quem o ouça, o que não é raro, apesar da sua indigência. Um saco plástico com alguns trapos e uma cuia de queijo Palmira que usa como prato são os seus únicos pertences, é o quanto lhe basta, pois não tem ambição maior que forrar o estômago e manter a pele vestida. Antes que surjam os primeiros raios de sol ele caminha até a porta da padaria onde sempre encontra uma alma caridosa que lhe ofereça um pão. Dinheiro não aceita, vai bem um copo de leite pingado, se não for pedir muito. Alimentado, segue apressado até o coqueiral de Piatã onde se reúne a crianças e adolescentes criados na rua ao deus dará, que para ouvi-lo abdicam por algumas horas das brincadeiras, da mendicância e dos pequenos furtos.

Eu trabalhava em uma matéria sobre loucos urbanos, um calhau para ser usado em edição dominical, e já entrevistara dezenas de figuras estranhas que perambulam pelo centro da cidade quando me falaram do Professor. Imaginei que seria apenas mais um que nada acrescentaria à matéria, mas apetecia-me naquela manhã respirar o ar marinho e fui pra Piatã onde o encontrei sem dificuldade, pois à distância já se podia ver o grupo reunido. Mantive-me afastado enquanto durou a aula, mas próximo o suficiente para ouvir a lição do dia. Percebendo que se tratava de indivíduo culto e com discurso articulado liguei o micro-gravador, contudo o ruído das ondas arrebentando na praia tornou inaudível a gravação e apenas na memória está registrado o conteúdo daquela palestra.

Esperei que o grupo se dispersasse para abordar o Professor, me apresentei e expliquei-lhe o motivo pelo qual o procurara, ele sorriu:

- O moço diz excêntrico, um eufemismo para maluco. Considerando que é tênue o liame entre a loucura e a sanidade eu posso perfeitamente ser considerado louco, apesar de que, do meu ponto de vista, loucos são os que se amoldam a este sistema cuja lógica é a acumulação para um amanhã que nunca virá.

- Vejo que o senhor é muito culto.

- Seria mais correto dizer que absorvi ao longo da vida mais informação do que a média da população, mas a cultura não é grande coisa, ela é apenas uma soma. Creio que mais importante que o conhecimento é a capacidade de reflexão, que no meu caso resultou em abdicar do conforto para desfrutar a liberdade.

- O senhor é professor realmente?

- O que é realidade, meu jovem?

- Talvez eu tenha me expressado mal, o que eu quero saber é se o senhor tem curso superior, se já lecionou.

- Sim, formei-me em filosofia e fui professor universitário, mas não acho que isso tenha alguma importância, exceto, talvez, para acentuar na sua reportagem a minha loucura.

- É que eu não compreendo: o senhor ao que tudo indica gosta de ensinar, poderia estar sendo remunerado para fazer o que gosta e não me parece que tivesse necessidade de abdicar de um mínimo de conforto para desfrutar a liberdade, pois não creio que a tenha em grau maior do que a de professores universitários que eu conheço.

- Ah! Você é um rapaz inteligente, talvez me entenda melhor se eu fizer um breve resumo da minha trajetória: fui afastado da universidade pela ditadura militar, caí na clandestinidade quando fui informado que a minha prisão era uma questão de dias ou de horas. Deixei o apartamento que alugava levando somente uma sacola de roupas e o que sobrara do último salário. Consegui documentos falsos e fui aceito como professor de curso primário em uma escola da periferia, onde a remuneração mal cobria as despesas com alimentação e o aluguel de um barraco na favela Bela Vista, de onde fui expulso quando a favela foi demolida.

- O senhor poderia ter encontrado outro lugar pra morar.

- É verdade, mas eu já cogitava em romper definitivamente com a civilização e tomei aquele evento como um sinal.

- Mas por que romper com a civilização se o senhor fazia o que gosta de fazer?

- Eu gosto de ensinar, é verdade, mas não considero que ensinar seja apenas transmitir uma miríade de informações que “entram por um ouvido e saem pelo outro”, como diziam os alunos. Ensinar é também ajudar a desenvolver os processos de concatenação destas informações, é promover o embate das idéias sem a imposição de paradigmas, é permitir o amplo contraditório. Somente aqui tenho a liberdade de exercer a educação como a concebo.

- Eu acho que na universidade o senhor poderia fazê-lo. Tantos outros mestres que foram vítimas da ditadura hoje estão reintegrados à vida acadêmica.

- Talvez pudesse, não tenho certeza, mas seria justo e ético reintegrar-me ao sistema quando o que desejo é a sua ruína?

- Como assim?

- A educação, como a conhecemos, destina-se exclusivamente à formação de peças para a engrenagem social fundada no princípio de desempenho, cuja lógica é a competição onde deveria haver a colaboração. Assim temos uma sociedade que é dividida entre um pequeno grupo de vitoriosos e uma enorme massa de derrotados, que não vivem sua própria vida, desempenham funções preestabelecidas que lhes permitem quando muito sobreviver.

- Se o estou compreendendo o senhor prega o comunismo, mas isto não seria uma contradição para quem, como senhor, preza tanto a liberdade?

- Não entendo que o cerceamento da liberdade seja um pilar do comunismo. O fato de que assim tenha sido nas nações que o adotaram me sinaliza que a sociedade não estava preparada, ou seja, que para a sua adoção é necessário que primeiro haja uma evolução na humanidade, que ela alcance um patamar superior de conscientização onde os valores impostos pela sociedade de consumo sejam soterrados por valores éticos. 

- Quando os homens se tornarem santos?

- Sim, talvez. Mas prefiro dizer: quando os homens se tornarem íntegros.

- Supondo que a humanidade alcance tal estágio, o senhor acredita que isto iria abolir a necessidade do trabalho, ou seja, que as pessoas deixariam de ser meras peças da engrenagem social?

- Esta é uma boa pergunta. Eu sinceramente acredito que nesta hipotética sociedade, abolida a propriedade privada, adotada a máxima de Marx: “De cada um conforme a sua aptidão, a cada um conforme a sua necessidade”, o trabalho deixaria de ser uma obrigação tornando-se uma atividade lúdica, pois os indivíduos naturalmente se dedicariam às tarefas que lhes são prazerosas e não àquelas que são melhores remuneradas pelo mercado. Sendo assim não há que se dizer que os homens continuariam a ser autômatos, nem tampouco que a grande maioria optasse pela vagabundagem. 

- O senhor conhece as teorias do sociólogo italiano Domenico de Masi?

- Não conheço profundamente, mas li algumas entrevistas dele em revistas recolhidas no lixo.

- O que o senhor pensa desta teoria do ócio?

- É difícil analisar uma teoria que conheço apenas superficialmente, mas tomando como fidedignas as reportagens que li, eu penso que esta teoria serve ao atual sistema, não é uma ruptura, é um avanço cujos principais objetivos são: reduzir os níveis de desemprego a índices toleráveis e diminuir o tempo dedicado pelo indivíduo ao sistema.

- E isto não é bom?

- É melhor para o sistema que para o indivíduo, mas indiscutivelmente é um avanço.

- Por que o senhor acredita que é melhor para o sistema que para o indivíduo?

- Para o indivíduo, fazendo uma analogia, seria como para um condenado ter a sua pena reduzida. Para o sistema é um novo mecanismo que objetiva a sua perenização. Mudar para que tudo permaneça, tem sido, ao longo da história, uma estratégia do sistema de desempenho para manter o indivíduo submisso e alienado.

- Por qual motivo, então, esta teoria não tem ainda ampla aceitação pelas elites econômicas?

- Porque as elites só estarão dispostas a adotar uma drástica redução na carga horária de trabalho quando, com o aumento da produtividade, isto não resultar na redução da sua margem de lucro. Ressalvada a hipótese de ser obrigada a isto por algum movimento de força, seja ele oriundo da própria massa ou decorrente de legislação. Mas tenha em mente que o sistema não é uma instituição com sede e comando centralizado, muito possivelmente ele é mais evidente a quem o serve do que aos que são por ele servidos. Estes atribuem, quase sempre, à graça divina ou a mérito próprio os dividendos que acumulam.

- Quero agradecer-lhe, professor. Poderíamos gravar horas e horas, mas acho que já tenho material suficiente para o melhor trabalho que jamais fiz.

- Talvez meu jovem, talvez. Mas não se surpreenda se não quiserem publicar nada do que eu disse. Se for assim, invente qualquer coisa mais leve e pitoresca.

O sol já ia a pino, convidei o professor para almoçar. Ele sugeriu e eu aceitei, uma moqueca em uma barraca no mercado de Itapuã, estava divina. Voltei eufórico para a redação e garanti a Abreu, o chefe de reportagem, que tinha um material fantástico. Não sei por qual motivo a matéria nunca foi aproveitada.


Fred Matos

Conto publicado em “Melhor que a encomenda” 

Coleção Selo Letras da Bahia 

FUNCEB, EGBA – 2006.

terça-feira, março 10

melhor que a encomenda


não se quem é o autor da foto


Poucos dias após a nossa lua-de-mel, eu assumi a comarca do recém criado município Ari Barroso, uma justa homenagem ao ilustre compositor que cantou a Baixa dos Sapateiros, um tradicional logradouro comercial de Salvador, como se baiano fora. Não sei se é verdade, mas me contaram que originariamente cogitou-se homenagear Dorival Caymmi, mas que o baiano ilustre, a quem a nossa música tanto deve, fez saber que, estando vivo, consideraria aquilo uma ofensa, um prematuro atestado de óbito.

Para quem não conhece, é útil esclarecer que a cidade de Ari Barroso está situada no litoral norte do Estado da Bahia, próxima à foz do Rio Itapicuru. Como na época não havia sido construída a estrada do coco, o acesso para a sede da comarca era quase uma aventura. Normalmente uma cidadezinha como aquela não seria sede de município e muito menos de comarca. Acontece que é a terra natal de um influente político que empenhara todo o seu prestígio junto aos governos estadual e federal, e os preciosos votos do seu curral eleitoral, para a concretização do seu sonho emancipacionista. Só foi vencido, se é verdade o que o povo diz, na intenção de dar ao município o nome do finado pai, um pescador analfabeto como tantos outros e cuja grande contribuição ao Estado e à Nação fora a paternidade do prócer governista.

É de praxe que aos novos magistrados sejam entregues as menores comarcas. Além de justo, em qualquer acepção que tem o vocábulo, isso proporciona o aprendizado prático, já que teoricamente os juizes deparam-se, nas pequenas comarcas, com toda espécie de situações que mais tarde irão encontrar nas maiores, com a conveniência de que nas pequenas as coisas são resolvidas com maior facilidade, pois todos se conhecem e, não havendo imprensa, é menor a pressão da opinião pública.

O caso mais complicado que tive para julgar foi uma disputa entre vizinhos, um que criava galinhas e outro que tinha em casa um cachorro feroz. Uma galinha passou a cerca que separava os quintais e foi morta pelo cão. O dono da galinha reclamava indenização. O dono do cão negava-se a isso argumentando que o dono da galinha comera-a depois de morta, e que, portanto não houvera prejuízo. Não acrescentou, como poderia ter feito, que o cão agiu em legítima defesa da propriedade que houvera sido invadida pela ave. O dono da galinha, por sua vez, argumentava que aquela fora, entre todas, a sua melhor poedeira e não uma galinha velha destinada ao abate. Como o dono do cão não argüiu a invasão de domicílio e a conseqüente defesa da propriedade, decidi que o dono do cão indenizasse o queixoso comprando-lhe uma nova poedeira e que, em contrapartida, o dono da galinha desse ao dono do cachorro um frango ou uma galinha velha. Contentaram-se ambos, felizes, com o meu veredicto salomônico e me convidaram para celebrar a paz com uma estupenda galinha ao molho pardo, iguaria que em Ari Barroso é conhecida como galinha de cabidela.

Ocupamos uma casa nova, cheirando a tinta, construída na única praça da cidade, quase defronte ao prédio do fórum, novo também. Era um simpático bangalô com o exterior pintado em verde cana, uma grande varanda, jardim, quintal, todos os cômodos com piso cerâmico, sala de visitas e outra para as refeições, cozinha, dois banheiros e quatro quartos, um dos quais transformei em meu gabinete. Ivana me parecia feliz quando nos instalamos: passava o dia em banhos de mar, plantando flores no nosso jardim e supervisionando o plantio de uma horta no amplo quintal. Em maio me revelou que suspeitava estar grávida, suspeita confirmada em junho.

Em agosto, no quinto mês de gravidez, notei que Ivana estava tristonha, desinteressada do jardim, da horta, e mesmo de preparar o enxoval para o nosso filho. Eu já temia que ela, sempre tão ativa, logo se aborrecesse com a quietude do lugar, mas confiava que a gravidez ocupasse-a. A princípio ela não queria aceitar, mas acabou concordando em ficar em Salvador, na casa dos pais, até o parto, previsto para acontecer entre o final de dezembro e os primeiros dias de janeiro.

Quando nos instalamos em Ari Barroso, contratamos Jussara, por indicação de dona Iolanda, a primeira dama do município, para ajudar Ivana nos serviços domésticos.

– É uma mulatinha bonitinha e asseada, moça de confiança, filha mais velha de Dione, a nossa cozinheira. Não cozinha tão bem como a mãe, mas não vai fazer feio principalmente no trivial. O doutor juiz vai ficar satisfeito.

Romeu, o prefeito, piscou os olhos para mim e acrescentou:

– Só tem dezessete anos a moça. Não é, Iolanda?

– Quase dezoito.

– A senhora pede, então, que ela me procure amanhã de manhã, dona Iolanda — Ivana pediu.

No dia seguinte, quando cheguei do fórum, ela já estava a serviço de Ivana, que me comunicou:

– Amor eu consegui convencer a Jussara a ficar morando aqui conosco. Ela mora com o pai, a mãe e mais uns oito parentes em uma choupana apertadinha na beira da praia. Aqui tem quarto sobrando. Você se importa?

– Não, querida, faça como achar melhor.

– Vou chamar ela pra lhe apresentar. — E chamou a moça.

Tomei um susto quando vi chegar na sala, vestindo um short apertadíssimo e uma blusa curta empinada pelos seios rijos, aquele monumento à raça negra. Levantei-me para lhe apertar a mão e fui brindado com um sorriso ambíguo.

– Muito prazer doutor Ronaldo. Estou à sua disposição — Ela me cumprimentou curvando-se um pouco como se eu fosse, talvez, um monarca.

Por cima do decote da blusa, que era frouxa e de tecido leve, divisei-lhe, inteiros, os seios de pequenas auréolas negras e pontiagudas.

– O prazer é meu. Como é mesmo o seu nome? — Realmente eu não me lembrava.

– Jussara, doutor juiz.

Ivana pediu que ela nos trouxesse cafezinho. Hipnotizados, meus olhos seguiram as belas nádegas que sumiram rebolando pelo corredor. Temi que Ivana tivesse notado o meu excesso de atenção, o olhar continuado, é mais exato dizer assim. Para ser sincero, não fantasiei nenhuma relação com Jussara, apenas quedara-me a admirar a sua beleza. Se Ivana fosse ciumenta, como sou, não a teria aceito, muito menos a convidaria para morar conosco, além do mais, instalando-a, não nas dependências para empregados, que as havia no fundo do quintal, mas em um dos quartos da casa.

Jussara insinuava-se desde o primeiro dia. Ivana comprou-lhe roupas e um biquíni, que ela continuava usando dentro de casa, quando retornava da praia, aonde ia acompanhando minha esposa. Desfilava, rebolando quando me via, naquele traje sumário, como se me quisesse enlouquecer. E Ivana parecia cega, mas mantive a compostura. Contudo, com a sua ida para Salvador, não consegui mais resistir: no terceiro dia após o meu retorno da capital, onde fora para levar minha esposa, ela já estava na minha cama. De todas as mulheres com que trepei na minha tumultuosa vida, não houve nenhuma mais fogosa que ela. Compreendi na nossa primeira noite de gozos a piscadela de Romeu e perguntei a Jussara:

– Você já foi pra cama com o prefeito?

– Já, seu doutor. — Ela respondeu com a cara mais sonsa do mundo.

– Com quem mais?

– Com o padre Brito, com seu Zeca da farmácia e com Ramon, um cabeludo da cidade que morou aqui uns tempos e foi quem tirou o meu cabaço.

– Você toma anticoncepcional?

– Tomo. É seu Zeca que me dá.

– De agora em diante você só vai pra cama comigo Jussara. E ninguém pode saber entendeu? Principalmente dona Ivana.

– Mas se eu não der pra seu Zeca ele não me dá mais os remédios pro povo lá de casa e nem as pílulas pra não emprenhar.

– Quando você precisar de remédio você manda botar na minha conta. Não, melhor. Você me diz o que quer e eu mesmo mando alguém do fórum comprar.

– E seu Romeu? Se eu não der pra ele, ele manda mãinha embora e o meu povo morre de fome. Meu pai é pescador, a gente não pode viver só de comer peixe e aqui só no verão tem quem compre.

– Você fique tranqüila que o prefeito não manda sua mãezinha embora não. Você o ameaça de contar tudo a dona Iolanda.

– Ela sabe.

– Sabe? E não se importa?

– Eu acho que não. Ele me disse que ela já fechou o baú faz tempo.

– Então você deixe que eu converso com ele.

– E o padre Brito?

– O que é que tem o padre Brito?

– Se eu não der pra ele eu não entro no céu quando eu morrer.

– Foi ele quem lhe disse isso?

– Foi.

– Pois ele está mentindo, o velho safado. Deus não quer que padre tenha mulher. Ele vai é pra o inferno e você também, se continuar dando pra ele.

– E eu não vou poder nem me confessar?

– Confessar pode. Só não pode dar pra ele, nem dizer a ninguém, nem na confissão, que está dando pra mim.

– Então tá bom. É o doutor juiz que manda na polícia e se alguém fizer maldade pra mim e pra meu povo o doutor juiz manda prender. Não manda?

– Mando. Mando prender todo mundo e mando jogar a chave da cadeia no fundo do mar.

No outro dia fui na prefeitura conversar com Romeu e fi-lo entender, através de analogias, que “uma mão lava a outra”. Eu disse que eu não era um juiz corrupto, mas que também não era santo, e que a Lei sempre dá ao juiz margem a interpretações. Ele não teria dificuldades em arranjar uma outra concubina.

– Porra, doutor Ronaldo, não precisa tanto lero-lero, o doutor não quer dividir a menina, não tem importância, eu já estou comendo a irmã dela de dezesseis que é tão gostosa e fogosa quanto ela.

– Não se trata de dividir ou não dividir Romeu. Eu não tenho nenhuma intimidade com a garota. Aliás, nem foi por intermédio dela que fiquei sabendo da relação de vocês.

– Não me diga que Iolanda contou a dona Ivana. Eu avisei a ela pra não tocar nesse assunto.

– Não. Não creio que Ivana saiba. Foi outra pessoa quem me contou. Essa pessoa me pediu que a deixasse incógnita, e eu sempre honro a minha palavra. Por sinal, não quero que Ivana saiba de nada. Você me entende? Ela poderia pensar coisas e a moça seria prejudicada.

– É, Jussara agora tá na vida que pediu a Deus, dormindo em cama macia, comendo do bom e do melhor. Fique tranqüilo doutor. Por mim ou por Iolanda, dona Ivana não vai saber de nada. É um pitéu a menina. É ou não é?

– Não sei, Romeu. Sei que é uma garota menor de idade, com a qual minha esposa simpatizou, e que farei o que for preciso para que doravante tenha as oportunidades que a vida lhe tem negado. Não há de se tornar uma prostituta, se depender de mim.

Pretextei a necessidade de estudar um processo no fórum e acho que deixei uma dúvida razoável na cabeça do prefeito. Era em nome da moralidade e da integridade do meu lar o pedido que houvera feito.

Carlos Eduardo, o meu primeiro filho, nasceu no dia 31 de dezembro de 1978. Eu estava em Salvador para passar com Ivana o Natal e o Reveillon. Aquele foi um dos poucos anos que não rompi o ano novo na Boa Viagem, mas na manhã do dia primeiro de janeiro, antes de ir à maternidade, fui ver a procissão marítima chegar e agradeci ao Bom Jesus e a Nossa Senhora da Conceição a ventura que me concedera na véspera.

Não creio que possa haver maior alegria que a do nascimento de um filho, principalmente a do primogênito. Mas à alegria eu somava o sentimento de culpa decorrente do meu relacionamento com Jussara e o medo com a possibilidade de Ivana descobrir essa relação. Medo não apenas porque não concebia a possibilidade de não poder criar o meu filho, se Ivana, descobrindo o meu relacionamento com Jussara, resolvesse por nossa separação, mas também e fundamentalmente porque eu amo Ivana e perdê-la seria perder a razão da minha vida. Por Jussara era somente um enorme tesão o que sentia.

Alguma coisa estava estampada na minha cara. Ivana achou que era medo pela responsabilidade de ter e criar um filho. Ela perguntou:

– Está preocupado, amor?

– Não. Estou muito feliz.

– Está preocupado, sim. Está preocupado porque agora tem o Carlinhos. Antes éramos somente nós dois, agora há esse principezinho lindo que é a cara do pai.

Era uma brecha para manter Ivana em Salvador. Brecha que eu não podia perder. Eu aproveitei dizendo:

– É verdade, estou mesmo preocupado. Lá em Ari Barroso não temos condições adequadas de saúde para criá-lo, tão pequeno, tão frágil ainda.

– Mas meu bem, quantos lá nasceram e se criaram?

– Nenhum filho nosso. Você tem idéia do índice de mortalidade infantil de lá? Lá uma simples caganeira pode matar por desidratação. Não há médico residente. O Dr. Luiz só dá plantão um dia por semana e eu não tenho confiança nele.

– E o que você acha que devemos fazer?

– Acho que vocês devem ficar aqui pelo menos uns seis meses, que é a fase mais crítica.

– Se você não me quer ao seu lado...

– Ah! Amor, não é nada disso. É pelo bem do Carlinhos, prefiro que ele não corra um risco desnecessário.

– Pelo meu gosto ficávamos aqui por só mais um ou dois meses, desde que nos casamos temos vivido mais tempo separados do que juntos, mas não vou teimar. Eu fico. 

Foi um alívio, eu ganhara seis meses para resolver o imbróglio que criara. Foram seis meses de tensão, mas também de inenarráveis lubricidades com Jussara. Eu vivi esse período, me desculpem o clichê, “entre a cruz e a espada”. A situação ideal seria poder ter concomitantemente as duas. Outra hipótese era conseguir uma transferência para outra comarca, de preferência próxima a Salvador, onde eu pudesse reunir a família. O inconveniente dessa segunda hipótese era ter que me livrar de Jussara, me privando do enorme prazer que ela me propiciava. Mas eu sabia que seria um risco muito grande conviver com as duas sob o mesmo teto. Mesmo que Jussara não falasse nada, mesmo que nenhuma fofoca caísse nos ouvidos de Ivana, eu tinha certeza que eu mesmo me denunciaria, não conseguiria agir com naturalidade. Renunciar a Jussara era, pois, inevitável, a não ser que Ivana aceitasse me dividir com ela, coisa muito improvável. Nos meus devaneios cheguei a pensar nisso, a pensar em contar tudo a Ivana, a lhe pedir que aceitasse aquela situação. Mas quem aceitaria? Isso é coisa que só acontece na literatura, na vida real somente por loucura ou por falta de opção. E Ivana não era louca e tão pouco uma desamparada pronta para aceitar os meus caprichos, e mesmo que fosse eu não teria coragem de propor, e em tendo, de perder o seu amor e o seu respeito.

Resolvi reivindicar uma transferência. Aceitaria ir pra qualquer lugar para salvar o meu casamento e decidi que Ivana não voltaria a Ari Barroso. Em busca de apoio ao meu requerimento oficial, apelei a muitos desembargadores fazendo-os ver que seria desumano submeter minha esposa e filho, uma criança com poucos meses de vida, a residirem em local tão inóspito. Disse do risco de desagregação da minha família. Tornei-me um chato.

Tive sorte, havia um colega em uma comarca no sertão que estava querendo transferir-se para outra no litoral, qualquer uma à beira mar, o tribunal aceitou que permutássemos.

Esse colega, que estava separado da esposa, foi a única pessoa a quem confidenciei sobre Jussara, não omitindo nenhum detalhe. Ele me garantiu que manteria o segredo e disse que eu ficasse tranqüilo, ele ficaria com Jussara, dando-lhe o mesmo tratamento que eu:

– Está melhor que a encomenda. — Marcos, exultou.

    


Fred Matos

Conto publicado em “Melhor que a encomenda”  

Coleção Selo Letras da Bahia  

FUNCEB, EGBA – 2006.

sexta-feira, janeiro 9

apocalipse


não sei quem é o autor da foto


          
Quando finalmente soar a trombeta anunciando o juízo final, resultando mortos os seres humanos, plantas e bichos, e a escuridão cobrir a Terra, catapultada do sistema solar para a sua última viagem entre as constelações rumo aos confins do universo, a verdade absoluta estará demonstrada e, mesmo assim, paradoxalmente, se algum animal racional pudesse testemunhar o apocalipse deste grão de poeira onde habitamos, ou, o que é mais razoável, dele tivesse antecipada ciência ou premonição; surgiriam acaloradas controvérsias, tentativas estapafúrdias de explicar o fenômeno. Os místicos apontariam, uns, a ira divina como causa do inevitável, outros a realização da comunhão da alma humana com onírica energia astral, resultando dai o nascimento do Deus Carbono a quem caberia a tarefa da recriação da vida. Os cientistas formulariam teorias cuja experimentação nunca se poderia realizar nos seus, para isto, impotentes aceleradores de matéria subatômica. Os políticos engajados nos mecanismos de poder engendrariam frases bombásticas para demonstrar que os governos estavam no caminho certo para a solução do problema ou, na pior das hipóteses, para que o sofrimento fosse o menor possível; os da oposição asseverariam que mais uma vez os mais prejudicados seriam os mais carentes, pois, afinal, no tempo que lhes foi dado viver, apenas comeram o pão que o diabo amassou, enquanto as elites banqueteavam-se com o botim da exploração do homem pelo homem. Os profissionais da fé negociariam a chave do portão do paraíso e, ou, apascentariam o rebanho com a miragem do abraço divino. Os filósofos sofismariam com a inevitável constatação de que o cogito cartesiano havia encontrado confirmação "na transposição negativa do enunciado". Os empreendedores dariam "tratos à bola" objetivando descobrir como lucrar com a catástrofe, ainda que soubessem da impossibilidade de gozar dos seus frutos. As beatas e os crentes entupiriam os templos; os devassos os motéis de alta rotatividade; e os poetas lamentariam a impossibilidade do luar e sopesariam palavras que com mais comoção e elegância pudessem exprimir a angústia da perda da musa e do sonho. Assim caminha a humanidade.


Fred Matos

Conto publicado em “Melhor que a encomenda” – Coleção Selo Letras da Bahia – FUNCEB, EGBA – 2006.

quarta-feira, dezembro 24

primeira cicatriz


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Era vermelho o carro que o matou e sumiu chispando, cantando pneus. Fendida a cabeça no impacto com o meio-fio, o sangue brotava da base do crânio escorrendo na sarjeta, tingindo os veios imundos dos paralelepípedos e empoçava-se viscoso, refletindo o sol abrasante do meio dia. Transeuntes puseram-no em decúbito ventral, cruzaram-lhe os braços sobre o tronco, juntaram-lhe as pernas e cobriram-no com folhas de jornal, as pontas presas por pedras soltas do calçamento. A tudo assistira, da sua janela, uma anciã, levemente corcunda e muito magra, dessas cujos ossos parecem a ponto de furar a pele enrugada. Ela acorreu trazendo uma vela, ajoelhou-se, acendeu o lume, tirou um terço do bolso, e a Deus encomendou sua alma.

Mais curiosos chegaram, se aglomerando, se empurrando, formando um círculo compacto ao nosso redor. Um negro alto, espadaúdo, cabelo encarapinhado, ventas arreganhadas, olhos injetados, tirou-lhe os sapatos e, sob protestos e vaias da platéia, abriu caminho a socos e cotoveladas, levando ao chão os que se lhe interpunham e, nas mãos, triunfante, o seu butim. Um velho desavergonhado, magro, baixo, calvo, paletó puído nas mangas, levantou com a ponta do guarda-chuva a gazeta que lhe amortalhava o rosto, abanou a cabeça negaceando e foi embora. Foi a última imagem que vi de papai: a face já macilenta e os olhos negros arregalados, hipnotizados pelo terror.

– Coisa feia de se ver, menino — arrancou-me puxando sem ternura pelos ombros, uma balzaquiana gorda trajada de organdi, escandaloso estampado floral, hálito de alho e cebola.

Nas portas das lojas, vendedores e clientes se espichavam nas pontas dos pés para admirar o tumulto, cada qual especulando a versão que lhe vinha à cabeça.

Formara-se num átimo a algazarra.

Antes que alguém se desse conta de mim, de quem eu era, a maior vítima, afastei-me caminhando a esmo, pernas bamboleando, raciocínio embotado, um nó na garganta, olhos congelados perdidos no não sei onde.

Com a Avenida Sete de Setembro parcialmente obstruída pelo desastre, formou-se um grande engarrafamento e o buzinaço ecoou-me como escárnio da Praça da Piedade até à Rua do Forte de São Pedro, por onde caminhei até o Campo Grande.

As buzinas silvavam, intermitentes umas, persistentes outras, reboando no meu cérebro. Não mereceria meu pai o respeito do silêncio? Inutilmente tapei com as mãos os ouvidos, mas a estridência me invadia pelos poros, pelas frestas dos dedos, pelos olhos, pela boca e eu ouvia que as buzinas me acusavam: “você correu”, “você fugiu”.
Entorpecido e confuso, sentei-me em um banco de pedra próximo à fonte luminosa e, enfim, chorei.

Uma senhora perguntou-me se eu sentia alguma dor, eu disse que não. Perguntou se eu estava perdido, eu disse que não. Perguntou "então choras por quê?" Eu disse que perdera o dinheiro do ônibus para voltar pra casa. Ela me deu algumas moedas e seguiu em paz com a sua consciência.

Fiquei ali até anoitecer e foi naquelas horas de dor, choro, desespero, lembranças, autocomiseração e medos que decidi não contar a Madalena, minha madrasta, o que acontecera.

Começava a escurecer quando tomei o Campo Grande - Ribeira. O sol acabara de se esconder atrás da Ilha de Itaparica quando descemos a Avenida Contorno para alcançar a Cidade Baixa. Saltei no Largo de Roma, a cerca de meio quilômetro da minha casa, e fiz o resto do caminho a pé, maquinando o que diria quando chegasse. Talvez, pensei, a notícia me precedesse e, por dor mais dolorosa, o esquecimento apagasse em Madalena a preocupação com a minha ausência, poupando-me explicações.

Saíramos, eu e papai, os dois gozando férias, às dez horas da manhã daquela quarta-feira, para pedir na loja onde ele trabalhava, e em outras, aos seus camaradas de ofício, retalhos de tecidos, imprestáveis para o balcão, que sempre sobram das vendas natalinas. Retalhos para Madalena cozer "colchas de fuxico" e vender, de porta em porta, engordando o haver do nosso parco orçamento doméstico.

Recolhêramos uma boa quantidade quando papai foi atropelado, já quase concluída a travessia. Eu, saltitante de alegria pelo passeio, correra na frente, entre os veículos, livre das suas mãos enormes no meu pescoço.

Da calçada, ouvi o guinchar de freios, o som surdo da porrada do carro e o da cabeça de papai espatifando-se no chão. Virando-me vi-o já cadáver, a massa encefálica à mostra, o sangue jorrando e, rompidos os embrulhos de papel, os retalhos irremediavelmente perdidos.

A caminho de casa passei na de Guga, amigo de brincadeiras e colega de escola. Ele morava na melhor casa da rua, a única com quintal, quase um bosque mágico habitado por fadas e duendes, onde costumávamos brincar nos balanços atados aos galhos altos de uma frondosa mangueira. Balanços que transformávamos em trapézios como os do Circo Garcia, que armava a sua lona nos arredores por quinze dias a cada ano; ou que desmontávamos, retirando-lhe as tábuas, fazendo das cordas os cipós nos quais brincávamos de Tarzã, o homem macaco, herói e paradigma, meu e de Guga, invencível nas lutas contra leões, tigres, jacarés e homens maus.

Ainda na porta, Guga perguntou-me por onde eu andara a tarde inteira e me informou que Madalena me procurara. Menti-lhe que me perdera de papai na Avenida Sete de Setembro e que voltara a pé. Era a versão que preparara para Madalena e foi o que disse quando ela me inquiriu.

– Você não devia sair de junto dele, você é muito traquinas! Geraldo deve estar lhe procurando como um louco. — A notícia ainda não lhe chegara.

Tomei a sopa que ela me serviu e não saí para brincar com a molecada da rua, como teria feito se outra fosse a situação. Fui para o meu quarto de onde era perceptível a preocupação de Madalena: ouvia-a ir e vir, trilhando várias vezes o curto percurso entre a porta da rua e a cozinha, arrastando os pés no corredor e praguejando contra a demora de papai. Pela primeira vez, tive pena dela. Apesar de sempre me tratar com doçura, via-a, até àquele dia, injustamente, como um estorvo: uma mulher, que não era a minha mãe de verdade, me obrigando a cumprir horários e tarefas.

Passava pouco das nove da noite quando bateu à porta um policial perguntando se era ali a casa do Sr. Geraldo Freitas Alencar.

– É, sim, mas não está.

– A senhora é o quê dele?

– A mulher. — do quarto ouvi que a voz de Madalena sufocava ganhando um tom de pânico — Mas qual é o problema?

– Sinto muito, senhora, seu marido foi atropelado e está morto. Precisamos que a senhora nos acompanhe ao Nina Rodrigues para fazer o reconhecimento do corpo.

Atraída pelo carro de policia parado à nossa porta, a vizinhança foi chegando para assuntar a novidade. Do quarto, o som atravessando o compensado da porta, eu ouvia Madalena chorando convulsivamente e invocando o Nosso Senhor do Bonfim, esperançosa, ainda, talvez, que o corpo encontrado não fosse o de papai. Pela janela entrava o alarido da rua e logo as vozes de consolo invadiram a casa. Uma delas perguntou por mim, e Madalena respondeu que eu estava dormindo. Temendo que alguém se dispusesse a conferir, fiquei deitado, quieto, as costas voltadas para a porta do quarto e adormeci.

A bruxa vinha me pegar, eu queria correr, minhas pernas se moviam, mas eu não saía do lugar, papai ria um riso de som áspero como o do freio inútil, como o dos pneus cantando nos paralelepípedos, como os das vozes estranhas, como os das buzinas dos automóveis. Urubus dançavam em torno de mim e me bicavam. A bruxa, língua bipartida, mortalha de jornal negra e branca, já quase me pegando. Papai rindo, chamando e rindo, não corra, não corra, venha Júnior, não fuja...

Acordei no meio da madrugada, a casa silenciosa e totalmente escura, o coração pulsando aos trancos. Levantei-me para beber água e espantar o medo, acendi a lâmpada da sala e, no corredor, a porta aberta do quarto de papai, a cama do casal vazia, o lençol encardido espichado, indicavam que Madalena ainda não voltara da sua triste missão. Passei o resto da noite rolando na cama, conjeturando um futuro sombrio.

Amanhecia quando Madalena chegou. Ouvi o barulho da porta e continuei deitado, fingindo que ainda não acordara. Ela foi para a cozinha, coou o café e foi me acordar com um copo de café com leite condensado e o pedaço de pão seco de todo dia. Esperou que eu me alimentasse e, não conseguindo mais conter as lágrimas, comunicou-me a morte de papai.

Não sei por qual mecanismo da minha psique, chorei como se fora coisa não sabida, como se fora confirmação de algo que, até então, pertencia ao universo do talvez.


Fred Matos

domingo, novembro 23

Clarice


foto: Fred Matos


A miríade de tonalidades de verde e azul do mar de Amaralina mesclando-se em pinceladas impressionistas. O sol a pino, meio dia, sexta-feira. O cheiro acre do azeite de dendê fritando acarajés no tacho de cobre cobrindo o fogareiro de brasa avivada ao abano compassado para não levantar cinzas. O sorriso da boca banguela, que matraca com a comadre mais madura de outro tabuleiro um caso qualquer de amor ou crime. O menino nu, barrigudo, dormindo na esteira estendida no centro do abrigo redondo coberto de palha. Outro na barriga prenhe sob a bata branca rendada, cruzada por colares coloridos de contas plásticas, guias consagradas sobre o tronco largo. Os piolhos sob o torço vermelho desmaiado coçado a ponta de faca, a mesma usada para talhar o abará. À parte, na calçada, mais à praia, o facão afiado, o negro forte, tatuado, ágil, abrindo o coco verde esguichando a água doce, quase morna que não a quis gelada, e o zunzum das abelhas coletando o açúcar do caldo da cana prensada a muque manivela, matéria prima de um mel suspeito, mas doce como a canção de Caetano ecoando no meu cérebro como o som do mar de maré cheia. As ondas escrevendo na areia com espuma o poema concreto e físico do esquecimento, onde antes eram impressas as plantas dos pés descalços da primeira namorada, que não se despia no claro, apesar de não ser casta nem de corpo mal formada, e que não era morena como a da canção que tem o seu nome e outro enredo. Corria uma brisa morna, bem me lembro e lembro ainda do velho safado e sua proposta. Nos pagaria almoço e farra pra assistir uma trepada, coisa rápida. Por mim tudo bem, qualquer grana era bem vinda, e tesão não me faltava, mas Clarice, eu já lhes disse, não se despia na luz por nada. A sua única frescura era manter mistério da íntima arquitetura da úmida caverna que se aos meus olhos negava, me oferecia dócil, no breu das madrugadas, à língua, ao tato, ao falo, e era perfeita a danada. Perfeita na geometria. Perfeita no molejo da anca ritmada. Nada se confunde em minha mente na memória daqueles dias, idos de 70, idílio de sempre. Viéramos de carona na boléia de um caminhão que o motorista, bêbedo, tocava em ziguezague, mas sem receio cantávamos e ríamos porque nosso horizonte era o próximo instante e o futuro esta desilusão na qual só me restam lembranças, lágrimas, mais nada.

 

Fred Matos

Conto publicado em “Melhor que a encomenda” – Coleção Selo Letras da Bahia – FUNCEB, EGBA – 2006.

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