segunda-feira, fevereiro 1

de palavras


à amiga
Mirse Maria Souza Albuquerque




ilustração: Luis Zarate


que fizestes, sertanejo,
das palavras que te dei?


uma amassei no barro
que em moringa moldei

outra enfeitei o copo
que uso pra tomar pinga

a terceira teci
na trama da esteira

de uma fiz alpercata
de outra fiz algibeira

uma é o meu arado
outra ata o jumento

uma anda ao meu lado
outra me mede o tempo

há uma cravada na terra
cruz da minha sepultura

um é maria-mole
outra é rapadura

mas eram tantas palavras
que de muitas perdi o rastro

com estas poucas me basto
que as demais eram pra luxo

duas, porém, eu guardei
para me apontar o bom fluxo

a primeira palavra é amor
a segunda palavra é perdão

são as mais belas palavras
que usamos aqui no sertão


Fred Matos

42 comentários:

Mirse Maria disse...

Fred!

Se queria me emocionar....conseguiu.
Meu pai guardava com ele o sabor da rapadura e lamentava os jumentos que aos poucos desapareceram, segundo ele, do sertão de Pernambuco.

Veio para o Rio, mas nunca esqueceu o sabor do seu nordeste. Quando se arrependeu e quis voltar já estava estabelecido.

Tenho alguns bonecos que ele trazia do Vitalino (acho que é esse o nome) mas eu de nada lembro.

Adorei!

E quando postar os poemas que fazem para mim, o seu estará lá!

Muito obrigada!

Beijos

Mirse

Fred Matos disse...

É Vitalino, sim, Mirse: mestre dos mestres ceramistas de Caruaru, Pernambuco, e cujo trabalho atravessou as fronteiras e hoje tem espaço inclusive no Museu do Louvre, a atestar, como disse Sante Scaldaferri, na entrevista que publiquei ontem, que "o conteúdo nacional da arte, se efetivamente nacional no sentido de ser determinado por suas raízes populares, ganha uma significação internacional"

Quanto ao poema, não tem que agradecer, é uma homenagem merecida à sua amizade, e que já tardava.

Beijos

Lara Amaral disse...

Belas palavras mesmo, e muito bem dedicadas à uma pessoa que merece: a querida Mirse.

Abraços aos dois.

Fred Matos disse...

Obrigado, Lara. A homenagem é menor que a homenageada.
Beijos

Hercília Fernandes disse...

Belo poema, bela dedicatória, Fred. A Mirse é merecedora de cada expressão.

"Amor e perdão" palavras sagradas ao serTão, sejam enquanto categorias político-geográficas e/ou espirituais e filosóficas.

Muito boa escrita. Novamente receba meus parabéns, poetíssimo.

Abraços,
H.F.

Mari Amorim disse...

Fred,
Parabéns!
a beleza do poema consiste em emocionar.Me emocionei.
bjs
Mari

Fred Matos disse...

Obrigado, Hercília.
A Mirse merece, sim, você merece também e não há de escapar de ser "vítima" de uma dedicatória minha. (risos).
Beijos

Fred Matos disse...

Obrigado, Mari.
A mim emociona receber comentários com este seu.
Ótima terça-feira.
Beijos

Adriana Godoy disse...

Bela homenagem em um poema rico de sentidos. A Mirse deve estar envaidecida. Parabéns aos dois. Beijo.

Fred Matos disse...

Eu espero que sim, Adriana. Que ela tenha ficado. Agradeço-lhe a visita, leitura e comentário.
Ótima terça-feira
Beijos

patricia disse...

amor y perdón: palabras que pueden cambiar el mundo!
bellísimo poema.
un fuerte abrazo.

nina rizzi disse...

caramba, lindo, Fred. esse sertão não é só seu...

sim, tem poema seu ellenizado, junto com uma bahia inteira...

um cheiro.

Fred Matos disse...

Acredito nisso, Patricia. Se amor e perdão não podem mudar o mundo, nada será capaz.
Agradeço-lhe pela visita, leitura e comentário.
Beijos

Cosmunicando disse...

gosto de sertão, gosto de repente... maravilha, Fred!
beijos

Fred Matos disse...

Ê, Nina: já passei lá e fiquei emocionado pra lá do razoável, tanto quanto fico por sua visita, leitura e comentário.
Sim, não é só meu, Nina: felizmente que não.
Xêro e beijo

Fred Matos disse...

Obrigado, Mercedes.
Que bom revê-la aqui.
Beijos

Michele Mitsue disse...

Muito legal o texto!
Passarei aqui mais vezes.
=)

Fred Matos disse...

Obrigado, Michele:
ficarei muito contente que volte.
Beijos

Marcos Satoru Kawanami disse...

Excelso poema, este é poema de corpo e alma, poema de verdade e com verdade.

Fred Matos disse...

Seu comentário me deixa muito contente, Marcos: bota contente nisso.
Obrigado.
Abração

Wania disse...

Fred

Que poema lindííissimo, é de emocionar! As palavras e os sentimentos são todos de uma verdade tão pungente que dá pra se tocar de tão real!

E mais lindo ainda fica sabendo para quem foi escrito, nossa querida amiga Mirse!

Parabéns a você pela bela homanagem e Ela por ser a inspiração!

AMEI demais, como sempre!

Bjs nos dois.

O Profeta disse...

Chove bem no meio do mar
São de fogo as manhãs na ilha
A seda púrpura é lençol de amantes
Os olhos roubam a virtude à maravilha

Enchi a taça com absinto
Ergui o braço, toquei uma nuvem carmim
Ensaiei um passo de dança
Senti que os pássaros riam de mim

Senti o resto da geada em descalços pés
Calei minha viola de dois corações
Deixei entrar no peito o tamborilar de perdidas gotas
Senti o sabor sal das minhas emoções


Convido-te a partilhar a outra metade


Abraço

Verónica disse...

Muy bellas palabras, dedicadas a tu amiga Mirse María Souza Albuquerque.
Muy bonitos todos tus escritos.
Un besooo

Hercília Fernandes disse...

Fred,

fico feliz que me tenha merecedora de afeições poéticas. Mas deixe o vento agir, tudo ao seu tempo.

A leitura de seu poema motivou-me à composição de um poemeto que traz traços da minha nordestinidade. Em geral, costumo situá-la no campo da expressividade linguística.

Com tempo, convido-o a uma visitar ao HF diante do espelho a fim de leitura do meu "rosa de alfenim".

Grata pelas palavras e atenção,
H.F.

Fred Matos disse...

Agradeço-lhe, Wania.
Sobretudo pela amizade, que é uma terceira palavra pela qual tenho imenso apreço.
Fico muito contente pelas suas palavras.
Beijos

Fred Matos disse...

Ah! Que belo poema, Profeta.
Não hoje, não agora que já é quase hora de ir dormir, mas amanhã mesmo visito-o.
Obrigado.
Grande abraço

Fred Matos disse...

E me deixa meuito feliz o seu comentário, Verónica.
Agradeço-lhe
Beijos

Fred Matos disse...

Ah! Hercília, não tenha dúvida de que tudo ocorrerá no tempo certo de acontecer: nunca forço a barra, apenas sinto premonitoriamente (risos) o inevitável de um poema dedicado a você, o que não significa um poema "mensagem" a você, como alguns tendem a pensar, pois, dedicar um poema não significa que o poema tenha que ter nada a ver com o homenageado, já que, a rigor, poemas não têm compromisso com coisa alguma, exceto consigo mesmo, nem mesmo com o tolo que o comete. É uma coisa difícil de ser explicada e de ser entendida, mas não por você, que é do ramo.

Vou sim, iria de qualquer maneira porque seu blog é obrigatório nas minhas viagens internéticas, mas não agora que é hora de criança ir para a cama, mas amanhã, com certeza.

Beijos

Melanie B. disse...

Linda ilustração também...

Sylvia Araujo disse...

Belezura de simplicidade de um povo que, por conhecer menos, sabe mais.

Lindo, Fred. Lindo...

Ianê Mello disse...

Belo poema à uma pessoa especial como a Mirse.
Parabéns!


Amigo, gostaria de contar coma sua colaboração no " Diálogos Poéticos".
Dá um pulinho por lá.

Te aguardo.

Beijos

Fred Matos disse...

É verdade, Melanie: a ilustração é belíssima.
Agradeço-lhe por vir, ler e comentar.
Beijos

Fred Matos disse...

Sylvia,
Seu comentário me lembrou uma aula de marketing na qual o professor ensinou que no mundo empresarial é melhor ser um peixe grande em uma lagoa pequena a ser um peixe pequeno em uma grande lagoa. Evidentemente que nem sempre isso é verdade, bem como nem sem sempre a simplicidade precise estar atada ao pouco conhecimento, mas, como regra geral, as duas afirmações, a do seu comentário e a da aula de marketing, me parecem verdadeiras.

Agradeço-lhe vir, ler e comentar.
Beijos

Fred Matos disse...

Pois é, Ianê, ainda não fiz a minha estréia, mas é porque pretendia, pretendo ainda, estrear com um texto específico para lá.
Agradeço-lhe vir, ler e comentar.
Beijos

Ana Lúcia Porto disse...

Oi Fred,

Que delícia...!!

E as palavras desse seu sertão trabalharam para merecer... E fizeram jus...

Beijos,
Ana Lúcia.

Hercília Fernandes disse...

Fred,

concordo plenamente com você. O poema não contém qualquer compromisso, sobretudo com o real. Aliás, o “ideal” é que a arte poética insurja sobre a realidade, negando-a e/ou contradizendo-a.

Sim, infelizmente a associação entre afeições poéticas e mensagens subliminares em poemas tem consistido uma prática corriqueira. O que, a meu ver, consiste um erro. Apesar de o poeta configurar um ser no tempo e contexto social-histórico, onde atribui sentimento às relações intersubjetivas, o fenômeno criador ultrapassa as circunstâncias que motivam o despertar da imaginação e, além disso, a atividade poética requer técnicas, conhecimentos, procedimentos de composição que repousam na competência subjetiva e múltiplas experiências do criador.

Desse modo, mais uma vez concordamos, a poesia envolve mistérios que nem sempre encontramos explicações. Na tentativa de desvendá-los por vezes se corre o risco de “invasão a intimidade” do poeta, o que recai em novo erro. Pois, segundo nos diz Bachelard, a poesia não contém “passado”, isso significa que a linguagem poética movimenta o ser para a "novidade", ao prazer estético, à descoberta de sua infância permanente.


Perdoe-me as longas palavras, Fred. Vim agradecer a fortuna de suas palavras ao meu poema “rosa de alfenim” e acabei “devaneando”, já que a temática envolvendo fenômeno criador me é sempre instigante.

Mais uma vez obrigada por suas palavras e boas oportunidades de diálogo.

Um caloroso abraço,
H.F.

Fred Matos disse...

Obrigado, Ana Lúcia: palavras de sertanejo são poucas, mas são sempre sinceras.
Agradeço-lhe por vir, ler e comentar.
Beijos

Fred Matos disse...

Como eu poderia perdoar o imperdoável, Hercília? Tenho é que agradecer a aula. Eu penso assim, exatamente assim, acerca da poesia e do seu universo, que deve ser, sempre, o universo da criação. Obviamente que não é um universo completamente dissociado da circunstância do ficcionista que o cria, porque no mínimo há os signos e o suporte onde os signos são depositados, aquilo que podemos, para simplificar, chamar de linguagem. Não avançarei mais porque considero que a sua explanação foi suficientemente cristalina, mas me lembrei de um poema muito antigo meu, um péssimo poema, diga-se de passagem, cujo título era "chave" e que não ponho aqui porque não o tenho no micro e talvez já não exista, mas no qual eu dizia que quando escrevo "eu" estou me referindo à toda espécie humana, nem mesmo se trata do "meu eu lírico", ou, nesta hipótese, o "meu eu lírico" é suma das minhas observações. O meu umbigo é o umbigo da espécie e a o "meu cotovelo" é o cotovelo universal. Não sendo assim, não dá liga, não é poesia. É a minha opinião.

Beijos

CARLA FABIANE... disse...

Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras.
Sou irritável e firo facilmente.
Também sou muito calmo e perdôo logo.
Não esqueço nunca.
Mas há poucas coisas de que eu me lembre.
(Clarice Lispector)
Beijos.....

iracema forte caingang disse...

Amor perdão,assim voce me mata do coração beijão

Fred Matos disse...

Olá, Carla.
Vejo que você é a mais recente acompanhante do blog, e agradeço-lhe, também pelas palavras de Clarice.
Ótimo dia.
Beijos

Fred Matos disse...

Amor e perdão não matam ninguém, Iracema. (risos) Provavelmente salvam.
Agradeço-lhe por vir, ler e comentar.
Beijos

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