quinta-feira, outubro 2

manifesto

Para Eliane Stoducto

ilustração: foto de Luiz Fonseca



é sempre árduo o oficio de negar
de construir manhãs sem máculas
como se cada momento fosse único
como se cada instante fosse mágico

há que estar pronto pra passar por louco
há de suportar a solidão do espírito
que acomete os que não cumprem ritos
e colhem escárnios deste mundo mouco

é sempre árduo negar a mídia
não se mediocrizar às razões em voga
deixar que pele nova cubra as feridas
não tomar o passado como droga

porém

é preciso deixar nascer o novo homem
que não carregue a culpa antepassada
impossível de purgar porque herdada
e cuja lembrança é somente estorvo

é preciso construir o homem universal
aquele que as diferenças não separam
porque o negro é tão belo quanto o claro
e qualquer segregação é imoral

não quero aprisionar meu carcereiro
não quero matar meu assassino
não se construirá novo destino
continuando do passado prisioneiros

assim

há de se romper o ciclo estúpido
há de se mudar os paradigmas
estes mantêm vivas as feridas
aquele é a fortuna dos cúpidos

não será violentando a ética
e em seu nome elegendo por cotas
que todos terão cultura e botas
para atingir a síntese dialética

não há como mudar a soma
sem que se mude cada indivíduo
é preciso não deixar resíduo
do consumismo como axioma

mas

poucos estão prontos para a luta
e há ainda uma longa trajetória
não é do nosso tempo a vitória
desta utopia eu sou recruta

as palavras são as armas lícitas
qualquer outra é render-se à derrota
não há fronteiras todos são compatriotas
e todas as verdades são explícitas

o maior ônus é o de magoar amigos
o prêmio máximo o sorriso íntimo
por saber que assim se mantêm íntegro
disposto a correr qualquer perigo.



Fred Matos
14/06/2003

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