quarta-feira, setembro 22

a primeira namorada



ilustração: Fred Matos


a treva enorme da noite o vento frio
um grito apavorante um gato negro
passos pesados vindos do pântano
não tive como conter meu medo

corri na direção da sebe escura
a terra tremeu fui engolido
na queda perdi os sentidos
batia a cabeça quebrei um joelho

desejei que fosse um pesadelo
que nada daquilo fosse verdade
não creio merecer a crueldade
de ter cobras penteando o meu cabelo

no ninho de ofídios me vi perdido
rios de peçonha injetados nas veias
eu era o prato principal da ceia
e a carniça seria reduzido

desejei que a morte viesse ligeiro
para aliviar meu sofrimento
mas meu violento lamento
havia despertado uma feiticeira

nada antes me aterrorizara tanto
quanto o abraço gelado da megera
preferia ser panqueca de pantera
que amante daquele espanto

levou-me a uma úmida caverna
sarou minhas feridas a tarada
velou meu sono mil madrugadas
me manteve longe da baderna

um dia a peguei desprevenida
e o cheiro de sangue ainda quente
invadindo o meu corpo e minha mente
foi o afago que lhe fiz na despedida.


Fred Matos

11 comentários:

Bípede Falante disse...

Pobre primeira namorada desintegrada por um sangue quente. Que rapaz implacável ela foi querer :)

Fred Matos disse...

Pois é, amiga Bípede, este é um mundo injusto.
Deixa-me contente a sua visita e comentário.
Obrigado.
Beijos

Lídia Borges disse...

Um poema quase narrativa a contar histórias ao jeito de uma poética de raiz popular, sempre muito apreciada.

L.B.

Fred Matos disse...

Agradeço-lhe pela visita e comentário, Lidia.
Beijos

Lila disse...

Oi querido...

Antes enfrentar as trevas, as cobras e as panteras, do que um amor "peçonhento"...rs

Bjs meus !

Fred Matos disse...

"Antes enfrentar as trevas, as cobras e as panteras, do que um amor "peçonhento"...rs"

Touché!

Grato por sua visita e comentário, Lila.

Beijos

BAR DO BARDO disse...

Texto mui agradável e liricamente divertido.

Adorei a "panqueca"!

Abraço!

Fred Matos disse...

Muito bom revê-lo aqui, Henrique.
Obrigado, amigo.
Grande abraço

ma grande folle de soeur disse...

Dantesco! ;)

Mirze Souza disse...

NOSSA FRED!

Tenho pânico desse animal. Gelado, rasteiro, sei lá.

Jamais saberia fazer um poema com ela, a cobra ou o "cobro"!

beijos, poeta!

Mirze

Fred Matos disse...

Lucília e Mirze,
Desculpem-me a demora para responder aos comentários, é que estou viajando e somente hoje tive oportunidade de vir ao blog.
Agradeço-lhes por vir e comentar.
Beijos

pesquisar nas horas e horas e meias