domingo, setembro 7

velório

Nunca estivera tão aprumado: a barba aparada, a cabeleira domada untada com banha de porco, o paletó engomado, gravata, braços cruzados sobre o torso, estirado a fio sobre a mesa da sala, perfeitamente ajustado ao ataúde de pinho cru. Ninguém imagine que possa chegar uma amante trazendo bastardos tumultuando o velório. Disso não se cogita, mesmo não tendo sido santo. Da viúva nenhuma lágrima ainda, ocupada com a tarefa de receber e acomodar as visitas.

- Um rabo-de-galo, compadre? Se sirva, faz favor.

- Com gosto, comadre. Era a preferência do finado. Ainda me lembro do dia...

O resto ela já não ouve, tanta gente chegando.

Casa acanhada. Sala pequena. Alguns preferem o sereno, lado de fora, tamboretes emprestados pelos vizinhos. No escurão, noite nublada, lua nova, lume só das brasas dos cigarros e uma réstia tênue da lamparina da sala escapando pela fresta da janela.

- Parece velório de rico.

- Era muito querido.

- E prestativo.

- Me ajudou na cumeeira.

- A mim em muitos serviços.

- Quantos anos?

- Morreu moço.

- Quem diria? Ontem mesmo, vendendo saúde, arou a roça, plantou milho, bebeu pinga, jogou sinuca, contou lorota, saiu sorrindo.

Da cozinha o chiado do bule, o cheiro do café moído na hora.

- A comadre, coitada, tantas crianças, todas miúdas.

- Injustiça de Deus.

- Bate na boca.

- Ó vida tirana.

- Amanhã venho carpir

- Eu disse uma reza.

- Mais uma, compadre?

- Branquinha, comadre.

A noite avança. Uns saem sem despedidas, outros um até amanhã. A sala esvaziando. Agora, sozinha, o dever cumprido, crianças na cama, ela já pode chorar.

 

Nenhum comentário:

pesquisar nas horas e horas e meias