sexta-feira, outubro 1

Impixe é pouco!


Abaixo matéria publicada no Terra Magazine e que, na falta de coisa mais útil, resolvi dividir com vocês.

Marcelo Carneiro da Cunha
de São Paulo


Presidente do STF Gilmar Mendes (Foto: Redação Terra)

Estimados eleitores e leitores, incrível! Eu envelheço e envelheço e esses olhos ainda não conseguiram ver tudo que existe de esquisito nesse nosso reino da Dinamarca de ilustre povoação tupiniquim.

Mas então um candidato a presidente do país pode ligar para um presidente do Supremo Tribunal Federal e mandar parar a votação que estiver acontecendo, assim porque sim? Sério? Então, se o Serra quisesse ele poderia ligar para o Gilmar Mendes e mandar o Supremo agilizar o processo do Pimenta Neves? Ele poderia cobrar que um dos muitos processos contra o Paulo Maluf fossem julgados nesse século?

Ou seja, se o que a Folha de São Paulo mostrou nessa quinta-feira é verdade, e o ministro Gilmar Mendes atendeu mesmo a uma ligação e a um pedido do candidato Serra e parou a votação no STF, quando ela estava dando de goleada a favor da liberação da exigência de dois documentos para se poder votar, então o maior tribunal do país pode atender os desejos de um indivíduo sobre os desejos das leis da nação? Sério?

Porque se for sério mesmo, isso é muito sério! Sério de dar dor na gente, de fazer a gente pensar que algo de muito, mas muito grave ocorreu, e, pior, ocorra usualmente e estejamos todos diante de um problema de dimensão mastodôntica!

Não sei como vocês se sentiram, mas eu fiquei - e aqui vai um adjetivo que eu vinha guardando especialmente pra esse momento - estarrecido. Tão estarrecido fiquei que usei a palavra estarrecido para descrever como eu fiquei, vejam só.

Porque, estimados eleitores e leitores, quando ocorre um caso de possível uso da máquina e do dinheiro público em benefício de poucos, como no possível caso do filho da ministra Erenice, tão cantado em prosa e verso nas últimas semanas, a coisa é séria e triste, mas a República não se sente ameaçada. Diante de um roubo de banco, ninguém pensa em revogar a democracia ou questionar o sistema de governo baseado em três poderes independentes. Porque para serem três e independentes, estimados eleitores e leitores, eles precisam ser, acima de tudo, independentes. O STF é independente, se um ministro se submete a pedidos pessoais para tomar decisões para a nação? Se isso ocorre, o que ocorre, com todos nós?

Podemos viver em paz e em harmonia se alguns de nós optam por obedecer aos sinais de trânsito e outros não? Podemos viver confiando na Justiça quando ela é tão privatizada que atende aos interesses intensamente privados de um indivíduo sobre todos os demais?

Não, estimados leitores e eleitores, não podemos. E, portanto, se isso aconteceu mesmo, eu acho que o ministro Gilmar Mendes não pode seguir sendo ministro, não depois de ter feito algo dessa ordem de pequeneza. Ou não teremos mais um Supremo TF, e sim, um Mínimo TF. Não imagino que os demais membros dessa Corte possam assistir pacificamente ao desmonte da imagem, da tradição e da dimensão que uma corte como essa tem, ou, simplesmente, não tem.

E, se isso aconteceu mesmo, acho que o ministro Gilmar Mendes deve ser submetido a algo muito mais duro do que um mero impixement, mas sim passar uma semana sendo impiedosamente espinafrado pela minha Avó Jovita, punição tão, mas tão severa, que o próprio Getúlio, dizem, preferiu entrar para a História do que enfrentar a minha avó buzinando nos seus ilustres ouvidos.

Gilmar Mendes e o candidato José Serra, quando perguntados sobre a tal conversa, negaram que ela tivesse ocorrido. O jornalista presente disse que ela ocorreu. Se os dois tivessem falado que tinham sim conversado sobre coisas de Zeppelin e traseiro de moça, sobre o Palmeiras e mediunidades, tudo bem, mesmo que esquisito. Mas os dois falaram que a conversa não ocorreu.

Se ela ocorreu, eles não foram verdadeiros nas suas declarações. E, pouco depois de a conversa não ocorrida ter ou não ocorrido, o ministro parou a votação com seu esquisito pedido de vistas. Agora, ele precisa simplesmente abrir o seu sigilo telefônico e provar que a conversa nunca aconteceu, e fim de conversa. Ou arcar com as consequências da existência da conversa que a Folha diz que houve - lembrando que a minha avó Jovita, dos infinitos campos do céu, onde galopa há anos, aguarda pacientemente pelo resultado dessa investigação, e que uma confissão pode reduzir a sentença. Pense, ministro, pense.

E, antes de encerrar, minhas desculpas à Folha de São Paulo, que deu uma demonstração do bom e sólido jornalismo em ação. Eu andei falando que a Folha tinha pulado o tubarão e perdido o jeito (leiam a coluna de umas semanas atrás).

Não pulou, não perdeu, e sabe fazer jornalismo, quando quer. Sorte a nossa, azar deles.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.

19 comentários:

Valquiria Calado disse...

hUMMMM ESTAMOS EM EPOCA POLITICA, JURO NÃO GUENTO MAIS,,,


Na emoção se sair do casulo
no colorido que dei ao sonho
nas formas geometricamente coloridas das asas
no brilho cintilante que deixei no ar:
Havia amor, paixão, deslumbre...encanto!

Fred Matos disse...

Todas as épocas são políticas, amiga. Estamos em época eleitoral. Sei que muitas vezes se torna chato, mas é imprescindível para a democracia, imprescindível para o esforço de melhorar a condição humana.

Agradeço-lhe pela visita e comentário.

Ótimo fim de semana.
Beijos

Gerana Damulakis disse...

Abração, amigo Fred.

Fred Matos disse...

Outro imenso pra você, Gerana.
e um beijo

dade amorim disse...

Fred, o difícil é saber de que lado vem a verdade, porque as mentiras vêm de todos (os lados).
Mas continua sendo necessário falar, botar pra fora, ventilar. Até que alguma luz se faça (se fizer).

Beijo.

Mirze Souza disse...

A verdade está aqui!

É muito pouco. A consciência do povo brinca com a democracia.

São tantas mentiras e jogadas que elegem um Tiririca, pelo menos esse é verdadeiramente palhaço e analfabeto!

Parabéns, Fred!

Beijos

Mirze

Isha Shiri disse...

Olá, como está você? Vim te visitar.

Eu li com atenção e gostaria de dar minha opinião, mesmo não podendo votar no Brasil, ainda, eu leio os jornais.

Penso que o primeiro erro foi mudar a regra. Se antes era o Título de Eleitor, e só ele, assim que devia ficar.

Mudaram para mais um documento com foto e o título. Ok

Depois pediram para mudar novamente, e assim exigem necessária uma outra avaliação da regra. Ok

Acho que perguntar, telefonando ou não, para quem precisa julgar se isso tudo é válido, é um dever de todos. Eu, se pudesse, ligaria para cobrar uma decisão justa.

Vocês brasileiros deveriam ir às ruas para perguntar: - Porque pediram para mudar uma regra já de tantos anos? Porque mudaram e agora querem voltar atrás?

No final tudo ficou pior. Agora podem votar sem o documento oficial, que é o titulo de eleitor, mas se tiver outro documento com fotografia pode votar sem o título de eleitor. Isso não é bizarro?

Um juiz não pode ser uma estátua que não conversa com ninguém. ele deve sim ouvir todos os lados. Se julga o pedido de um lado, ele deve ouvir também o outro lado que pede explicações. A justiça deve ser soberana. Os homens não podem estar acima da justiça. O que eu vejo no Brasil é o contrário. Aqui existem homens e partidos que se julgam acima da lei e da ordem.

Sinceramente,
Te desejo a paz

Fred Matos disse...

"as mentiras vêm de todos (os lados)."

Pois é, Dade, mas as mentiras e ou verdades que interessam aos udenistas paulistas são divulgadas pela grande mídia como se se tratasse de verdade absoluta, enquanto as que lhes são contrárias (verdadeiras ou não) raramente são divulgadas. A grande novidade neste caso foi a "Folha" divulgar uma versão (mentira ou verdade?) que o tucanato udenista paulista preferiria esconder.

Grato por vir e comentar.
Beijos

Fred Matos disse...

"A consciência do povo brinca com a democracia."

Apesar de todos os seus defeitos, e um deles é justamente permitir a eleições de palhaços e outros que tais, ainda prefiro a democracia, Mirze.

Agradeço-lhe pela visita e comentário.
Beijos

Fred Matos disse...

"Um juiz não pode ser uma estátua que não conversa com ninguém..."

Bom te rever aqui, Isha, deixa-me contente.

Você tem razão, um juiz não pode ser uma estátua e deve sim ouvir todas as opiniões para dar o seu voto. Neste caso, contudo, interrompeu-se um julgamento no qual todas as partes estavam representadas pelos seus advogados que já tinham expressado todas as opiniões. O pedido de vistas, a pedido de um candidato, foi apenas para ganhar tempo, até porque a questão já estava decidida por maioria. Além disso, antes da lei eleitoral que está dando toda essa confusão, já se votava sem o título de eleitor. A novidade é que a nova Lei estava pedindo que se apresentasse dois documentos, o título e outro qualquer com foto. Os juízes decidiram que o título eleitoral, já que não tem foto, é dispensável. Anteriormente era possível votar levando apenas o título, agora já não mais.

O que me chamou a atenção, porém, para a matéria foi o fato de que um jornalista de um grande veículo dar a informação e ser prontamente desmentido. Sendo assim, ou o jornalista está mentindo e deveria ser processado pelo juiz e pelo candidato, ou está dizendo a verdade e são eles, juiz e candidato que, pretendendo esconder o fato, atestam que não é lícito um juiz do Supremo Tribunal interromper um julgamento para atender o interesse individual de um candidato ou de qualquer outra pessoa.

Agradeço-lhe por vir e comentar.

Beijos

Batom e poesias disse...

Na falta de algo útil a dizer, passo para deixar-te um beijo.

Rossana

Fred Matos disse...

Obrigado, Rossana.
Saudades de você, menina.
Beijo

CAROLINA CAETANO disse...

Fred, e ainda gostei mais de "todas as épocas são políticas".
Vou compartilhar desta matéria, se vou!
Estou com você em mesma decisão e pensamento.
Um abraço!
Carolina.

Insana disse...

"Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças"
Charles Darwin


Bjs
Insana

D.Ramírez disse...

Essas coisas infelizmente sempre existiu, mas eles nao tem culpa de nada. culpado somos nos.
Por isso nao dou voto a ninguem. As pessaos se indignam quando falo q voto em branco, pq acham q eu devo mudar algo, mas mudar com os mesmos, ou crias dos mesmos?
A melhor maneira de mudar o quadro seria ninguem ir as urnas, mas ninguem mesmo!
Enquanto forem semrpe os mesmos e eu nao ver ese país ser melhor que os de primeiro mundo, andando tudo bem ,desde a educação ate os piores problemas, meu voto, nao terão.
Abraços

Paulo Vitor Cruz disse...

gostei do blog, cara.. virei seguidor..

abs.

Marcele Vasconcelos disse...

Simplesmente Fantástico!!!!
É com grande honra que sigo o seu blog! Parabéns!
Sinto muita falta de almas como a sua! Saudações!

Fred Matos disse...

Carolina,
Insana,
Ramirez,
Paulo,
Marcele,


Peço-lhes que me desculpem pela demora para responder. É que o meu último acesso aqui foi no dia 6 de Outubro um pouco porque tenho andado ocupado demais no trabalho, mas, sobretudo, porque na falta de ânimo para escrever tenho preferido fotografar nas horas vagas e, em razão disso, quando acesso a internet tenho priorizado o meu flickr que vocês podem acessar clicando na foto que está no post que acabei de publicar.
Agradeço a todos os comentários e aos novos seguidores.
Obviamente que o tesão para escrever pode voltar a qualquer momento e, voltando, estarei mais assíduo aqui.
Beijos&abraços

Adriana Godoy disse...

Conferido, lido, e mais estarrecida fiquei. Bj

pesquisar nas horas e horas e meias