segunda-feira, junho 22

solidão


não sei quem é o autor da foto


o tilintar dos talheres assinala
que está posta a refeição

a toalha da mesa não revela os cerzidos
onde o tempo e o uso esgarçou as fibras

difusa
a luz solar
vence a cortina que esvoaça

em vestígios de uma canção
que aos comensais passa despercebida
andrógina voz canta as vicissitudes da solidão

a senhora tece comentários domésticos
aos quais o esposo assente cabeceando
olhos postos nos próprios pensamentos
ensimesmado num mundo
em tudo diferente deste
onde autômato mastiga engole bebe e concorda
pela conveniência de não imiscuir-se no que considera irrelevante

a mulher fala do factual

alheio
o homem delira
e pede a sobremesa.




Fred Matos
publicado em "Anomalias".
Editora Kelps
Setembro/2002

12 comentários:

Mirse disse...

É, daqui a pouco secarão os rios que em mim são lágrimas.

Belíssimo, Fred!

A refeição, hora sagrada, em qualquer circunstância. Pelo alimento que nutre, pela companhia ou solidão na companhia.

Uma rotina doméstica, não muito longe do nosso viver, com a toalha cerzida pelo carinho de ver a refeição, talvez como a santa hora da santa ceia.

"alheio
o homem delira
e pede a sobremesa."

Nesse filme, acho que todos já fomos em algum dia coadjuvantes.

É uma pena!

Mas pelo menos à luz da inspiração de um poeta como você, a solidão a que os seres se submetem, fica mais bonita.

Poema de Primeira grandeza!

Aplausos, poeta!

Beijos

Mirse

hfm disse...

Sempre bom ler-te e reler-te, meu amigo.

Mari Amorim disse...

Fred!
Teus poemas são como uma canção para alma.
Boas energias!
beijos
Mari

Adriana Godoy disse...

"a toalha da mesa não revela os cerzidos
onde o tempo e o uso esgarçou as fibras", Fred só esses versos valeriam o poema, mas ledo engano, a cada verso uma revelação. A relação a dois, cada um no seu mundo; uma refeição, a mesa posta e a solidaão diária de quem vive junto por muito tempo. Ainda bem que nem sempre é assim, ainda bem que você fez esse belo poema. Beijo.

Fred Matos disse...

Nesse filme, acho que todos já fomos em algum dia coadjuvantes.

Creio que, inevitavelmente, protagonistas, Mirse.

Não é o caso de se fazer juízo de valor, me parece que é da natureza humana este ensimesmar-se.

Agradeço-lhe a leitura e comentário.

Beijos

Fred Matos disse...

E sempre bom receber-te e aos teus comentários, Helena.
Beijos

Fred Matos disse...

Obrigado, Mari.
Beijos

Fred Matos disse...

Ainda bem que nem sempre é assim

Ainda bem que não, Adriana, mas é um retrato bem comum.

Obrigado por vir, ler e comentar.

Beijos

Maria Muadiê disse...

coloquei sua poesia nesse blog:

http://blog.plataforma.paraapoesia.nom.br/category/qi-martha-galrao/

beijo

Fred Matos disse...

Agradeço-lhe, Martha, por divulgar a minha poesia. Sinto-me honrado pela escolha.
Beijos

Batom e poesias disse...

'olhos postos nos próprios pensamentos
ensimesmado num mundo
em tudo diferente deste'

É o retrato de alguém que está cansado e não tem mais vontade de viver. Lembra meu pai, pouco antes de falecer.

Eu viajo em teus poemas.
bjs
Rossana

Fred Matos disse...

Lembra-me o meu também, Rossana.
Fico contente por você viajar nos meus poemas: é um elogio e tanto.
Obrigado.
Beijos

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