quarta-feira, fevereiro 10

carnaval



foto: Mário Cravo Neto


— vam'bora?

não ouvi se ela falou
nem me dei conta de quando foi
absorto nos meus pensamentos.

da mesa ao lado a nota histórica:

"na Grécia, há cinco mil anos,
para ficar famoso,
colocar seu nome no livro dos tempos,
Eróstrato incendiou o Templo de Diana,
uma das sete maravilhas da terra".

é de memória que escrevo agora,
podem ter sido outras as palavras
do, decerto, professor de história,
moço ainda de espinhas na cara.

em guardanapos de papel,
encontrei, depois, no bolso da calça
fragmentos com a minha caligrafia:

utópico trópico meu equador
equinocial equação de gozo e drama
de riso e dor, de sonho e razão
rapsódia melancólica, eólica, louca
rouca, plural.

estanca na boca o tímido estame
da tinta flor, do vento marinho
que brisa a morna pletora, e chora
e ri rebrotando a verdura madura
límpida e singular.

sangra, singrando a pênsil linha
limítrofe entre o pêndulo e o espaço
cindido por imperceptíveis pancadas
rompendo a rota a golpes de sépticos pés
nus e nós. em noz moscada.

enquanto tanto gasto pó palavras
e espanto do meu canto, a luz, o manto
o conduto, a compreensão. salta o sapo
salga o sal, e oculto o obvio, por vezo vil
véu, víbora, tacão.

loucuras. sim, dirás, direi, dirão
e gira a roda da fortuna. escura
a bruma ronda a noite, o dia, a língua
a mão. eu não. ah! sim. ah! são
os santos de ocasião.

amanhece, anoitece, não sei bem
o copo é oco, agora peço a nota
noto que a morena foi embora
pago e trôpego pingo
com um arroto
o ponto final.

não alcanço o sentido disso.

foi uma bebedeira e tanto:
há coisas de que me lembro;
de outras não.

a ela penso que disse
do encanto de estar aqui agora,
de ser este mutante múltiplo
que devora o tempo, as horas.

protagonizei,
vês?,
meu deus íntimo.

íntimo mas falso. outra máscara
das que me permitem dissimular
uma personalidade estranha,
senão irremediavelmente doentia.

agora é a cabeça que dói
é um amargo na boca
é o corpo cansado.

um banho frio,
um café quente e forte
e estarei pronto pra outra.

a festa não pode acabar.


Fred Matos
publicado em "Anomalias"
Editora Kelps
Setembro/2002

14 comentários:

Sonhadora disse...

Lindissimo poema.
Gostei muito de ler.

beijos
Sonhadora

Sandra Botelho disse...

E vamos festejar...
Que delicia heim?
Tenha um bom carnaval.
Bjos meus!

Fred Matos disse...

E eu gostei que você goste, Sonhadora
Obrigado.
Beijos

Fred Matos disse...

Sim, Sandra: festejemos a vida.
Agradeço-lhe vir, ler e comentar.
Ótimo carnaval pra você também.
Beijos

nina rizzi disse...

EU QUERO ESSE LIVRO!!!
rsrsrs...

sim, eu disse: "vam'bora", em tema pra assentamento, ou canção, sei lá.

beijo, e até 2207.. rsrs

Fabio Rocha disse...

Belo resultado para um porre... ;) Abração

myra disse...

formidavel, Fred!!!!
eu me lembro de qdo o carnaval,era mesmo a festa do povo...e eu ia junto com ele, dansando e dansando...claro escondida de meus pais:))) e tbem de meu irmao :)))
aqui tem tbem "dizquecarnaval" mas para mim, nao é!
beijos

Fred Matos disse...

Nina,
Envie-me para o e-mail cfmmatos@terra.com.br , pois este do gmail eu nunca me lembro de abrir, o endereço postal para onde eu possa enviar-lhe o livro.

Ok! Encontro marcado no Arraial da Menina Aluada, no dia 10/02/2207.

Beijos

Fred Matos disse...

Um porre e tanto, Fabio.
Obrigado.
Abração

Fred Matos disse...

"claro escondida de meus pais:))) e tbem de meu irmao :)))"

Quem nunca aprontou, Myra?

Obrigado por vir, ler e comentar.

Beijos

BAR DO BARDO disse...

multi
texto

Fred Matos disse...

com tem
tativa de
contextu
alização

pelo sim
pelo não

obrigado Henrique.
Abração

Adriana Godoy disse...

Então, vam'bora! Vamos foliar e comemorar essa vida. Enquanto pudermos. Lindo poema, Fred, contagiante. beijo.

Fred Matos disse...

Obrigado, Adriana.
Beijos

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