sábado, janeiro 10

quem conta um conto...


Dando seqüência às traduções dos contos de Julio Cortázar:

ilustração: fotograma de Gael García Bernal 


As mãos que crescem

Julio Cortázar


Tradução: Fred Matos

a partir do texto publicado nas páginas 36 a 42 de “Cuentos Completos/1” Decimoquinta reimprésión: junio de 2007, Editora Alfaguara – Buenos Aires – AR


Ele não tinha provocado. Quando Cary disse: "Você é um covarde, um canalha, e além disso um mau poeta", as palavras decidiram o curso das ações, tal como muitas vezes acontece nesta vida.

Plack avançou dois passos até Cary e começou a bater-lhe. Estava bem seguro de que Cary lhe respondia com igual violência, mas não sentia nada. Apenas as suas mãos que, a uma velocidade prodigiosa, lançava a carga fulminante dos braços, indo dar no nariz, nos olhos, na boca, nas orelhas, no pescoço, no tórax, nos ombros de Cary.

Bem de frente, movendo o torso com um balanço rapidíssimo, sem retroceder, Plack golpeava. Seus olhos mediam a silhueta inteira do adversário. Mas colocado ainda melhor suas próprias mãos; via-as bem fechadas, cumprindo a tarefa como pistões de automóveis, como qualquer coisa que cumprisse a sua tarefa movendo-se ao compasso de um balanço rapidíssimo. Batia em Cary, continuava batendo, e cada vez que seus punhos se abatiam em uma massa escorregadia e quente, que sem dúvida era a cara de Cary, ele sentia o coração pleno de júbilo.

Por fim baixou os braços, colocando-os para descansar junto ao corpo. Disse:

- Já é suficiente, estúpido. Adeus.

Começou a andar, saindo da sala da Prefeitura, pelo corredor que conduzia à rua distante.

Plack estava contente. Suas mãos haviam se portado bem. Trouxe-as diante de si para admirá-las; lhe pareceu que tantos golpes as havia inchado um pouco. Suas mãos haviam se portado bem, que demônios; ninguém diria que ele era capaz de boxear como ninguém.

O corredor se estendia extremamente longo e deserto. Por que demorava tanto a percorrê-lo? Talvez o cansaço, mas se sentia leve e sustentado pelas mãos invisíveis da satisfação física. As mãos da satisfação física. As mãos? Não existia no mundo mão comparável às suas mãos; provavelmente tampouco as havia tão inchadas pelo esforço. Voltou a olhá-las, balançando-as como se faz com bielas ou meninas em férias; sentiu-as profundamente suas, atadas a seu ser por razões mais profundas que a conexão das munhecas. Suas doces, suas esplêndidas mãos vencedoras.

Assobiava, marcando o compasso com a marcha pelo interminável corredor. Todavia faltava uma grande distância para alcançar a porta de saída. Mas, o que importava depois de tudo?. Na casa de Emilio se comia tarde, embora, na verdade, ele não iria almoçar na casa de Emilio, e sim no apartamento de Margie. Almoçaria com Margie, apenas pelo prazer de dizer a ela palavras carinhosas, e retornaria logo para cumprir a jornada vespertina. Muito trabalho, na prefeitura. Não bastavam todas as mãos para cumprir a tarefa. As mãos... Mas a suas sim, que haviam estado ocupadas antes. Bater e bater, vingadoras; talvez por isso agora lhe pesavam tanto. E a rua estava longe, e era meio-dia.

A luz da porta começava a agitar-se na atmosfera visual de Plack. Deixou de assobiar; disse: “Bliblug, bliblug, bliblug”. Lindo, falava sem motivo, sem significado. Então foi quando sentiu que algo lhe arrastava pelo chão. Algo que era mais que algo; suas coisas estavam arrastando no chão.

Olhou para baixo e viu que os dedos de suas mãos arrastavam no chão.

Os dedos de suas mãos arrastavam no chão. Dez sensações incidiam no cérebro de Plack com a colérica anunciação de novidades repentinas. Ele não queria crer, mas era certo. Suas mãos pareciam orelhas de elefante africano. Gigantescas telas de carne moída arrastando no chão.

Apesar do horror ele deu uma risada histérica. Sentia cócega no dorso dos dedos; cada junção dos azulejos era sentida pela pele como lixa. Quis levantar uma mão mas não pôde com ela. Cada mão devia pesar cerca de cinqüenta quilos. Nem sequer conseguiu fechá-las. Ao imaginar os punhos que teriam se formado se sacudiu de riso. Que manoplas! Voltar para junto de Cary, em segredo e com os punhos como tambores de petróleo, apontar em sua direção um dos tambores, desenrolando-o lentamente, deixando aparecer as falanges, as unhas, meter Cary dentro da mão esquerda, sobre a palma, cobrir a palma da mão esquerda com a palma da mão direita e esfregar suavemente as mãos, fazendo Cary girar de extremo a outro, como um pedaço de massa de talharim, como Margie nas quintas-feiras ao meio-dia. Fazê-lo girar, assobiando canções alegres, até deixar Cary mais moído que uma galinha velha.

Plack alcançava agora a saída. Mal podia mover-se, arrastando as mãos pelo chão. A cada irregularidade do lajeado sentia o encrespamento furioso dos seus nervos. Começou a maldizer em voz baixa, lhe parecia que tudo se tornava roxo, mas nisto influía o vitral da porta.

O problema capital era abrir a maldita porta. Plack resolveu-o soltando uma patada e metendo o corpo quando a folha bateu do lado de fora. Contudo, as mãos não passavam pela abertura. Pondo-se de costas quis fazer passar primeiro a mão direita, depois a outra. Não pôde fazer passar nenhuma das duas. Pensou: “Deixo-as aqui”. Pensou-o como se fosse possível, seriamente.

- Absurdo, murmurou, porém a palavra era já como uma casca vazia.

Tratou de acalmar-se, e se deixou cair à turca diante da porta; as mãos ficaram como adormecidas junto aos minúsculos pés cruzados. Plack as olhou atentamente; fora o aumento não haviam mudado. A verruga do polegar direito, exceto que seu tamanho era agora o de um relógio despertador, mantinha a mesma bela cor azul do mar Adriático. O corte das unhas persistia em sua prolixidade (Margie). Plack respirou profundamente, técnica para serenar-se; o assunto era sério. Muito sério. O bastante para enlouquecer a quem quer que aconteça. Mas conseguia sentir de verdade o que sua inteligência lhe afirmava. Sério, assunto sério e grave; e sorria ao dizê-lo, como em um sonho. Repentinamente se deu conta de que a porta tinha duas folhas. Endireitando-se, aplicou um pontapé na segunda folha e pôs a mão esquerda como tranca. Lentamente, calculando com cuidado as distâncias, fez passar pouco a pouco as duas mãos à rua. Se sentia aliviado, quase feliz. O importante agora era ir à esquina e, em seguida, tomar um ônibus.

Na praça as pessoas o contemplavam com horror e assombro. Plack não se afligia; muito mais estranho seria que não o contemplassem. Fez com a cabeça um violento gesto ao motorista de um ônibus para detivesse o veículo na mesma esquina. Queria subir, mas suas mãos pesavam demais e se esgotou ao primeiro esforço. Retrocedeu, sob a avalanche de agudos gritos que vinham do interior do ônibus, onde as anciãs sentadas no lado da janela acabavam de desaparecer em série.

Plack continuava na rua, olhando as suas mãos que estavam se enchendo de sujeira, de pequenas farpas e pedrinhas da calçada. Má sorte com o ônibus. Talvez o bonde?

O bonde parou, e os passageiros exalaram gritos horrorosos ao perceber aquelas mãos arrastadas no chão e Plack entre elas, pequenino e pálido. Os homens estimularam histericamente o condutor para que arrancasse sem esperar. Plack não pôde subir.

- Tomarei um táxi - murmurou, começando lentamente a desesperar-se.

Abundam os táxis. Chamou um, amarelo. O táxi se deteve como sem interesse. Havia um negro ao volante.

- Verdes prados! - balbuciou o negro - Que mãos!

- Abra a porta, se abaixe, pegue a minha mão esquerda, suba-a, tome-me a mão direita, suba-a, empurre-me para entrar no carro, lentamente, assim está bem. Agora me leve à rua Doze, número quatrocentos e setenta e cinco, e depois vá para o inferno, negro dos diabos.

- Verdes prados! - disse o motorista, retornando à tradicional cor cinza - Está certo que estas mãos são as suas, senhor?

Plack gemia no assento. Mal havia lugar para ele: as mãos ocupavam todo o piso, se transbordavam sobre o assento. Começava a resfriar e Plack espirrou. Quis instintivamente tapar o nariz com uma mãe e por pouco se arrancou o braço. Deixou-se estar, abúlico, vencido, quase feliz. As mãos descansavam sujas e sólidas no chão do táxi. Da verruga, golpeada contra um poste de iluminação, brotavam algumas gordas gotas de sangue.
- Irei à casa de um médico - disse Plack - Não posso entrar assim na casa de Margie. Por Deus, não posso; lhe ocuparia todo o apartamento. Irei ver um médico; me aconselhará a amputação, eu aceitarei, é a única maneira. Tenho fome. Tenho sono.

Golpeou com a testa o vidro dianteiro.

- Leve-me à rua Cinqüenta, número quarenta e oito cinqüenta e seis. Consultório do doutor September.
Depois se pôs tão contente com a idéia que acabara de ocorrer-lhe que chegou a sentir o impulso de esfregar as mãos de contentamento; moveu-as pesadamente, deixou-as estar.

O negro subiu com as mãos até o consultório do médico. Houve uma espantosa corrida na sala de espera quando Plack apareceu, caminhando atrás de suas mãos que o negro segurava pelos polegares, suando mares e gemendo.

- Leve-me até aquela poltrona; assim, está bem. Meta a mão no bolso da calça. Tua mão, imbecil: no bolso da calça; não, esse não, o outro. Mais lá dentro, criatura, assim. Tire o rolo de dinheiro, separe um dólar, guarde o troco e adeus.

Desabafava-se no subserviente negro, sem saber o porquê de seu nojo. Uma questão racial, talvez, claro está que sem porquês. Duas enfermeiras se apresentaram, escondendo o pânico com sorrisos, para que Plack apoiasse nelas as mãos. Arrastaram-no trabalhosamente até o interior do consultório. O doutor September era um indivíduo com uma redonda cara de mariposa em bancarrota; veio para apertar a mão de Plack, advertiu que o assunto demandaria certas evoluções forçadas, permutou o aperto por um sorriso.

- O que o traz aqui, amigo Plack?

Plack o olhou com lástima.

- Nada - respondeu, displicente -dói-me a árvore genealógica. Mas você não vê minhas mãos, pedaço de médico?

- Oh, oh! - admitiu September - Oh, oh, oh!

Pôs-se de joelhos e apalpou a mão esquerda de Plack. Dava a impressão de sentir-se bastante preocupado; Pôs-se a fazer perguntas, as habituais, que soavam estranhamente, agora que se aplicavam ao assombroso fenômeno.

- Muito bizarro - resumiu com ar convencido - Sumamente estranho, Plack.

- Parece-lhe?

- Sim, é o caso mais esquisito da minha carreira. Naturalmente, você me permitirá tirar algumas fotografias para o museu de raridades da Pensilvânia, não é? Ademais tenho um cunhado que trabalha no The Shout, um diário silencioso e reservado. O pobre Korinkus anda bastante arruinado; eu gostaria de fazer algo por ele. Uma reportagem do homem das mãos... digamos, das mãos exorbitantes, seria o triunfo para Korinkus. Conceder-lhe-emos essa primazia, não é verdade? Poderíamos trazê-lo aqui esta noite mesmo.

Plack cuspiu com raiva. Tremia-lhe todo o corpo.

- Não, não sou carne de circo - disse sombriamente -. Vim aqui somente para que me ampute isto. Agora mesmo, entenda. Pagarei o que seja, tenho um seguro que cobre estes gastos. Por outro lado estão meus amigos, que respondem por mim; quando souberem o que ocorre comigo, virão como um único homem para apertar a... Bem, eles virão.

- Você decide, meu querido amigo - o doutor September olhava seu relógio de pulso -. São três da tarde (e Plack se sobressaltou porque não acreditava que houvesse transcorrido tanto tempo). Se o opero agora, lhe tocará passar o pior momento à noite. Esperamos até amanhã? Entretanto, Korinkus...

- O pior momento eu estou passando agora - disse Plack e levou mentalmente as mãos à cabeça - Opere-me, doutor, por Deus. Opere-me. Digo-lhe que me opere! Opere-me, homem..., não seja criminoso!! Compreenda o que sofro!! Nunca lhe cresceram as mãos, a você?? Pois a mim, sim!!! Ai está...; a mim, sim!!!

Chorava, e as lágrimas lhe caíam impunemente pela cara e gotejavam até perderem-se nas grandes rugas das palmas das suas mãos, que descansavam viradas para cima no chão, com o dorso nos azulejos gelados.

O doutor September estava agora rodeado de um diligente corpo de enfermeiras, cada qual mais linda. Sentaram Plack em um tamborete entre elas e puseram as suas mãos sobre uma mesa de mármore. Ferviam fogos, aromas fortes se confundiam no ar. Cintilar de lâminas, de ordens. O doutor September, afundado em sete metros de tecido branco; e a única coisa viva nele eram seus olhos. Plack começou a pensar no momento terrível da volta à vida, depois da anestesia.

Encostaram-no docemente, de maneira que as mãos ficaram sobre a mesa de mármore onde se levaria a cabo o sacrifício. O doutro September se aproximou, rindo por baixo da máscara.

- Korinkus virá tirar fotos - disse - Ouça, Plack, isto é fácil. Pense em coisas alegres e seu coração não sofrerá.
 Despediu-se de suas mãos? Quando despertar... já não estarão com você.

Plack fez um gesto tímido. Começou a olhar as mãos, primeiro uma e depois outra. “Adeus, menininhas”, pensou. “Quando estiverem no aquário de formol que lhes destinarão especialmente, pensem em mim. Pensem em Margie que as beijava. Pensem em Mitt cujo cabelos acariciavas. Perdôo-lhes os males passados, em homenagem à surra que destes em Cary, nesse vaidoso insolente...

Haviam aproximado algodões ao seu rosto e Plack estava começando a sentir um cheiro doce e pouco agradável. Tentou um protesto mas September fez um suave sinal negativo. Então Plack se calou. Era melhor deixar que o adormecessem, entreter-se pensando coisas alegres. Por exemplo, a briga com Cary. Ele não havia provocado. Quando Cary disse: "Você é um covarde, um canalha, e além disso um mau poeta", as palavras decidiram o curso das ações, tal como muitas vezes acontece nesta vida.

Plack avançou dois passos até Cary e começou a bater-lhe. Estava bem seguro de que Cary lhe respondia com igual violência, mas não sentia nada. Apenas as suas mãos que, a uma velocidade prodigiosa, lançava a carga fulminante dos braços, indo dar no nariz, nos olhos, na boca, nas orelhas, no pescoço, no tórax, nos ombros de Cary.

Lentamente, voltava a si. Ao abrir os olhos, a primeira imagem que penetrou nele foi a de Cary. Um Cary muito pálido e inquieto, que se inclinava balbuciante sobre ele.

- Meu Deus...! velho Plack... Jamais pensei que ia acontecer uma coisa dessas...

Plack não compreendeu. Cary, ali? Pensou: talvez o doutro September, prevendo a possibilidade de gravidade pós-operatória, havia avisado aos amigos. Porque, além de Cary, via agora os rostos de outros empregados da Prefeitura que se agrupavam em torno do seu corpo estendido.

- Como estás, Plack? - perguntava Cary, com voz estrangulada - Te... Te sentes melhor?

Então, fulminantemente, Plack compreendeu a verdade. Havia sonhado! Havia sonhado! “Cary me acertou um golpe na mandíbula, desmaiando-me, em meu desmaio sonhei esse horror das mãos...”

Lançou uma aguda gargalhada de alivio. Uma, duas, muitas gargalhadas. Seus amigos o olhavam, com rostos todavia ansiosos e assustados.

- Oh, grande imbecil! - apostrofou Plack, olhando Cary com olhos brilhantes - Venceste-me, mas espere que me reponha um pouco..., vou te dar uma sova que te porá um ano na cama...!

Alçou os braços para enfatizar as suas palavras com um gesto conclusivo. Então seus olhos viram os cotos.

5 comentários:

Ariadna Garibaldi disse...

Ler-te em verso ou em prosa, poetando, contando histórias, comentando ou escrvendo qualquer outra coisa é sempre MUITO BOM! Por isso que indico o teu blogue para o Prêmio Dardos. Sei que não sou a primeira a fazer isso, porém mais esta indicação só vem a mostrar o quanto o teu trabalho é apreciado por todos os que amam as letras!

Beijo grande, poeta amigo!

Ada

fred disse...

Obrigado, Ada.
Faz um tempo imenso que você não aparecia, espero que esteja tudo bem contigo.
Beijos

Bruna Mitrano disse...

Comentei agorinha mesmo sua outra tradução. Acho que você deveria continuar nos dando esses presentes (ó o interesse!rs). Talvez eu nunca lesse esses contos do Cortázar se não fosse sua iniciativa!
Onde você encontrou uma foto tão a ver?!rs

Bruna Mitrano disse...

Ah, comentando o comentário da Ariadna:
Há um tempão já, a Aline Aimée me indicou pro prêmio Dardos e eu estou ainda escolhendo os 15 pra indicar. Seu blog já estava na lista. Vai ser indicado pela 3ª vez, sinto muito, não vou mudar, seu blog, cá entre nós, é o meu preferido.

fred disse...

Bruna,

Eu pretendo continuar traduzindo, Bruna, em interesse próprio, porque se calhar aprendo espanhol. Como não sei e não tenho um dicionário decente, há palavras, frases inteiras às vezes, que entram no conto por "bom senso", ou, melhor dizendo: por minha conta e risco.

Fico conte, muito orgulhoso, principalmente pelo elogio ao blog, mas como já escolhi 15 antes para passar adiante, quando recebi da primeira vez, eu vou aceitar, tanto o seu quanto o da Ariadna, mas não vou passar adiante.

Obrigado.

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