sexta-feira, março 6

Transe


Conto classificado entre os dez melhores do 14o Concurso Nacional de Contos Luiz Velela, referente ao ano de 2004, publicado em 2006 pela Fundação Cultural de Ituiutaba (MG).



ilustração: Jan Saudeck


Sim, reinava uma grande calma naquela rotina metódica que me permitia ocultar a beatitude jamais exteriorizada, jamais evidenciada, jamais tornada algo concreto a olhos alheios, uma bem-aventurança para consumo próprio, cujos únicos sinais perceptíveis poderiam ser confundidos com aqueles que revelam uma alma sóbria, metódica, dessas que se escondem sob trajes elegantes e que nos faz parecer que a vida se justifica somente no cumprimento dos rituais sociais, rituais aos quais eu comparecia amiúde usando o meu melhor sorriso, de sorte que todos me consideravam um homem feliz, um homem sem preocupações, um homem capaz de encontrar uma frase de consolo nas ocasiões pesarosas, um chiste para descontrair um ambiente tenso, um galanteio para levantar o astral de uma mulher mal-amada, uma citação apropriada para pacificar ou trazer de volta ao cerne uma polêmica intérmina, dessas que enveredam para aspectos secundários e destes para outras quaisquer questões impertinentes ao caso. Em suma, um porreta. Afável, prestativo, sempre disponível para assumir as tarefas mais ásperas e desgastantes: síndico do prédio, secretário do clube, tesoureiro do partido, tudo isso sem a afetação característica dos iluminados, sem procurar impor as próprias convicções, antes buscando a mediação. Mas ela, a beatitude, imperceptível, íntima, me acompanhava sempre; domada, contudo, por uma determinação férrea de quem, dono de uma razão que somente aos absolutamente bem-aventurados é concedida, não permitiria nunca que viesse à tona enodoar-se com a mediocridade humana, exceto agora, na hora própria. 

Quando eu era criança ela já estava comigo, mas, então, não eram necessários cuidados para a dissimulação, pois a bem-aventurança é inerente a todas as crianças que, contudo, contaminadas pelo ambiente adulto, perdem-na lentamente sufocando-a inconscientemente durante o processo de embrutecimento considerado necessário para “enfrentar a vida”, como se a vida fosse um adversário a ser vencido. Eu, diferente das outras crianças, havia-a percebido, e percebera nos meus irmãos mais velhos a transformação que, sob a aparência de um natural amadurecimento, escondia a incubação do vírus mortal da tristeza. Vírus responsável pela mais avassaladora epidemia humana e cujo inevitável contágio só encontra barreiras, raras infelizmente, em alguns indivíduos premiados por um certo tipo de alienação mental e entre os bem-aventurados. Paradoxalmente, os sintomas da infecção são festejados pelo corpo social contaminado. Tal percepção, “estalo”, “insight”, “peak experience”, chamem com quiserem, me ocorreu, eu tinha entre cinco e seis anos, em uma fazenda onde fui passar as férias. Sentado na margem de uma lagoa fui inundado por uma sensação de plenitude que fluía do céu, da água, da terra, das pedras, das plantas, dos animais, do vento, do sol e de mim mesmo, tudo pulsando no mesmo ritmo, no ritmo da vida. Senti a minha mente se abrir como uma flor para beber a luz e o conhecimento, senti os meus pés criando raízes, as minhas mãos transformadas em cântaros de onde nasciam os rios, os meus olhos em faróis de onde jorravam arcos-íris e estrelas, meu coração tornado um tambor cujo som marca ainda a cadência da vida. Naquele momento a Natureza me segredou que para preservar eternamente aquele estado de êxtase seria necessário manter a infantil beatitude, e que, para mantê-la, deveria ocultá-la, fingindo maturidade. Interpretei o papel com tal sucesso que, caçula, passei a ser considerado o mais maduro rebento da família. Embriagado com a interpretação, eu corri o risco de me transformar na máscara construída, o que implicaria em perder a bem-aventurança e, perdendo-a, perder o gozo que só é dado aos poucos que sabem manter incólume e firme a ponte entre os universos antagônicos. Felizmente a própria beatitude é dotada dos mecanismos de que necessito para não me deixar levar pelas aparências e, assim, a embriaguez de cega se tornou em um refinamento da estratégia de camuflagem, agora desnecessária porque é preciso que eu a exerça em algum momento, no momento certo, este momento, agora, e, exercendo-a, inundar o mundo com a sua graça e beleza. 

Conquanto considerasse rematadas asneiras quase todas as coisas que me eram ensinadas, fiz-me um aluno aplicado, primeiro em todas as classes, poliglota, graduado com louvor e ria-me gostosamente em silêncio imaginando as retas paralelas que se encontram no infinito. Um conceito estúpido de quem, escravo do tempo e do espaço, não é capaz de conceber o infinito e lhe concede uma finitude onde as paralelas devam se encontrar. Algumas vezes tive que engolir com um sorriso sarcástico tais exercícios de ignorância que acometem aos que perderam a beatitude e procuram explicações no mundo material para coisas que pertencem àquele outro mundo subjetivo das impossibilidades matemáticas. As palavras permitem tudo, desde que habilmente manejadas, permitem inclusive o logro travestido de ciência exata, mas são pálidas, em qualquer idioma, para descrever o absoluto conhecimento que só a bem-aventurança permite. Os senhores não estão entendendo nada. É compreensível. Como eu lhes poderia explicar o sabor de uma manga tirada no pé? Impossível com uma sentença matemática, impossível com uma fórmula química, impossível com palavras que mais não lhes diriam que é doce o seu sumo e duro o seu caroço. Como a manga, lhes dei o meu sumo, agora lhes dou a semente. Adubem-na, reguem-na, fartem-se e sejam capazes de compreender além da ilusão. Se, contudo, não são capazes de semear, saiam do meu caminho para que eu possa continuar. Ainda há muito por fazer.

É obvio que enfrentei dificuldades. Houve um período no qual cheguei a duvidar de mim mesmo, não me parecia razoável que uma criança pudesse engendrar tamanhas artimanhas de simulação e estive a ponto de me convencer que aquilo era somente uma fantasia implantada na minha memória pela beatitude, mas tais conjeturas eram acompanhadas de outras, ainda mais estapafúrdias, entre as quais aquela fantasia de que tudo no mundo era fruto da minha imaginação, inclusive eu mesmo. É perfeitamente natural que um adolescente alimente ilusões, sobretudo se, como eu, à torrente de hormônios soma a curiosidade intelectual pela filosofia, esse exercício de especulações, geralmente mórbidas, normalmente exercido por indivíduos que não conseguiram romper completamente o cordão umbilical com a beatitude, não obstante disso não tendo consciência, o que os atola em uma espécie de limbo pantanoso, região limítrofe entre a onisciência e a estupidez absoluta. Não há situação pior. E há a solidão. Não aquela solidão que acomete aos que não têm companhia e afeto, mas a solidão que se sofre quando se torna evidente que quem é amado, querido, admirado, é a personagem, não aquele que você é e não pode expor. 
Mas vejam, senhores, é preciso completa atenção para tudo. Os senhores não perceberam? É claro que não. Não têm a lucidez da bem-aventurança e aceitaram inconteste essa lamúria da solidão. Não a aceitem, é uma falácia. Determinem que não se insira nos autos nenhuma referência à solidão, pois se ela é concebível no personagem picaresco que envergo, não o é no indivíduo cuja beatitude dotou de integridade. O íntegro não precisa que se lhe adule, que se lhe admire, que se lhe ame; ele é completo e se basta, não vive no limiar das coisas, é parte indissolúvel do âmago. Não. Não os quis confundir, não foi proposital, compreendam que esta é a primeira vez desde a infância que me exprimo a seres humanos sem a mediação do personagem e é natural, dado o longo tempo que o utilizo, que às vezes ele se manifeste. Não o devo permitir, nem aos seus sentimentos mesquinhos, neste momento que é exclusivamente meu. Se eu o permitisse poderia lhes servir um astucioso discurso aparentemente coerente, e sem muito esforço poderia emocionar-lhes, enternecer-lhes. Mas não quero que sintam sequer simpatia e, certo da impossibilidade de lhes fazer ver as coisas que faz muito tempo esqueceram e que agora deixo exalar sutilmente como a um perfume exótico, contentar-me-ei em lhes causar incômodo. O máximo de incômodo possível. 

Não fui movido por nenhum prazer, nenhum lucro, nenhuma paixão, para executar aquilo que se convencionou denominar de “o crime” e, no entanto, não admito que se diga tratar-se de um ato gratuito. Nada no mundo é gratuito, nada acontece por acaso, tudo obedece a um projeto meticulosamente planejado. O meu personagem ficaria pasmo por tamanha obtusidade vinda de homens tão pretensamente ilustres. Não eu. Eu não. Embora muito pouco me custasse, não me aprofundarei na explicação dos detalhes, os senhores ficariam ainda mais cegos, porque não têm olhos de ver auroras perfeitas. Por quem me tomam? Os senhores se enganam pensando que a minha bem-aventurança é uma estratégia de defesa. É óbvio que não, pelo simples fato de que não preciso defender-me. Sou eu quem os acusa. Acuso-os da tentativa de usurparem a prerrogativa de me julgar, prerrogativa que não lhes conferi e que é só minha. Agi, como de resto tenho agido ao longo da vida, com justiça, não em nome da justiça como os senhores pensam estar fazendo. Atenham-se ao papel que lhes reservei, o de platéia privilegiada, sob pena de que eu os apague da minha história. Esta história na qual os senhores coadjuvam anonimamente apenas e tão somente na medida que eu considere pertinente. 

Não, eu não a conhecia. Propositadamente este foi o único detalhe que deixei ao acaso, tudo o mais, inclusive este julgamento eu o determinei. Até mesmo a sentença que será proferida é obra minha e o meu poder é tanto que ainda posso alterar todo o script, os senhores não passam de fantoches que eu manipulo como um escritor faz com os personagens da sua ficção. Foram, senhores, longos e bem vividos anos de planejamento, neles sim, é que estava o prazer, o lucro, a paixão, não no ato cruel de roubar uma “vida inocente”. Ridículo dizer que roubei uma vida inocente. Ridículo porque não roubei vida alguma, apenas antecipei um evento inexorável; e ridículo porque não há inocentes, exceto entre as crianças, os loucos e os bem-aventurados. Cheguei a cogitar a hipótese de não o executar, de me limitar à beleza da concepção intelectual, seria, pensei, o crime perfeito, aquele que não resulta objetivamente porque realizado apenas mentalmente, mas isso seria ceder a um impulso sentimentalista, impulso típico do meu personagem, impulso que eu sabia necessário sufocar para permitir a execução da segunda fase do projeto: a prisão, o inquérito, o julgamento, este momento inolvidável onde determinei será revelada a suprema beleza da beatitude.

Deixei a escolha da vítima ao acaso porque o ato de determinar uma ou outra qualquer pessoa implicaria em juízo de valor. Eu tenderia, certamente, a conceder esta honra ao meu personagem e ele, coerente com a personalidade que lhe dei, optaria por alguém cuja morte causasse menos dano, menos dor. Até alegria e alívio para muitos se elegesse um facínora, um estuprador de crianças. Mas tal ato, coerente para ele, não para mim, implicaria sem dúvida em atribuir demasiada importância à vida humana e a vida humana, como a vejo, não tem importância maior do que a de um grão de areia. É evidente que há vidas mais preciosas que outras, nem mesmo eu o nego. A vida dos grandes artistas, por exemplo, indivíduos que são capazes de criar beleza. Vidas, porém, que são preciosas por aquilo que criam e não por aquilo que são efetivamente, alguns deles donos de uma tão colossal estupidez que se supõem imortais, ou imortalizados, coisa que a rigor não se pode afirmar nem mesmo deste pequeno planeta que um dia será engolido pelo sol ou pulverizado por uma chuva de corpos celestes. Se bem que os senhores acreditem que não, o fato é que dão à vida humana a mesma importância que eu. Sejamos francos: os mortos que os senhores pranteiam são aqueles que lhes farão falta, carne da sua carne, sangue do seu sangue. Choram não por eles, mas por si mesmos. O que nos diferencia neste aspecto é que eu não sou um hipócrita. Sendo assim, fica cristalino que este atributo não está arraigado à bem-aventurança, o que me leva, agora, a levantar a hipótese de que, minimamente que seja, eu me tenha deixado contaminar pelo vírus da tristeza e que somente a ele se deve atribuir o desamor à vida alheia, ao semelhante desconhecido. Porque é assim, mesmo eu não estou completo. Alcançar este estágio supremo é o verdadeiro e único motivo deste processo que não estaria ocorrendo se eu me deixasse levar por pieguices extemporâneas.

São rematados imbecis os que me imaginam um exibicionista que tenha atraído os holofotes pela celebridade fugaz, pelos meus quinze minutos de fama. Cito aqui a frase cunhada pelo Andy Warhol como uma homenagem a quem conseguiu iludir a vanguarda intelectual da sua época impingindo-lhes merdas fotomontadas como se fossem obras de arte. Cunhou-a, porém, para justificar o logro, e partindo do princípio de que obras de arte prescindem de justificativas, ela, a frase, é a verdadeira obra-prima que produziu, conquanto milhares de mentecaptos citem-na como se ele prognosticasse que a cada e qualquer indivíduo, e não apenas aos produtos pseudoartísticos, estava reservada a fama, ainda que por meros quinze minutos. Não. Fugaz ou duradoura não é propósito meu a notoriedade, não obstante necessária como mais uma peça desta engrenagem da qual este momento é culminante e à qual ela serve, como de resto servem todas as outras pequenas peças. Convoquei a mídia para presenciar o “crime” para que o grande público pudesse conhecer cada etapa deste caso, única maneira de assegurar-lhes capacidade de cognição para o que virá. Estavam lá os jornalistas, as câmeras das emissoras de televisão, os radialistas, fotógrafos, curiosos, uma malta a quem deixei a liberdade para intervir, para me tomar o punhal, para impedir o golpe fatal, poupando a “vítima inocente”, no entanto, tanto quanto aos senhores e a mim, aquela morte lhes era necessária. Necessária para a mídia porque ela se especializou em servir ao público o seu mais nutritivo alimento, o sangue alheio. Necessária para os senhores porque são episódios como aquele que justificam este picadeiro. E necessário para o meu projeto de lhes incomodar e a toda a humanidade atirando-lhes na cara sem subterfúgios aquilo no que se transformam os indivíduos da espécie humana após a contaminação com o vírus da tristeza, do utilitarismo, da racionalidade. É verdade, sim, que fui regiamente remunerado para conceder entrevista exclusiva a uma grande emissora de televisão e que recebi um polpudo adiantamento de uma editora multinacional que publicará a minha história com lançamento simultâneo no mundo inteiro, mas isso não significa que eu seja motivado pelo dinheiro, aceitei as propostas porque esse interesse do mercado é emblemático da nossa civilização que, desde tempos imemoriais, faz da violência circo, entretenimento. 

Os senhores entreolham-se, cochicham, estrebucham-se, esboçam amarelos sorrisos, como se estas atitudes pudessem lhes eximir. Não querem vestir a carapuça, mas, mesmo que inconscientemente, sabem que ela lhes cabe, não como uma luva, como a própria pele. Eu posso entender que seja assim porque sei que a moléstia é insidiosa e que, concomitante à sua ação deletéria de endurecimento “para enfrentar a vida”, produz obnublação e hipocinésia mental. Mas a beatitude, senhores, é muito poderosa e resiste a todos os esforços do vírus para aniquilá-la. Sorrateiramente ela deixa intactas no inconsciente as suas sementes que ainda podem germinar. Lá, mesmo naqueles onde o superego tenha tiranizado completamente o indivíduo, ela aguarda uma ocasião propícia para florescer. É isto o que venho oferecer à humanidade: uma oportunidade para reconstruir a ponte restituindo-lhes a possibilidade de transitar soberanamente entre os universos psíquicos, anulando no ego as influencias do superego ou do id, tornado-os indivíduos íntegros, indivíduos forros da falsa moral que lhes impingiram milhares de anos de aculturação, preconceitos travestidos de ética e superstições. Supondo que a semente florescia, festejei nos anos cinqüenta o advento dos beatniks e nos sessenta dos hippies, pensei que enfim a humanidade enveredaria por outras rotas, mas, apesar da contribuição dessas tribos para uma pequena evolução, elas foram cooptadas pela máquina social, os seus símbolos transformados em mercadorias e os valores que eu vislumbrava corromperam-se. Deixaram, para uma pequena parte dos indivíduos, uma nova visão das relações sexuais, raciais e com a natureza, mas não o suficiente para melhorar as coisas da margem material, e absolutamente nada para iluminar os caminhos da outra margem.

Jamais pensei ou disse ou quis fazer crer que sou Deus. Nem mesmo direi, como Jung, que não preciso crer em Deus porque O conheço. Considero o supra-sumo da tolice discutir se Deus existe ou não existe, se há um só Deus ou vários Deuses. É tal qual discutir o infinito onde as paralelas se encontram ou se quem surgiu primeiro foi o ovo ou a galinha. Contudo, não me nego a discutir religião, coisa que não se deve confundir com fé. As religiões têm mil e uma utilidades, mas, como qualquer remédio, tem os seus efeitos colaterais, entre os quais se destaca o fanatismo responsável por oceanos de sangue. Pouco me importa, também, que alguns espertalhões fundem igrejas com o único objetivo de vender ilusão, não tenho que tomar conta do dinheiro de ninguém e não é relevante saber se o remédio é um mero placebo. Joaquim, dono de uma oficina mecânica instalada na minha rua, curou-se de tabagismo e de alcoolismo depois que começou a freqüentar uma certa igreja cuja má fama é notória. É bem verdade que está apresentando déficit auditivo por conta do barulho. Surdez que, além de ser mal menor que o vício, pode, às vezes, revelar-se uma vantagem. Seria desmesurada crueldade, se é que isso é possível, convencê-lo que Jesus não teve nada com isso. Por falar em Deus, fui informado que quase todas as emissoras de televisão alteraram as suas programações normais para transmitir na íntegra este julgamento, mas que uma delas teria negociado com este tribunal uma interrupção para que possa exibir o capítulo de uma telenovela. Aviso-os desde já que não aceitarei um único minuto de pausa enquanto dure o meu pronunciamento. Se eles quiserem arriscar ver a audiência da rede despencar até o traço, podem suspender a transmissão, as emissoras concorrentes festejarão se o fizerem. Não o farão. Você, que no aconchego do seu lar me assiste agora, prefere ver o capítulo na novela? Sempre há quem possa preferir, mas como quem manda é a audiência, vai ficar chupando o dedo. Isso aqui não é jogo de futebol que eles empurram para o horário que querem, é o meu espetáculo e nele sou eu quem dá as cartas.

Fez-me rir aquele néscio freudiano que foi ter comigo. O coitado, orgulhoso do pomposo título de doutor em psicologia forense, sobraçando um questionário ridículo, que suponho ser aplicado a quantos os senhores consideram alienados, suava em bicas na infrutífera tentativa de me classificar. Não sei o que lhe haviam dito sobre mim, mas não tive dúvida que chegou com a idéia preconcebida de que encontraria um psicopata, um candidato a Serial Killer cuja carreira se frustrara após a primeira investida. O senhor sabe de alguma dificuldade ocorrida no seu parto? O senhor sofreu algum acidente na infância que possa ter resultado em lesão cerebral? O senhor tinha na infância dificuldade no relacionamento com outras crianças? E com adultos? O senhor tem fantasias? Considera-se uma espécie de Deus, dono do destino da sua vítima? Sentiu prazer ao cometer o crime? O pretensioso se sentia o próprio Alexander Bukanovsky analisando o seu Andrei Romanovich Chikatilo. Vestido com o meu personagem, em um dia em que ele esteve particularmente brilhante e tranqüilo, respondi não a todas aquelas questões e, de quebra, recitei-lhe um belo soneto de Cruz e Sousa intitulado “Sorriso interior”. Nada me custa, até me dá prazer, repeti-lo agora para os senhores e para a imensa platéia que nos assiste:

“ O ser que é ser e que jamais vacila 
Nas guerras imortais entra sem susto, 
Leva consigo esse brasão augusto 
Do grande amor, da nobre fé tranqüila. 
Os abismos carnais da triste argila 
Ele os vence sem ânsias e sem custo... 
Fica sereno, num sorriso justo, 
Enquanto tudo em derredor oscila. 
Ondas interiores de grandeza 
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza, 
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio. 
O ser que é ser transforma tudo em flores... 
E para ironizar as próprias dores 
Canta por entre as águas do Dilúvio!”

O pateta me cumprimentou achando que eu era o autor. Não entendo como se possa dar o título de doutor em psicologia a alguém que não conhece a obra daquele que inaugurou não apenas o Simbolismo, mas toda a poesia moderna do seu próprio país. Apesar disso, só perdi a paciência quando ele começou a segunda bateria de perguntas, todas elas sondando impossíveis comportamentos psicóticos. Ora bolas, depois de conversar mais de uma hora comigo aquelas perguntas eram simplesmente ridículas. Foi então que dei a entrevista por encerrada e solicitei que se retirasse. Sei que no laudo apenso ao processo ele atribuiu-me, não sei com base em quê, uma personalidade neurótica. Coisa que se pode dizer de qualquer pessoa, exceto dos psicopatas, dos psicóticos e dos bem-aventurados, que é o que sou.

Vocês me pedem que eu defina a bem-aventurança, mas tudo o que lhes posso dizer sobre ela é que se trata de um estado subjetivo cuja existência não pode ser materialmente comprovada, bem como será falha qualquer tentativa de explicação. Qualquer pessoa que em algum momento tenha se sentido feliz sabe que a felicidade é uma coisa real, mas não a pode explicar, isso acontece porque há realidades que devemos aceitar sem explicações, contentando-nos com o nosso julgamento subjetivo. Contudo, apesar de serem semelhantes sob este aspecto, felicidade e beatitude são realidades diferentes. É falsa a suposição de que a beatitude funcione apenas como um conduto entre a consciência, o inconsciente e o meio, ela transcende e nos oferece o útero primordial do Tao, o mistério além dos mistérios que só pode ser observado por quem permanece vazio de desejos. Parafraseando um antigo provérbio chinês: o inconsciente compreende as raízes do Tao, mas não os seus ramos; a consciência compreende os seus ramos, mas não as suas raízes; somente o bem-aventurado compreende-o todo.

Em razão dessa compreensão não irei inventariar aqui todos os crimes socialmente aceitos que a civilização vem cometendo. Fazendo-o teríamos assunto para estender este julgamento ad infinitum. Sobre o mais atroz de todos, que é o crime ambiental, sequer disse uma palavra, e nada falei também a respeito de outro crime corriqueiro, aquele que os políticos perpetram quando prometem mudanças para alcançar o poder e, empalmando-o, dão continuidade às políticas que condenavam. Ainda têm a cara de pau de nos vir dizer que é impossível mudar o rumo de um transatlântico à deriva. Mas a minha capacidade de superar a náusea que me causa pensar sobre essas coisas está se esgotando, além disso, para cumprir esta obrigação que me impus de cutucar-lhes as chagas, violentei-me a ponto de ferir alguns princípios que sem usar o meu personagem jamais violara, um deles o de exibir a minha luz, pois aquele que conhece a luz não a deve usar para obscurecer os pobres de espírito. Por este motivo eu lhes ordeno que pronunciem imediatamente a sentença. 


Fred Matos

8 comentários:

Tainá Facó disse...

QUE LETRA AMARELA, rapaz!

yehuda disse...

Fred, meu camarada,não li o texto inteiro, mas não creio que fique aborrecido comigo,a visita´ao teu blogue é lúdico, prazeiroso, belas imagens, cores musicais, um jardim de letras e palavras,
um grande abraço

malmal disse...

Premio extra..."pelo" tudo..
mas isto é simplesmente perfeito

"Um conceito estúpido de quem, escravo do tempo e do espaço, não é capaz de conceber o infinito e lhe concede uma finitude onde as paralelas devam se encontrar".

Só não cito mais coisas porque poderia parecer puxa saquismo heheheheh

Kécia Fonseca disse...

Fred,encantador seu blog.

Parabéns!!

fred disse...

Amarelas?
Eu não havia percebido, Tainá.
(risos).
Obrigado pela visita.
Beijos

fred disse...

Claro que não me aborreço, Iosif. Eu também não leria texto tão grande no écran, mas coloquei porque há quem não se incomode.
Agradeço-lhe a visita e comentário.
Abração

fred disse...

Dizer o quê?, Malmal.
Só agradecer.
Beijão

fred disse...

Que bom que você gostou, Kécia.
Agradeço-lhe a visita, leitura e comentário.
Beijos

pesquisar nas horas e horas e meias