domingo, fevereiro 15

no oco da poesia



foto: Fred Matos


n
ão conheço estas pessoas:
o moço que me chama pai
com o olhar de mágoa ou ódio,
a menina que se atira ao meu colo,
cofia a minha barba,
baba minha camisa
me chama avô.

a casa, porém, não me é estranha:
há quadros pendurados nas paredes
que me lembram pessoas
cujos nomes já não me recordo,
mas com fisionomias
que parecem grudadas
nas minhas lembranças mais remotas.

não sei se posso dizer
que parece um sonho,
não é um sonho,
ainda que tudo sugira ocorrer
em câmara lentíssima.

os livros, sim, conheço-os
como a palma da minha mão.

tenho na lembrança uma imagem
- provavelmente sou eu aquele rapaz -
na qual descíamos
- ela, quem é ela? qual o seu nome? -
mãos dadas até o cais do lago.

levitávamos sobre palavras
que fluíam fáceis e fúteis
e ainda creio ouvir o eco
dos planos para um futuro
que é agora um passado mais recente,
mas do qual não me recordo.

o médico me trata
como se fôssemos velhos amigos,
receita-me comprimidos
e insiste que eu escreva,
que procure recordar,
que lance ao papel
qualquer resquício de memória.

mas estou muito cansado para continuar
todas as lembranças são fantasias vazias
e prefiro me deixar cair no esquecimento
como palavras confusas no oco da poesia


Fred Matos
15/2/2009


4 comentários:

Amélia disse...

Gosto tanto deste poema- não énovidade-costumo gostar dos teus poemas. Será que posso colocá
-lo um dia destes no meu blogue?

fred disse...

Você pode colocar qualquer um que deseje, Amélia. Só me peço que avise, para que eu possa lamber a cria.
Obrigado por vir, por ler, por comentar.
Beijo

Cosmunicando disse...

tema triste, abordado com extrema beleza.
bjos

fred disse...

Obrigado, Mercedes.
Beijos

pesquisar nas horas e horas e meias