sexta-feira, maio 29

um dia rotineiro


não sei quem é o autor da ilustração


Uns vão direto para casa, outros para o bar no fim do expediente. Aqueles uns para evitar zanga caseira ou mesmo por outros motivos que podem ser tantos e não são do meu tento. Atenhamo-nos aos que vão para o bar. Há solteiros, casados, alegres, tristes. Solitários alguns, outros não. Há os que vão por falta de coisa melhor pra fazer, outros pra fazer hora até a hora da coisa melhor, quando tomam de um só gole a última dose e saem à francesa. E há os que vão porque após se amoldarem a uma rotina cumprem-na simplesmente tomando-a como compromisso. José Antônio é um destes. No dia seguinte ao da sua demissão esperou os ex-colegas na porta da empresa, como fazia quando tirava férias. Não deu importância nem à compaixão de uns nem ao desprezo dos que até a véspera o lisonjeava. Quando, no bar, naquele dia, o chefe do departamento visivelmente escabreado tentou justificar a dispensa atribuindo-a a ordem superior, José Antônio sorriu e disse que estava tudo bem, que entendia e ergueu um brinde à firma. O chefe suspirou aliviado. José Antônio se orgulha de ser o único do grupo que nunca faltou ao compromisso. 

José Antônio para não alarmar a família, esposa e filhos, não os comunicou que estava desempregado. Estava convencido de que uma outra ocupação era questão de poucas semanas. Como Isolda nunca telefonava para o escritório, preferindo quando necessário alcançá-lo pelo celular, não havia como ter o seu segredo revelado. Manteve a rotina diária de sair cedo para o trabalho e retornar após o happy hour. Ocupava os dias oferecendo os seus serviços em outras empresas, mas desde que estivesse livre a tempo de se reunir no fim da tarde aos ex-colegas. Os meses foram passando sem que conseguisse um novo emprego, já dilapidara todo o saldo da poupança, endividara-se com amigos e agiotas, mas era o primeiro a sacar a carteira na hora de dividir a despesa. Perguntado onde estava trabalhando mentiu. Pego um serviço aqui, outro ali, vai dando pra o gasto e é uma vida mais sossegada que a de empregado regular, sem hora pra entrar ou sair.

Certa manhã, cedinho ainda, antes de todos os outros como lhe era característico, João Antônio foi para a firma, cumprimentou o porteiro que o conhecendo de muitos anos não fez óbice à sua entrada, tomou o elevador, na sala ainda vazia se sentou na escrivaninha que um dia fora sua, retirou das gavetas todos os papéis, os examinou e vendo que lhe eram estranhos atirou-os na lixeira, recostou-se na poltrona, pôs os pés sobre a mesa, acendeu um cigarro, tragou duas baforadas, e morreu tossindo.



Fred Matos
Conto publicado em “Melhor que a encomenda” 
Coleção Selo Letras da Bahia 
FUNCEB, EGBA – 2006.

14 comentários:

Elis Zampieri disse...

Um primor de conto! Adorei!
Beijos Fred

Nanda Assis disse...

com barzinho ou sem barzinho bom fim de semana.

bjossss...

Sonia Schmorantz disse...

Decore sua alma ,
da forma mais linda que souber,
com uma poesia que lhe toque o coração,
para que na sua mudez, seja feliz,
pois alma que é, será sempre sua,
sem que ninguém no mundo a tire de você.
(Eda Carneiro da Rocha)

Desejo a você um maravilhoso final de semana,
Com muita paz e carinho.

Sônia

Prity disse...

Cômico ou trágico? Adorei o conto Fred!

JOICE WORM disse...

Pobre João Antônio. E assim é a vida de um homem que se deprime por falta de valorização. Pode acontecer com qualquer um... Que pena.
Esta crónica está riquíssima, Fred.
Um abraço da Joice.

Mirse disse...

Belo conto, Fred!

Costumo chamar o desemprego de: "uma das piores doenças sociais". E não há remédio nem vacina gratuita.

A nobreza com que acaba o conto, mostra que até o fim João Antônio foi nobre!

Muito bom!

Parabéns, Fred!

Mirse

fred disse...

Que bom que você gostou, Elis.
Obrigado
Beijos

fred disse...

Ótimo domingo, Nanda.
Obrigado.
Beijos

fred disse...

Idem pra você Sonia.
Obrigado
Beijos

fred disse...

Que bom, Prity.
Beijos

fred disse...

Agradeço-lhe a visita, leitura e comentário, Joice.
Volte sempre.
Beijos

fred disse...

O desemprego é mesmo terrível, Mirse, e pode ser ainda pior quando o desempregado é do tipo de pessoa, como José Antônio, que não sabe compartilhar problemas [veja que não contou à família que estava desempregado] e, por outro lado, compartilha seus recursos [continuou frequentando o happy hour, apesar de desempregado] porque vive no mundo das aparências.
Lamentavelmente não temos ainda no Brasil uma política de seguro-desemprego como a dos países desenvolvidos. Pode não ser a solução ideal, mas o que existe atualmente aqui é uma piada.
Agradeço-lhe a leitura e comentário.
Beijos

Amelie Poulain disse...

Um conto que nos prende do ínicio ao fim.
Simples, porém é realmente uma verdade gritante!

Parabéns!
Quase nunca dá pra comentar, mas estou sempre visitando pra conferir.
Abraços.

fred disse...

Obrigado, Amelie.
Que bom que você gostou e comentou.
Beijos

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