sábado, junho 12

libertas philosophica



ilustração: Yang Xueguo
"

"Ainda que isso seja verdade, não quero crê-lo;
porque não é possível que esse infinito possa ser compreendido pela minha cabeça,
nem digerido pelo meu estômago..."

Búrquio, num diálogo de G.Bruno,

in"... do infinito, do universo e dos mundos", 1584



“Talvez vocês, meus juízes,
pronunciem esta sentença contra mim
com maior medo que o meu em recebe-la."

Giordano Bruno





Em 17 de fevereiro de 1600
Giordano Bruno ardeu na fogueira
por “verdades” na qual poucos acreditavam
Quatro séculos se passaram
mas há ainda quem crê
em “verdades” absolutas

Fui à cozinha e encontrei
um copo meio cheio, meio vazio
e me lembrei da canção de Gil
e que o copo vazio
está cheio de ar

E para qualquer lugar que eu olho
vejo “verdades” que outros não vêem:
um gato com asas
peixes que falam
deuses que dançam

E se abro os olhos
vejo um céu laranja sorrindo
o sol tomando cola-cola
tiroteio no pátio da escola
professores pedindo esmola

Mas falemos de coisas sérias
falemos de futebol
de mulheres frutas
da falta que nos faz
melado com rapadura

Quatro séculos se passaram
desde que Giordano Bruno
queimou no Campo dei Fiori
mas os donos da “verdade”
empunham ainda as suas tochas

Não tenho dúvida que estou louco
escrever versos é um forte indício
Digo coisas que outros não dizem
mas me expulsaram do hospício
por ver coisas que eles não vêem

Mas falemos de coisas sérias.


Fred Matos

26 comentários:

Lídia Borges disse...

Falando de coisas sérias: este é um texto sério, muito interesante na forma e inteligente no conteúdo.

L.B.

ma grande folle de soeur disse...

gato com asas, o da vizinha do lado,que aterra todo o dia no meu quintal a esfregar os olhos ensonados, miando-me palavras de amor que só o pássaro meio desvairado, com o susto, entende...

Patrícia Gonçalves disse...

Fred, lindo texto, sempre questionei as verdades absolutas que precisam de tochas para trazer a luz. É terrível a nossa dificuldade em não compreender a verdade do outro.

beijos

Úrsula Avner disse...

Olá poeta, " escrever versos é um forte indício... " Certamente é um indício, uma sina, uma dádiva, uma espécie de redenção... Poema profundo no tema e belo na articulação dos versos. Um abraço.

dade amorim disse...

Absoluta é a indigência humana, que precisa tanto de verdades para se agarrar. Melhor se ocupar do que ninguém mais vê, irmão.

Beijo

nina rizzi disse...

fred, seu poema é muito serio, meu caro, e eu adoro quando aborda temas históricos. não, não está louco. ou estamos todos? rs..

beijos.

Rachel disse...

Lieber Fred,

dies habe ich sehr gern gelesen, ein sehr tiefer Text, er regt zum Nachdenken an...

herzlichst, Rachel

myra disse...

Giodano Bruno era um grande homem!!! dificil encontrar alguem assim, hoje em dia...aqui...pelo menos,
um gde abraço, meu querido grande poeta,

Fred Matos disse...

Obrigado, Lidia.
Beijos

Fred Matos disse...

Assim como o pássaro, você também entende, Lucília.
Obrigado, amiga.
Beijos

Fred Matos disse...

Resulta sendo mais terrível para quem não entende que para quem não é entendido.

Obrigado, Patrícia.

Beijos

Fred Matos disse...

Obrigado, Úrsula.
Sua visita sempre me deixa contente.
Beijos

Fred Matos disse...

"Melhor se ocupar do que ninguém mais vê, irmão."

Pois é, querida. Afinal há que haver quem cuide do invisível.

Beijos.

Fred Matos disse...

Estamos todos, Nina. Todos não, alguns estão. Nós estamos.
Beijos

Fred Matos disse...

Suas vindas e comentários sempre me deixam contente, Raquel.
Beijos

Fred Matos disse...

"Giodano Bruno era um grande homem!"

Sim, Myra. Sobretudo porque preferiu a morte à enquadrar-se às "verdades" da época.

Grato pela visita e comentário
Beijos

Lou Vilela disse...

Um poema sério sobre verdades relativas e temporais; que aponta gravidades digestivas: alienação. ;)

Muito bom, Fred!

Beijos

Fred Matos disse...

Obrigado, Lou.
Contente com a sua visita e comentário.
Beijos

Mirze Souza disse...

Belíssimo, Fred!

Existe verdade? Existe verdade absoluta? Preciso de provas.

Breve também serei expulsa de um hospício.

Mas falemos de coisas sérias!

Demais, Fred!

Beijos

Mirze

angela disse...

Muito bom. O melhor de tudo é ser expulso do hospício e agora é só cuidar para não arder na fogueira.
Adorei.
beijos

Sr do Vale disse...

Um poema engajado além dos tempos e com lágrimas nos olhos, e um porque incessante.

Wania disse...

Fred

E para qualquer lugar que eu olho
vejo “verdades” que outros não vêem...



Fazer o quê?... se nossos olhos veem além! Deixemos estes assuntos "sérios" para os outros...há quem goste/lucre com esta "seriedade"! :)


Que poema lindo, do início ao fim da criação! Parabéns!
Bjs

Fred Matos disse...

Mirze,

Como regra, não gosto de me valer de citações, mas esta, de Nietzsche, se impõe à minha vontade, porque eu não sei dizer mais claramente a mesma coisa:

"(...)Em minha maneira de pensar, a verdade não significa necessariamente o contrário de um erro, mas somente, e em todos os casos mais decisivos, a posição ocupada por diferentes erros uns em relação aos outros: um é, por exemplo, mais antigo, mais profundo que outro; talvez mesmo inextirpável, se um ser orgânico de nossa espécie não puder dele prescindir para viver(...)"

Agradeço-lhe a visita e comentário.
Beijos

Fred Matos disse...

"O melhor de tudo é ser expulso do hospício e agora é só cuidar para não arder na fogueira."

Eu arderia, Angela, se fosse a condição para me manter íntegro. Não por me preocupar com o que pudessem pensar de mim, mas porque eu não conseguiria viver em paz comigo mesmo se, por exemplo, traísse os meus princípios.

Grato pela visita e comentário.
Beijos

Fred Matos disse...

Agradeço-lhe a visita e comentário, Sr do Vale.
Grande abraço

Fred Matos disse...

Que bom que você gostou, Wania.
Obrigado por vir e comentar.
Beijos

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