sexta-feira, novembro 7

meu menino


às vítimas da estupidez humana


não sei quem é o autor da foto


meu menino gostava de flores
e de feijoada
bebia cerveja fumava sorria
e me contava seu sucesso
a cada nova namorada

meu menino gostava de livros
lia lia lia
até quando os olhos cansavam
e me dizia das fantasias
que povoavam suas madrugadas

meu menino foi recrutado
para morrer pela pátria
ficava bonito de farda
sapato brilhante
camisa engomada

meu menino me escreveu uma carta
mais bonita que a mais bela poesia
está na sala emoldurada
ao lado da fotografia
de quando recebeu sua medalha

meu menino era valente
como os heróis que admirava
mas ele não sabia
que diferente do que lia
a guerra é um livro que mata

não dorme mais acesa
a lâmpada da varanda
nem o meu ouvido atento
ao trinco da porta

a cama do meu menino está vazia
arrumada, lençóis trocados
perfumados com lavanda
como se ele pudesse voltar
ainda
para alegrar minha velhice
com gargalhadas
roncando
tranqüilizar meu sono

mas não acendo mais
a lâmpada da varanda
e tudo o que escuto
é saudade


Fred Matos




10 comentários:

Dila Luna Matos disse...

Poxa!
Que triste, me lembrei do filme Hair.
Bjão no coração.

fred disse...

Beijão, Lick

Elis disse...

Ainda que triste é belo.
Um imenso feixe de luz violeta pra você Fred.
Abraços da amiga Elis

fred disse...

Obrigado, Elis.
Obviamente não sou mãe, muito menos mãe de um soldado que tenha morrido na guerra, mas cabe ao poeta dar voz a qualquer personagem, real ou imaginário. É uma pena que poucos entendem isso como você e lêem poesia como se se tratasse de um texto autobiográfico.
Obrigado, amiga, pela visita, leitura e comentário.
Beijos.

Maurício disse...

Sua resposta a Elis me lembrou da Nota Preliminar de Fernando Pessoa , nas Ficções do Interlúdio, onde se reunem os poemas dos heterônimos Alberto Caeiros, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, Lá está escrito:
"Negar-me o direito de fazer isto seria o mesmo que negar a Shakespeare o direito de dar expressão à alma de Lady Macbeth, com o fundamento de que ele, poeta, nem era mulher, nem, que se saiba, histero-epilético, ou de lhe atribuir uma tendência alucinatória e uma ambição que não recua perante o crime".

fred disse...

Maurício,
Conheço este texto, concordo com ele e é assim que é a minha poesia, na qual evidentemente há a minha visão de mundo, sentimentos e pensamentos meus, mas, também, uma imensa dose de ficção, coisa que me permite colocar na primeira pessoa, sentimentos e pensamentos que não são meus e são, às vezes, opostos aos meus.
Fico sempre contente quando surge a oportunidade de esclarecer isso, porque é muito comum que os leitores acreditem que a poesia é retrato, realidade de sentimentos e pensamentos do poeta. Pode ser às vezes, muitas vezes não é.
Obrigado.
Abraços

maré disse...

da soleira de todas as memórias
.
.
.
saudade

saudade.

______

obrigado!

...também por me poder conhecer mais além mar.

maré

fred disse...

Fico muito alegre com a sua vinda, Maré.
Obrigado pela leitura e comentário.
Beijos

Dila Luna Matos disse...

É belo também, como tudo que você faz.

“Todos os moços, quando chegam à idade do amar e de poetar, associam à idéia do amor à idéia da morte.”
Olavo Bilac

Mil bjs.

fred disse...

Mas eu ainda sou um garotinho (risos)
Beijão

pesquisar nas horas e horas e meias