quinta-feira, junho 25

tal qual meu pai – 6ª. parte



Quando vovô morreu, alguns meses após a morte de vovó, descobriu-se que ele já havia vendido antecipadamente cinco safras. Como ninguém na família se dispunha a abandonar os confortos da cidade para tocar a fazenda, venderam-na e, após a liquidação das dívidas, restou muito pouco para ser dividido. A realidade é que a imensa riqueza era uma nuvem de fumaça, um castelo de cartas apenas sustentado pela imensa capacidade administrativa de um mulato analfabeto. Formou todos os filhos. Fizeram fortuna os que souberam investir os dividendos anuais que distribuía. Papai foi o mais bem sucedido, tornou-se um grande construtor de estradas, pontes, viadutos, usinas hidroelétricas, qualquer tipo de obra de grande porte. Negócio que eu a Vânia herdamos após a sua morte.

Não sei o exato motivo pelo qual ainda sinto rancor quando me lembro de papai. Decerto não é por ter sido um grande filho da puta, um individuo sem escrúpulos, porque nisto eu me assemelho a ele. Não é este o motivo. Ninguém é santo nem demônio. Papai amava o dinheiro. O lema mais apropriado para ele é o velho adágio popular: “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Creio que este amor ao dinheiro, o medo da pobreza se tenha inoculado na infância, quando vovô ainda era um jagunço de coronel e ele passou por dificuldades e humilhações.

Exceto Lúcia, nunca conheci ninguém que não colocasse os seus próprios interesses acima de qualquer outra coisa. Assim é a natureza, assim somos os homens. Isto me faz recordar da Tânia, a bela camarada de luta e, eventualmente, de cama, citando Engels: “Darwin não suspeitava que sátira tão amarga escrevia dos homens, em particular dos seus compatriotas, quando demonstrou que a livre concorrência, a luta pela existência celebrada pelos economistas como a maior realização histórica, era o estado normal do mundo natural”. Ela decorou este trecho da “Introdução à Dialética da Natureza” e o citava, sem revelar a fonte, tentando demonstrar que o comunismo era a única opção da humanidade para vencer o barbarismo que nos iguala aos animais irracionais.


Continua no próximo post

2 comentários:

Mirse disse...

Que conto maravilhoso, Fred!

Óbvio que idiota como sou, cheguei às lágrimas.

O que antecede aos nossos pais, os marcam, que passam para os filhos e netos como uma bola de neve.

Meu pai era um homem de uma inteligência anormal. Meu avô, pai dele já tinha filhos adultos quando casou com minha avó. Meu avê, segundo consta era usineiro, possuia muita riqueza et... Com a morte dele, que coincidiu com o meu nascimento, mamãe me doou para vovó. O irmão mais velho de meu pai, passou a perna e usufruiu de todos os bens. O orgulho e a vaidade de meu pai, o impulsinaram para uma vida de aventuras trabalhistas. Ele foi de caminhoneiro, até concluir o curso de Farmácia. Nunca se conformava com pouco. Aumentou seu patrimônio à duras penas, mas conseguiu o objetivo de se estabelecer comercialmente longe do irmão e vencer na vida, dando aos filhos o conforto que achaba necesário, os melhores colégios, etc. Primava pela educação. E estava certo.

Assim mesmo, tenho irmãos e irmãs que tinham ódio dele. Não sei por que, eu consegui romper as barreiras. Sempre fomos bons amigos, para desespero da minha mãe.

Vê, Fred como as estórias se repetem com pouquíssimas diferenças.

Por acaso esse conto vai ou já é livro?

Gostaria de ter um livro seu e saber como adquirir.

Parabéns pelo belíssimo conto.

Eu pessoalmente ADOREI!

Beijos

Mirse

Fred Matos disse...

Este conto ainda não foi publicado, Mirse, e não sei se um dia será porque eu não me disponho a bancar e também não tenho paciência para lidar com editores: não tenho os contatos e não me animo a enviar originais que nem sei se alguém vai ler.
Mande-me seu endereço postal para o e-mail cfmmatos@terra.com.br que eu providenciarei enviar-lhe os livros "Anomalias", de poemas e o "Melhor que a encomenda", de contos.
Beijos

pesquisar nas horas e horas e meias