quinta-feira, outubro 8

Lafite Rothschild 66





Esperava na porta da escola.
- Fez boa prova, filhinho?
- Normal.
- Normal?
- É. Normal.
- E isto é bom ou ruim?
- É normal, mãe. Vamos logo, tá todo mundo olhando.
- Todo mundo olhando o quê?
- Você.
- Todo mundo quem?
- Meus colegas, mãe. Vamos logo.
Arrancou o carro.
- Você tem vergonha de mim?
- Não, mãe.
- Por que estou gorda?
- Não, mãe.
- Feia? Velha?
- Não, mãe.
- Então o quê?
- Eu pedi que não me buscasse.
- Não tinha nada pra fazer, que mal faz?
- Amanhã ficam gozando: “o filhinho da mamãe”.
- Os outros não têm mãe, também? Não amam as suas mães? Têm vergonha delas?
- Você não entende mesmo.
- Não, não entendo.
- Não sou mais criança, prefiro ir de ônibus com a turma.
- Vamos passar no Shopping?
- Só se me comprar um tênis novo.
- Outro? Seu pai não lhe deu um tênis outro dia?
- Muito vagabundo aquele.
- Um bom tênis e muito bonito.
- Mas não é Timberland, nem Oakley, nem Nike, é um marca de pobre...
- Bobagem, só porque não é de marca famosa.
- Sabe o Paulinho? Ele ganhou da mãe um Nike Shox TL, custa uns mil reais.
- Paulinho da Vilma, do 808?
- É, ele mesmo.
- Eles estão com três cotas do condomínio atrasadas, metade da correspondência que recebem é cobrança. Só pode ser pra me humilhar.
- É porque ela gosta mais dele do que você de mim.
- Que bobagem, meu filho, nenhuma mãe gosta tanto de um filho quanto eu de você. Está bem, eu compro o tênis, mas você não diz a seu pai, ele vai ficar furioso se souber que eu paguei mil reais por um tênis.
- Só porque é pra mim.
- Não diga isso, seu pai também ama muito você, é que mil reais é muito dinheiro por um tênis.
- Eu não acho. Acho que muito caro é pagar mais de dois mil por uma garrafa de vinho igual àquela que papai comprou.
- Foi uma pechincha, filhinho. Aquela safra de 66 do Lafite Rothschild foi excepcional, vale mais que o dobro.
- Não achei nada demais.
- Você bebeu?
- Papai me deu um gole pra experimentar.
- Ele sabe que não deve lhe dar bebida alcoólica. Você é muito novo pra beber.
- Já fiz quinze anos, lembra?
- Mesmo assim, não quero que você acabe alcoólatra.
- Você está mudando de assunto, mãe. Você acha caro mil reais por um tênis que dura uma cara e acha barato uma garrafa de vinho de dois mil que você beberam em um jantar.
- Dura uma o quê?
- Uma cara.
- Isso é quanto tempo?
- Muito tempo.

Entregou o carro ao manobrista do shopping.
- Larga da minha mão, mãe.
- Por quê?
- Pega mal. Vai que encontramos algum amigo, depois fica dizendo: “o Juca parece um bobão, mãos dadas com a mãe”. Eu não sou mais criança.
- Está bem, vamos comprar o tênis, depois você vai tomar um lanche enquanto faço as unhas.

De noite, em casa.
- Meu bem, vou pra um spa, preciso perder pelo menos dez quilos, depois vou fazer uma lipo na barriga, um face-lift ou aplicações de Botox. Preciso dar uma recauchutada.
- Como é que é?
- Estou gorda e velha.
- Que bobagem, você está linda e no peso ideal pra sua altura. Quem está enfiando esta bobagem na sua cabeça.
- O Juca...
- O Juca? Mas que tolice.
- Ele tem vergonha de mim.
- Vergonha de você?
- Não quer mais que o apanhe no colégio, no Shopping caminha adiante como se não me conhecesse...
- Mas isto é normal na idade dele. Deixe de bobagem.
- Você só está dizendo isso pra não ter que gastar comigo.
- Gastaria com prazer se fosse necessário, mas não se pode melhorar o que está perfeito.
- Claro que é necessário. Eu estou gorda e feia.
- É muito dinheiro pra gastar à-toa, como se estivesse mudando o corte do cabelo.
- Muito dinheiro porque é pra gastar comigo, caro foi gastar dois mil em uma garrafa de vinho.
- Meu bem, você sabe que foi uma pechincha aquela garrafa de Lafite Rothschild e foi para comemorar o nosso aniversário de casamento. Quando eu comprei você não reclamou, nem falou nada na hora de beber, por que isto agora?
- Você por acaso me perguntou se eu preferia o vinho a uma recauchutada geral no meu visual? Não, não me perguntou nada.
- Mas não se trata disto, não se trata de uma coisa ou outra. O vinho foi uma pequena extravagância, o que você está querendo é ridículo.

Emburrou a cara, foi para a cama.
- Chegue pra lá, não estou a fim hoje.
- Ainda zangada?
- Claro, você não me ama, só quer me usar.
- Você está sendo injusta, sabe que te amo.
- Se fosse verdade não se incomodava em pagar pelo menos uns dias num spa.
- Se você faz tanta questão.
- E se eu ficar cheia de pelanca, posso fazer a lipo?
- Pode.
- Você é um amor, venha cá meu gatão.

Meia hora depois.
- Posso lhe pedir outra coisa.
- O quê?
- Depois do spa, da lipo e do botox você compra outro Lafite Rothschild?


Fred Matos

23 comentários:

Duanny!. disse...

HSUAHAUAHAUSA!

ADOREEEI. super de mais.

pior é que é assim mesmo. né?
eu bem que sei faço isso com a minha mãe.

tem selinho pra você lá no blog
;*

Henrique Pimenta disse...

Crônica para desesperar.

LivroErrante disse...

KKKKKKKKKKKK .... morrendo de rir!
abraço.

Wania disse...

Ahhh...estas mulheres!!!
Vai entender...

...mas a gente faz falta...rsrsrs!


Um brinde ao teu belo texto Fred!
...de Lafite Rothschild 66 é claro!!!!!rsrsrsrsrs!


Bj embriagado pra ti!

Lara Amaral disse...

hahaha... Ao estilo Luis Fernando Veríssimo. Não querendo comparar, mas já comparando - sei que há pessoas que odeiam comparações. É que gosto muito dele e achei sua crônica sensacional.
Beijos.

Fred Matos disse...

Acho que todo mundo faz, Duanny! A verdade nua e crua é que todos fazemos chantagens emocionais, muitas vezes sem sequer perceber.
Quanto ao selo: é claro que agradeço e fico contente, vou lá depois pegar.
Agradeço-lhe por sua visita, leitura e comentário.
Beijos

Fred Matos disse...

Nada mais que uma brincadeira, Henrique.
Obrigado, amigo.
Abração

Fred Matos disse...

Um livro errante que ri é uma boa idéia para um conto.
Obrigado, amiga.
Beijos

Fred Matos disse...

Pois é, Wania. E devemos reconhecer que é possível um mundo sem homens, mas impossível sem mulheres. Além disso, mesmo que fosse possível, seria um mundo sem graça.
Tin-tin

Beijos

Fred Matos disse...

Não me incomodo com a comparação, Lara. Devo confessar que exceto algumas poucas crônicas publicadas em jornal, eu não conheço a obra do LFV: uma falha na minha cultura, mais uma.
Obrigado pela visita, leitura e comentário.
Beijos

Adriana Godoy disse...

Fred, surpreendente sua crônica. A gente vai lendo e não quer parar. Ainda bem que nem todas as mulheres são assim! Argh! Você soube conduzir bem a narrativa. Adorei. beijo.

Fred Matos disse...

"Ainda bem que nem todas as mulheres são assim!"
Poucas são assim, Adriana, mas porque o exagero é um recurso tanto da caricatura quanto da literatura. Além do mais, não são apenas as mulheres, este tipo de comportamento nada tem a ver com sexo, idade, condição social, econômica, etc.
Obrigado pela visita, leitura e comentário.
Beijos

ma grande folle de soeur disse...

Delicioso! :))

Fred Matos disse...

Obrigado, ma grande folle de soeur
Ótimo fim de semana.
Beijos

Yaasmiin (: disse...

AOISOAISOAISOAIOSAIOSIAOS.
Adorei o texto, o tamanho simplesmente nem importou, só percebi que era grandinho depois de já ter lido ! realmente muuito bem escrito, a idéia de consumismo e como cada um só admite o gasto excessivo qnd se trata de si próprio, porque a cada um, seu gasto se justifica plausivelmente !
- olha, o meu blog chama "registros em versos", e eu ecsrevo sobre sentimentos e situações ou mesmo pensamentos que às vezes temos, mas isso tudo em forma de poesia !
dá uma passadinha lá e deixa seu comentário !
beiijos;*

Fred Matos disse...

Yasmin,
É sempre motivo de alegria encontrar alguém tão jovem que gosta de poesia.
Sua interpretação deste texto é perfeita.
Agradeço-lhe por ter vindo, pela leitura e pelo comentário.
Espero que volte outras vezes.
Obrigado.
Beijos

Yaasmiin (: disse...

Obrigada, *-*
eu escrevo desde os 12 anos, e com o tempo foi tudo se aperfeiçoando, mas ainda não escrevo o quão bem gostaria, meus textos ainda são meros rascunhos tendo em vista do que espero que ainda sejam, espero a cada dia melhorar, e para isso muuuita leitura, de alguma forma acho que o contato com textos de outros escritores famosos ou mesmo anonimos ajudam demais , como incentivo, inspiração, ou de alguma outra forma que no momento não me vem a cabeça. Sempre ouvi conselhos que recomendavam a publicação de um livro ou coisa assim, mas acho que já é demais, não sei se meus poemas valem tanto assim, não por achar que são ruins, mas por achar que temos tantos escritores bons espalhados por ae e tão pouco investimento e divulgação, daí a idéia de criar o o a idéia do blog para compartilhar os textos, saber opiniao, crítica, sugestões, etc de outros escritores! por isso também peço que sempre que puder, volte no "Registros em Versos;*" para deixar sua opiniao/sugestao/critica/etc. Voltarei smp que puder por aqui ;D
Beijos;*

Fred Matos disse...

Para ser franco, Iasmin, publicar um livro de poesia por conta própria não vai fazer nenhum efeito nos seus textos. No máximo servirá para alegrar o seu ego (e isso não tem nada de mau).
Tenho certeza que no blog você terá muito mais leitores e um retorno, do ponto de vista de crítica e de aconselhamento, bem mais honesto.
Só há uma maneira de progredir na arte literária (sim, poesia é literatura): ler e escrever muito.
Venha sim, volte sempre. Tentarei visitá-la às vezes e, se possível, contribuirei para o seu aprendizado. Pode me cobrar a promessa, se eu demorar a aparecer no seu blog.
Sucesso.
Beijos

Ana, A menina que roubava idéias disse...

Parece com a minha biografia... kkk adorei

Fred Matos disse...

Obrigado, Ana, pela visita, leitura e comentário.
Juro que não roubei a sua biografia.
Beijos

Yaasmiin (: disse...

Obrigada *-*
pelos conselhos, realmente, com o blog tenho mais contato com meus leitores e assim recebo mais diretamente as criticas e tudo mais. E é isso que eu quero mesmo, aprender. Enfim, nao almejo escrever um livro, pois só quero me aprimorar de uma arte que amo tanto, a poesia.Sou poetiza-amadora :D . Gosto de saber a opiniao dos outros sobre meus texto, saber se consegui passar a mensagem que eu queria mesmo, como disse antes aprimorar-me.

"Só há uma maneira de progredir na arte literária (sim, poesia é literatura): ler e escrever muito."

Bom, se depender disso, continuarei meu caminho feliz, já que ler e escrever não é sacrifício nenhum pra mim. rs'

Mais uma vez obrigada, e pode deixar que eu cobro sim, rs' . E sempre que possível voltarei aqui ;D

Blog Normal, mas nem tanto... disse...

Muito bom!!!

Mas que filho abusado!!! Na hora de pedir o tênis, não tem vergonha.. Mas não anda junto com a mãe.. Afff! =/


Ótimoooo!!! Parabéns pelo Post! =)

Fred Matos disse...

Fiquei contente com a sua visita, leitura e comentário, Sara.
Obrigado.
Beijos

pesquisar nas horas e horas e meias