quinta-feira, junho 25

tal qual meu pai – 1ª. parte


não sei quem é o autor da foto


Eu gostava de quando reuníamos-nos na casa de vovô, um imponente sobrado construído sobre uma serra de onde de um lado se via o mar e do outro o vale fértil: a horta, o pomar, os pastos e, meia légua mais longe, a floresta que sombreava o cacaual. Meu avô era um mulato taludo e rude que fez fortuna a muque e faca, mas que se adoçou com a idade e comprazia-se nos fazendo as vontades. Foi a pedido meu que comprou um saveiro para as nossas pescarias e no qual eu sonhava zarpar para ver o mundo. Minha avó era miúda e clara, olhos azuis mais luminosos que o céu com o sol a pino. Sua aparência frágil era o mais perfeito disfarce para uma força que a resolução por si só não explica. Meu avô mandava em tudo, mas nele mandava ela.

A romaria anual começava nos dias que antecediam o Natal. Papai, mamãe, eu e Vânia, minha irmã, chegávamos no dia vinte, e quase sempre encontrávamos tios, tias e primos que nos precediam. Outros chegavam nos dias seguintes, mas nunca após a véspera do Natal, exceto se com fundamentada justificativa, sob pena de não receber a renda anual que vovô repartia com a família. Somente agora posso compreender o quanto de verdade havia nas palavras, e de mal dissimulada mágoa nos olhos, quando vovô dizia que era o dinheiro, não o amor, que nos reunia.

Era imensa a árvore, enfeitada com bolas coloridas de vidro fino, e com tufos de algodão imitando neve. No outro canto da sala o presépio. No centro a enorme mesa de jacarandá. Na cabeceira, vovô trinchava o leitão reservando o primeiro pedaço pra mim, o neto preferido, e, com ele, a inveja dos primos e primas.

Até hoje é esta a imagem que me ocorre quando ouço a palavra estabilidade. Antes do reveillon partiam todos, menos eu, que ficava até o fim das férias escolares. Eram os melhores dias da minha infância.



Continua no próximo post

8 comentários:

Ariadna Garibaldi disse...

Que lindo! À medida que lia tudo se desenhava em minha mente, como se fosse uma realidade da qual eu tivesse participado. Muito lindo, Fred, mas é crônica? Ou um conto?

Beijos

Ada

Fred Matos disse...

É um conto, Ada.
Deixa-me contente que você tenha gostado.
Obrigado por comentar.
Beijos

Mirse disse...

Lindo, Fred!

A família reunida é sempre muito bonito. Até as brigas se fazem de bobas. É a base da sociedade. Sem esses princípios e lembranças o que seríamos?

Já dei palestra sobre a família como fundamento social. e essa prosa sua me convenceu que não estava errada.

O interessante na sua narrativa, é que dá para ver os personagens, como se saíssem e voltassem no tempo.

Parabéns, poeta!

Beijos

Mirse

myra disse...

maravilha....como gosto das coisas que escreve!!!!
um abraço grande, grande, myra

Fred Matos disse...

Obrigado, Mirse.
Beijos

Fred Matos disse...

Agradeço-lhe, Myra.
Deixa-me muito contente o seu comentário.
Beijos

Batom e poesias disse...

Li na ordem certa, o que nos blogs é o inverso...rss
Peguei pouco da ditadura, pois meu velho, depois de chamado e ameaçado duas vezes pelo DOPS, nos manteve. Éramos ainda crianças e fomos totalmente afastados dessa realidade.
Alienada e menina eu ainda cantava: Eu te amo meu Brasil...

Que vergonha!
Adorei Fred.
bjs
Rossna

Fred Matos disse...

Não é caso de sentir vergonha, Rossana. Algumas músicas, mesmo quando não são de boa qualidade, "grudam" no cérebro, e esta era uma dessas.
Além disso, amar o Brasil não significa concordar com a ditadura e a tortura e era esse o conceito que se tentava "vender" com o bordão "ame-o ou deixe-o", coisa que durante muito tempo fez com que uma parcela da população sentisse vergonha de ser brasileiro e sentisse vergonha dos símbolos nacionais.
Ótima semana.
Beijos

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