domingo, março 22

abs trato


não sei quem é o autor da foto


abstraiamos a distância
todo o universo é um só lugar
tal uma íntima sala sem teto nem paredes
onde todos os vazios são corpos
sedentos de afagos e completude

corpos libertos das hipocrisias morais
contudo éticos, porque prontos
para a execução dos seus desígnios.

abstraiamos o tempo
passado futuro presente
é um só instante
como o é o instante do orgasmo
quando todos os corpos flutuam
tal qual fantásticos flocos
ocos de culpa e reflexões

abstraiamos as diferenças
léxicas sintáticas vocativas
abstraiamos até mesmo as palavras
os idiomas
tudo o que não existe
independente de acepções,
de concretude

concriemos um novo corpo
com a conjunção dos nossos corpos
como se conciliam os córregos
para a concepção dos grandes rios
dos oceanos

abstraiamos culturas artes filosofias
abstraiamos os preconceitos
abstraiamos tudo o que nos é alheio
abstraiamos os pensamentos
abstraiamos as ideologias
abstraiamos os sentimentos

e
sobretudo
o medo.

abstraiamos o fogo e o frio
abstraiamos a fome a sede
qualquer outro desejo
que se interponha ao essencial desejo
desta nossa compreensão

abstraiamos
se necessário for
o sol a lua as galáxias
e os seus planetas

abstraiamos os sonhos
os projetos as fantasias
abstraiamos os poemas
abstraiamos as abstrações

façamo-nos um
enquanto dure a eternidade
de um gozo.


Fred Matos

12 comentários:

catadoradepalavras disse...

Conseguimos abstrair muita coisa...
Olhando a foto, penso em como abstrair a solidão, a mão vazia, a sombra...
Com carinho da LUiA

fred disse...

Luia,
Eu creio que intimamente todas as pessoas são solitárias, mesmo as que têm companhia, mesmo quando a companhia é uma pessoa disposta a ouvir e participar ativamente da nossa vida. Contudo, ser solitário não implica necessariamente em ser triste ou infeliz, porque mais importante que a companhia de outra pessoa é estar de bem consigo mesmo, é se conhecer, é aceitar os seus defeitos e aceitando-os procurar melhorar, procurar errar menos. Mais importante que a companhia de outra pessoa é a disposição para não se deixar abater com os tombos, é (parodiando uma canção popular) levantar-se, sacudir a poeira, dar a volta por cima.
Mas, obviamente, é só a minha opinião e eu posso estar errado.
Agradeço-lhe a visita, leitura e comentário.
Beijos

Adriana disse...

"façamo-nos um
enquanto dure a eternidade
de um gozo." Belo poema, Fred,a abstração de tudo para chegar a um fim em comunhão total com o outro. Lindo, lindo. Bj

fred disse...

Obrigado, Adriana. Deixa-me contente que tenha gostado.
Beijos

Graça Pires disse...

Podemos abstrair-nos de tantas coisas. Mas algumas entram-nos no sangue. Como a poesia. Um belo poema.
Um abraço.

fred disse...

Agradeço-lhe a visita, leitura e comentário, Graça.
Abraço

Priscila Bilhalva disse...

Um poema forte. A ilustração escolhido é bela e retrata bem o poema. Adorei.

fred disse...

Obrigado Priscila, fico contente por você gostar.
Beijos

Mirse disse...

Boa Noite, Fred!
Estou aqui, recomendada por Hercília. Ela sempre aponta certo e nada abstrai do que é belo.
Maravilhoso poema onde o abstrair comunga com a atenção no outro, no próprio ato da escrita, enfim Belíssimo.
O vídeo de muito bom gosto, gravei no Real.


Parabéns, Poeta!

Forte abraço

Mirze

fred disse...

Obrigado, Mirse. Deixa-me contente a sua visita, leitura e comentário.
Convido-a a vir sempre.
Beijos

Sandra Regina de Souza disse...

nessa horas perdidas... meu relógio atemporal te visita e o pulso marca o instante da tua poesia em mim!
AMEI.
meus beijos inaugurais de fã

fred disse...

Agradeço-lhe, Sandra, a visita, leitura e comentário: volte sempre.
Beijos

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