segunda-feira, novembro 16

sinal fechado



“Tanta coisa que eu tinha a dizer,
mas eu sumi na poeira das ruas...”
Paulinho da Viola, em Sinal Fechado



ilustração: Rubens - Allegory on the Blessings of Peace


levava a passear os meus fantasmas
de carruagem às margens do Tamisa
no tempo que Shakespeare escrevia
o sonho de uma noite de verão.
mas, naquela época,
eu não sabia nada de Ovídio

eu era absolutamente estúpido
naquela época
e tinha certeza absoluta
que o mundo se resumia à minha ilha
e que nada poderia ser mais importante
que levar os meus fantasmas
para passear de carruagem
às margens do Tamisa

a vida, contudo, é só uma sombra móvel
e, quando Drake queimou no porto de Cádiz
37 navios espanhóis,
a sombra caiu sobre os meus olhos
e pressenti que dias negros viriam
mas, naquela época,
eu não sabia nada de Ovídio

ó filho desventurado levado ao mar
sem pastor que o guie,
sem líder que dê o peito à lâmina inimiga
sem um deus que o erga na mão
no momento exato do golpe fatal
no momento exato que eu estava
com os meus fantasmas
às margens do Tamisa

decretaram-me louco:
nunca tivestes um filho
nunca às margens do Tamisa
fantasmas jamais
carruagem alguma
e acreditei no que me diziam
porque, naquela época,
eu era absolutamente estúpido
e não sabia nada de Ovídio

acreditei no que diziam
e, no limite do esquecimento,
da minha boca saíam palavras estranhas
palavras de um idioma inédito
um idioma no qual as palavras eram flechas
os meus pulmões o arco
meus fantasmas alvos
correndo amedrontados
às margens do Tamisa:

quizá yo sea un pájaro viejo,
pero apuesto a que aún
puedo enseñarle un par de tretas.

acusado de espionagem,
Sir Francis Walsingham me levou
à sala do trono da fanática
caí de joelhos
e antes que a louca virgem me condenasse
metamorfoseei-me em barata
na época eu não sabia nada acerca de Gregor Samsa
e, podem crer nos que lhes digo:
eu não sabia nada de Ovídio

foi naquele estranho dia, porém,
que Ovídio entrou em cena
puxando um séquito de criaturas míticas
que cantavam em coro,
como no teatro grego no século de Péricles:
"cidadão, cidadão
só o alucinado do Mallarmé
acreditava em uma semântica sem sintaxe"
foi assim que, evocado pelo romano,
Stephane pousou no meu poema:
"seria
pior
não
mais nem menos
indiferentemente mas tanto quanto"
mas os meus fantasmas
estupidamente neo-conservadores
ainda não entendiam nada
e passeavam de carruagem
às margens do Tamisa.

Ovídio, meu querido,
eu disse assim mesmo,
com a maior intimidade,
o braço sobre o ombro do poeta,
como se fossemos velhos amigos:
Ovídio, meu querido,
ajude-me a safar-me desta
navegue comigo nestas amargas páginas
ajude-me a encontrar Homero
que, coitado, está perdido,
tentando decifrar hieróglifos
dadaisticamente atirados
nos poemas de um baiano analfabeto
que côa metáforas
nas ânforas sagradas.

inesperadamente
um terceto rolou escada abaixo
causando pânico na platéia:
"ah! formidável lei cruel da vida,
lei da matéria, da mudez das lousas,
da eterna noite atroz, indefinida;"
perseguido-o, Cruz e Sousa,
que é um apenas,
não um mais outro,
como talvez alguém suponha,
mas que é um imenso na poesia,
um tal estes tantos afamados
que escreveram em idiomas mais chiques

Ovídio, meu caro Ovídio,
onde estás que não te encontro
terás descido ao Estige?
talvez tenha me abandonado aos fanáticos
talvez também tenha se metamorfoseado
talvez esteja mais uma vez no exílio
talvez jamais tenha vindo aqui
talvez eu tenha apenas sonhado
talvez eu nunca o tenha conhecido
talvez esteja com os meus fantasmas
passeando de carruagem
às margens do Tamisa

"Eu também tenho algo a dizer,
mas me foge à lembrança!"


Fred Matos

20 comentários:

Alice ainda mora aqui disse...

Suba ao lustre!
Gostei daqui.

besos

sueli aduan disse...

..."só o alucinado do Mallarmé
acreditava em uma semântica sem sintaxe..."

Belo! belíssimo!
parabéns! .

myra disse...

fred, amigo, cada dia te admiro mais...
abraço forte

Amélia disse...

Fred: já que não o tens feito, será que eu poderia colocar poemas teus na nossa lista? Gostei deste, como de tantos teus.

Fred Matos disse...

Vivo pendurado em lustres, Alice. Tanto que até há quem pense que sou um ilustre, ou um ilustrado, sei lá. (risos).
Deixa-me contente que tenha gostado daqui.
Volte sempre.
Ótima semana.
Beijos

Fred Matos disse...

Contudo, Sueli, a frase entre aspas não é minha, por uma questão de muitos séculos não é também de Ovídio, a quem a atribuí no poema, mas de um sujeito que costuma comentar em um outro blog e com o qual me divirto porque tem conceitos conservadores, sobretudo acerca de arte e literatura, e os expõe com argumentos quase surreais.
Agradeço-lhe a visita, leitura e comentário.
Ótima semana.
Beijos

Fred Matos disse...

A admiração é mútua, Myra.
Agradeço-lhe por tudo, sobretudo pela amizade.
Beijos

Fred Matos disse...

Claro que pode, Amélia: este e qualquer outro.
Obrigado, amiga.
Beijos

Marcos Satoru Kawanami disse...

erudito, meu! muito bom.

Fred Matos disse...

Marcos,

se Eros não tenho dito
que erudito diga então
conquanto a erudição seja soma
e eu prefira a multiplicação
atributo da fantasia
elevada à razão da poesia
em cujo pó me venho espojando
com a esperança de que soe um arpejo
para arquitetar a melodia
que há de animar
o definitivo verso
que desejo.

Abração

dade amorim disse...

Genial, Fred!

Um beijo.

Fred Matos disse...

Minha maior genialidade, Adelaide, é ter muitos amigos generosos, como você.
Obrigado.
Ótima semana.
Beijos

Mari Amorim disse...

Ô Fred...
Cada vez vez que visitas a Bahia,você volta com a caneta impossível,o que acontece?(risos)
beijão
Mari

Fred Matos disse...

É a água da nossa terrinha, Mari. É o ar, a magia, mas também um amontoado de questões que nunca se resolvem, aliás, que sempre pioram: como o transito, por exemplo.
Obrigado, amiga, pela visita, leitura e comentário.
Beijos

Vinícius Rocha Zocolotti disse...

belo txt.

Nydia Bonetti disse...

Fred
Fred

Também andei levando meus fantasmas a passear, às margens do riozinho mesmo, aqui perto... Eram (são) fantasmas campestres. :)
Pra eles, não há sinal fechado. Só pra nós, que "vamos indo, em busca de um sono tranqüilo..."

Beijo!

Fred Matos disse...

Vinícius,
Agradeço-lhe pela visita, leitura e comentário.
Volte sempre.
Grande abraço

Fred Matos disse...

Talvez os fantasmas campestres sejam mais fáceis de contentar, Nydia, além da vantagem de que, mais próximos da natureza, da luz, sejam mais aptos, creio, às concepções mais simples, conseqüentemente mais belas e mais sublimes que as concepções soturnas dos fantasmas habituados às masmorras e porões das cidades. Mas, de uma forma ou de outra, todos são fantasmas, e o que nos cabe fazer é levá-los a passear.
Agradeço-lhe por me visitar, pela leitura e pelo comentário.
Beijos

Mirse Maria disse...

Oi Fred!

Daria uma bela peça teatral.

Erudição, elegância e o charme da música cantada pelo Chico, mas que na realidade é do mestre Paulinho da Viola!

Mestre por Mestre, você está entre eles!

Forte abraço!

Mirse

Fred Matos disse...

Você tem razão, Mirse. Eu tinha essa dúvida, mas encontrei como letra e música de Chico em tantos sites da Internet que aceitei sem conferir no disco. Vou corrigir o post.
Agradeço-lhe pela visita, leitura, comentário e por apontar o erro.
Ótima quarta-feira.
Beijos

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