segunda-feira, janeiro 12

a ponte da felicidade


ilustração: "Luba" 
foto de Petter Hegre


Para Ludmila e todos os integrantes do
1o Encontro Baiano de Yoga com a Natureza



um dia,
isso já faz muito tempo,
tanto tempo quanto há astros no espaço,
me sentei nos ombros do mestre
e voamos juntos
todas as impossibilidades.

faz muito tempo,
mas na minha lembrança
é vívido como o é este instante:
o amanhã.

em um palácio dourado
havia um homem
de cujos dedos brotava um arco-íris
de cujos olhos escorriam pérolas.
na sua mesa o melhor vinho
e os mais saborosos manjares.
nos seus salões soavam sinfonias
e as ninfas mais graciosas
digladiavam-se pela sua atenção.

mas era um homem triste porque tinha medo:
medo de perder a fortuna que o entristecia.

na cidade havia um homem poderoso.
dono de todas as vontades.
era temido por todos.
curvavam-se à sua passagem.
não precisava fazer fortuna
porque nada lhe era negado.

mas era um homem triste porque não era amado
e tinha medo de perder o poder que o entristecia.

em um casebre, na beira da estrada,
havia um homem forte e bonito,
um homem formidável.
não tinha fortuna,
não tinha poder
e era amado pela mulher mais bela do universo.

mas era um homem triste porque temia o tempo
que inexoravelmente lhe roubaria
a força do corpo e a beleza da face.
temia perder a beleza que o entristecia.

trancado em uma biblioteca havia um homem sério,
era filósofo, poeta, um oráculo.
no mundo não havia homem mais sábio.
gozava do respeito do homem rico,
do homem poderoso
e do homem formidável.

mas era um homem triste porque temia perder a consciência
e, perdendo-a, perder aquilo que inconscientemente o entristecia.

à beira de um lago, contudo, encontramos um louco.
um homem feio, caolho e aleijado.
estava nu porque não tinha roupas.
estava sozinho porque não era temido nem amado
e era completamente ignorante,
não servia pra nada.

mas sorria.
sorria porque não tinha nada e não tendo nada,
nada tinha para perder,
sequer o medo de ser poeira.

faz muito, muito tempo,
mas aquele louco continua andando por aqui.
não importa quantas vezes eu o expulse,
eu peça que se vá,
implore que me deixe em paz,
ele volta sempre.
nunca me diz nada, nem uma palavra.
tudo o que sabe fazer é sorrir
e no brilho do seu olhar é que eu vejo
o quanto ainda preciso perder
para estar comigo mesmo
e poder, então, transpor
a ponte da felicidade.


Fred Matos.
02/02/2004




12 comentários:

Luísa disse...

...e no dia que conseguir ser o teu olhar, estarei perto de te ser...e te ter!
Haverá fusão entre generos???

Bruna Mitrano disse...

Queria voar as impossibilidades...

Não vou nem mais elogiar, meus comentários vão ficar monótonos.
Acho que você deveria arriscar enviar os originais pras editoras, de repente pra algumas daqui do Rio, sei lá. Você precisa ser lido por muitos!

Estou sempre te lendo. Faz um tempinho que não comento, mas tratei de tirar o atraso hoje, reli e comentei logo vários.

Poema, prosa (poética?), tradução... tudo muito perfeito!

hfm disse...

como gosto de te ler!

fred disse...

Este poema fala exatamente da necessidade de não ter, Luísa.
Obrigado pela leitura e comentário.

fred disse...

Bruna,
Obviamente que na imaginação apenas, vivo voando impossibilidades.
Deste poema eu gosto da "mensagem", fala de coisa que acredito mas que me reconheço incapaz de realizar. Não gosto da forma, contudo. Já cortei umas gorduras, há ainda muitas pra cortar. É um poema excessivamente descritivo, mas ainda não encontrei uma embalagem melhor para a essência.
Fico muito contente pela avaliação que você faz da minha produção, principalmente porque você tem um texto muito bom: isso é mais importante que publicar livros que ficarão mofando nos caixotes. Além de muito mais ecológico: já patrocinei a derrubada de muitas árvores para alimentar meu ego.
Mas te agradeço de coração.

fred disse...

Helena, minha generosa amiga de tantos anos.
Agradeço-te.

Saara Senna disse...

"e no brilho do seu olhar é que eu vejo o quanto ainda preciso perder..."

Gostei desse trecho!!

Parabéns, muito bom o seu poema!
Bjos :*

Flávia disse...

Vontade de cruzar essa ponte. Parece que estou sempre a um passo dela.

Beijo, querido.

fred disse...

Obrigado, Saara.
Beijo

fred disse...

Flávia,
Todo mundo deseja ser feliz, a dificuldade é que, e nisto reside um paradoxo, para ganhar (alcançar a felicidade) é preciso perder (abrir mão de bens, quiçá de conhecimento, da vaidade e, até mesmo, dos afetos). Claro que se trata apenas de uma tese, na qual se postula que como a infelicidade é conseqüência de perdas, perder tudo é a única maneira de não ter mais nada pra perder.
Beijo.

Hercília Fernandes disse...

Bom dia, Fred.

Belíssimo poema-narrativo e imagística. Quebrantou-me em boas lágrimas.

Realmente... temos medo da perda, seja das coisas materiais ou subjetivas. Pois sem elas somos “nada” e, não “ter” nada, apavora; muito embora nada entristeça...

Parabéns, Fred, pela poética e sofia expressas.

Abraço,

H.F.

fred disse...

Agradeço-lhe, Hercília, pela visita, leitura e generoso comentário.
Abraço

pesquisar nas horas e horas e meias