segunda-feira, março 15

sem justiça não haverá paz

Dom Hélder Câmara, entrevista a Ariovaldo Matos


não sei quem é o autor da fotografia

Realizada nos anos 70, em plena treva da ditadura militar, a entrevista concedida por Dom Hélder Câmara a Ariovaldo Matos esteve praticamente inédita. O material foi produzido para integrar o curta-metragem "Nordeste, Dom Hélder Acusa", de Rex Schindler, que nunca foi exibido. A conversa entre Ariovaldo Matos e Dom Hélder chegou a ser impressa na revista Porto de Todos os Santos, editada pelo Governo do Estado da Bahia, através do Departamento do Ensino Superior e da Cultura, a cuja frente estava o historiador e escritor Luis Henrique Dias Tavares. Mas os exemplares da publicação foram imediatamente confiscados pelos órgãos de segurança a serviço da ditadura. Seguem os principais trechos da entrevista, na qual o então arcebispo de Olinda acusa o mundo desenvolvido de injusto para com o Brasil e demais países do Terceiro Mundo. “A questão é de justiça. Há injustiça em escala mundial. Ora, como sem justiça não haverá paz, essas injustiças estão pondo em grave risco a paz no mundo”, afirmava então o religioso, com voz que repercute nos dias de hoje, quase 40 anos depois.

Ariovaldo Matos – Acredita que as grandes mudanças no caráter da Igreja encetados por João XXIII e Paulo VI bastam para uma ação dinâmica desta mesma Igreja, ou são apenas um início de uma tomada de posição muito mais radical?

Hélder Câmara – Respondo com a palavra do papa João XXIII. Conta-se que quando ele recebeu o genro de Kruchev, a conversa caiu na Bíblia e nos dias da criação. O genro de Kruchev estava muito interessado em saber se eram dias de 24 horas, se eram épocas. O papa procurou explicar que não se tratava de maneira alguma de dias de 24 horas; eram épocas. Mas o formidável é que aquele homem com mais de 80 anos de idade fez questão de dizer: “Mas o que lhe garanto é que ainda estamos no primeiro dia da criação.”

A.M. – Um marxista francês, Roger Garaudy, sustenta que é possível um diálogo, inclusive em certos aspectos filosóficos, entre os materialistas dialéticos e o pensamento moderno da Igreja. Que pensa disso Vossa Reverendíssima?

H.C. – Esse diálogo já está aberto, já existe. Já várias vezes, sobretudo na França, cristãos e marxistas têm diálogo. O difícil é estabelecer este diálogo em terras do Brasil, porque aqui se alguém tiver a audácia de descobrir pontos de contato entre cristianismo e marxismo, imediatamente é interpretado como adepto do comunismo, como simpatizante da Rússia Soviética, da China Vermelha ou de Cuba. Nunca vi primarismo tão grande. Há pessoas que não podem ver ninguém de barba que imediatamente se lembram de Fidel Castro e logo calculam que seja alguém ligado a algum esquema cubano.

Há, no entanto, quando se trata, vamos dizer, do marxismo, pontos de contato indiscutíveis; por exemplo, na crítica ao capital, na valorização do homem, o que não significa que o humanismo marxista se confunda com o humanismo cristão. Temos uma dimensão de integralidade e transcendência que, a meu ver, nos permite ir muito mais longe do que o humanismo marxista. Mas é possível dialogar.

Sinto-me à vontade para dizer isso, porque faço questão de deixar bem claro que quando, como homem do terceiro mundo, contemplo o mundo desenvolvido, noto que não só da parte do regime capitalista, representado, digamos, pelos Estados Unidos, como da parte do regime socialista, representado, suponhamos, pela Rússia Soviética, considero que Rússia e Estados Unidos, não só em Genebra na Primeira Assembleia das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, mas ainda há pouco em Nova Déli, na segunda Assembleia das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, manifestaram a mesma falta de visão, a mesma intransigência, o mesmo egoísmo.

A.M. – De acordo com previsão de um militar norte-americano, a América Latina seria em futuro próximo o que ele definiu como a Argélia dos Estados Unidos da América do Norte. Vossa Reverendíssima está de acordo em que esta possibilidade realmente exista?

H.C. – Não conheço esta passagem e não sei bem qual o alcance da comparação com a Argélia, não sei se ele queria significar a Argélia em comparação com a França. Se era para significar colônia, não era necessária comparação alguma. Não há nenhum mistério de que somos satélite dos Estados Unidos. Não me parece que haja nenhuma surpresa nisso, nenhum mistério, e aproveito para dizer meu pensamento todo a respeito da posição da América Latina. Eu, por exemplo, não desejo de modo algum, para o Brasil ou para a América Latina, apenas mudança de patrão. Não imagino que seja a solução deixar de ser satélite dos Estados Unidos para cair na órbita da Rússia Soviética ou da China Vermelha. Prefiro a América Latina sem patrão. Prefiro a América Latina independente e creio que no dia em que houver uma opção política dentro do continente, de tal modo que os vários países se decidam a não ser satélite de ninguém, se decidam a um período de austeridade, no sentido de não permitir que nenhuma matéria-prima parta daqui sem ser trabalhada; nesse dia – e se nós resolvêssemos nos completar mutuamente, se cada país da América Latina, em lugar da posição adolescente de querer tudo produzir, verificasse o que pode produzir de modo mais econômico, e o que de maneira mais econômica pode ser produzido pelos outros países, se nenhum país da América Latina, por ser um pouco maior, um pouco menos subdesenvolvido, pretendesse realizar aqui um mini-imperialismo sobre vizinhos menores – podíamos partir para uma integração continental que podia ser válida, sobretudo se dentro de cada país ela fosse precedida de uma integração nacional. Então, voltando à comparação que foi lembrada, desse militar que fala em Argélia a propósito da América Latina, digo que ele pode perder a cerimônia e dizer abertamente que nós somos satélites dos Estados Unidos, pois, infelizmente, somos.

A.M. – A industrialização no Nordeste está solucionando o problema do desemprego?

H.C. – Creio que a própria Sudene é a primeira a reconhecer que não. Não estou com isso, de maneira alguma, combatendo a industrialização. Um cristão não pode ser contra o progresso; nós temos é que enfrentar esse desafio, como optar pela industrialização, por um esquema competitivo, porque de fato o Nordeste está tendo que competir com o Sul e até com o estrangeiro. E ao mesmo tempo levar em conta que quando a Sudene começou seus trabalhos ela reconhecia que havia na área um milhão e meio de pessoas por empregar. Na medida em que as indústrias antigas, sobretudo açúcar e tecidos, se modernizam, elas, ao invés de empregar mais gente, tendem a jogar fora a metade e por vezes mais da metade dos seus trabalhadores. As indústrias novas já têm que nascer modernas e portanto admitindo um número pequeno de trabalhadores. Ainda há pouco tempo foi instalada no Nordeste uma grande empresa que só por conta dos investimentos de 34/18 recebeu 10 milhões e duzentos mil cruzeiros novos e, na realidade, contando todos os empregados, do gerente ao porteiro, ela está com 160 empregados. A meu ver o que há de grave é que até hoje a Sudene não teve possibilidades de enfrentar o mal na sua raiz.

Enquanto as estruturas sócio-econômicas permanecerem as mesmas, não adianta industrialização e não adianta qualquer recurso de desenvolvimento, porque o resultado será sempre o mesmo: os ricos se tornarão mais ricos e os pobres se tornarão mais pobres.

A.M. – Vossa Reverendíssima acha legítimo que a Sudene financie também a implantação de empresas estrangeiras no Nordeste?

H.C. – Este problema de participação de empresas estrangeiras poderia ser normal se de fato não houvesse esse fenômeno que as estatísticas estão aí para atestar. Nós sabemos que quando se compara o investimento vindo do exterior com o dinheiro que se retorna, vemos que com o dinheiro sai muito suor e sai muito sangue do Nordeste, aliás do Brasil. Eu bem sei que a gente pode apelar para o texto da lei, e de fato a lei está aí, mas também as estatísticas estão e são estatísticas oficiais que permitem ver e fazer sentir que o que retorna não tem comparação com o que entrou.

A.M. – Vossa Reverendíssima se considera um nacionalista? Em que sentido?

H.C. – Eu sou um partidário fervoroso da solidariedade universal. Nesse sentido me sinto muito cidadão do mundo. Mas precisamente porque sou pela solidariedade universal é que não acredito que seja possível chegar-se a este ideal desejado por Paulo VI, enquanto houver países extremamente ricos e países extremamente pobres. Esta aliança entre o extremamente forte e o extremamente fraco é impraticável. La Fontaine já lembrava que panela de ferro e panela de barro não podem caminhar muito juntas. Então, precisamente porque eu sonho com a solidariedade universal, é que eu sonho com um Brasil que se desenvolva, com uma América Latina que se desenvolva, com um terceiro mundo que deixe de ser subdesenvolvido.

A.M. – Quando o acusam de comunista como é que Vossa Reverendíssima responde?

H.C. – Há pessoas que quando ouvem falar em comunismo tremem de horror; então parece que a acusação de subversivo, de comunista é qualquer coisa de estranho, de diabólico. Eu sei por que é que me chamam de comunista. Chamam-me de comunista aqueles que estão de tal maneira contentes com a situação instalada na injustiça, que nem sequer podem imaginar uma mudança de estruturas e no entanto isso é inevitável. E se Deus quiser isto se fará. O que eu espero é que isto se faça com a compreensão daqueles que até hoje não resolveram abrir mão dos próprios privilégios, porque se não conseguirmos abrir os olhos dos poderosos, dos privilegiados, eu não acredito que se consiga salvar o continente da radicalização, da violência. Eu sou insuspeito porque cada vez mais quero que saibam que eu sou um homem de não-violência, eu me bato pela não-violência, eu sei o que nos arrastaria uma explosão de violência. No dia em que uma explosão de violência se realizar em qualquer parte do Brasil, imediatamente chegariam os grandes, Estados Unidos de um lado, Rússia Soviética do outro, China Vermelha e nós viraríamos um enorme Vietnã. Deus nos livre. Mas, por outro lado, e precisamente como condição indispensável para que a juventude não perca a paciência e não vá para a radicalização, para a violência, é que é necessário, com urgência, falar claro, batermos-nos pela justiça, exigir que cesse a marginalização das massas latino-americanas.

Não se trata de uma cisão, o que ocorre é que, graças a Deus, leigos, padres e bispos em face das questões dogmáticas, das questões fechadas, estamos absolutamente de acordo. Eu tenho dito e repito que se nós formos rezar o credo estaremos juntos desde a primeira palavra até a última na vida eterna, amém. Todos juntos. Agora, no tocante às questões abertas, graças a Deus há discordâncias entre nós. Por exemplo, eu sei que há bispos meus irmãos que, diante da interrogação a respeito do mais grave problema social do mundo de hoje, não vacilariam em dizer que se trata de comunismo. Eu não daria esta resposta, a meu ver muito mais grave do que o comunismo é esta distância cada vez maior entre o mundo desenvolvido e o mundo subdesenvolvido. Ora, o que vai acontecer se numa reunião de bispos aparece alguém com a preocupação de comunismo e apareço eu e vários outros com a preocupação de tentar aproximar os mundos, tentar evitar este fosso que cada dia se alarga mais. Desde que haja respeito mútuo e caridade fraterna tudo se resolve. Eu posso dar aqui este testemunho. Em julho, se Deus quiser, mais uma vez os bispos do Brasil estaremos reunidos. Hoje nós somos 250 bispos. Pois bem, cada dia é mais agradável o encontro dos Bispos do Brasil, porque nós nos respeitamos mutuamente. Cada um de nós pode dizer até o fim o seu pensamento na certeza de ser entendido, de ser ouvido, de ser respeitado e salva-se cada vez mais a amizade entre irmãos.

A.M. – Qual a sua opinião sobre a formação do terceiro mundo?

H.C. – Não é necessário formar o terceiro mundo; ele já está formado. Aconteceu que, um dia em Bandung, a Ásia e a África, premidas pelas necessidades de defender-se diante do imperialismo, imperialismo capitalista, imperialismo socialista, conseguiram superar as distâncias enormes que existem entre elas, no tocante às raças, línguas, religiões. Nesse tempo a América Latina não estava ainda caminhando com a África e a Ásia, mas já por ocasião da primeira Assembleia das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento em Genebra, a América Latina esteve presente e agora a prova que o terceiro mundo existe é que, quando o mundo desenvolvido se encontrou com o mundo subdesenvolvido em Nova Déli, a Ásia se tinha reunido em Banguecoque, a África na Argélia e a América Latina em Tequidama. A África, a Ásia e a América Latina se puseram de perfeito acordo ao redigirem juntas a carta da Argélia. Agora, infelizmente, em face deste terceiro mundo que é um mundo subdesenvolvido, o mundo capitalista e o mundo socialista representados sobretudo pela Rússia Soviética, pela China Vermelha e pelos Estados Unidos, manifestaram uma frieza, uma falta de visão, um egoísmo que deixam uma preocupação muito grande. O que o terceiro mundo insiste em dizer, é que nas relações entre mundo desenvolvido e mundo subdesenvolvido o problema não se reduz de modo algum a ajudas, não se trata de aumentar de 1% sobre o produto nacional bruto, 1% que aliás nunca foi dado, não se trata de ajuda, o problema é muito mais grave. Trata-se de injustiças em escala mundial. Nós acusamos o mundo desenvolvido de estar injusto para conosco; basta comparar o preço que é imposto a nossas matérias-primas com o preço que nos é cobrado pelas matérias-primas que nos são devolvidas industrializadas; basta eu comparar o dinheiro investido no mundo subdesenvolvido com o dinheiro que retorna. A questão é de justiça. Há injustiça de escala mundial. Ora, como sem justiça não haverá paz, essas injustiças estão pondo em grave risco a paz do mundo.


8 comentários:

Mirse Maria disse...

Fantástica postagem!

A figura de Dom Helder, sempre em torno da Paz e solidariedade, com uma cultura ímpar e ecumênica, impressiona!

Foi muito bom ler a entrevista.

Beijos, Fred!

Mirse

Ana Paula Duarte disse...

Muito consistente a entrevista, e melhor, foje do comum por não ser preconceituosa e não pregar verdades individuais.
Adorei, salvei aqui no meu pc e usarei com meus alunos do colégio!
Abraço.

Fred Matos disse...

Mirse,

Obviamente muita coisa mudou nestes 40 anos. Hoje já não há, por exemplo, a União Soviética, e os mecanismos de colonização são mais sofisticados. Alguns países, entre eles o Brasil, conseguiram avanços significativos, mas na essência a entrevista permanece atual. O impasse que já existia nas relações econômicas entre os países ricos e pobres continua sem solução e, como dizia D. Hélder, a questão é de justiça, e sem justiça não há paz. Outro ponto que me parece atual é que os mecanismos governamentais de desenvolvimento servem mais ao capital que ao trabalho, pois, como ele disse na entrevista as novas indústrias empregam pouco e a modernização das antigas leva à redução do emprego. Claro que não é uma questão simples, porque esse modelo industrial é mais competitivo. Constatando isso, penso que faltou na entrevista o tema da reforma agrária, tão caro ao entrevistador e também ao entrevistado, mas, talvez, porque soubessem que o tema levaria à proibição da veiculação da entrevista, coisa que ocorreu.
Devo porém registrar que não tenho a entrevista completa, apenas esta parte que publiquei

Agradeço-lhe pela leitura e comentário.
Ótima semana.
Beijos

Fred Matos disse...

"Adorei, salvei aqui no meu pc e usarei com meus alunos do colégio!"

Que bom, Ana Paula. Fico muito contente e agradeço-lhe.

Ótima semana.
Beijos

patricia disse...

ciertamente, amigo, ¿cómo podría haber paz donde reina la injusticia? muy buen reportaje.
buena semana!
un abrazo.

Fred Matos disse...

Obrigado, Patricia. Sempre fico contente quando você vem e comenta.
Ótima semana.
Beijos

nina rizzi disse...

nós dois fomos de entrevistas hoje :) e na revista de onde tirei aquela tinha uma matéria enorme sobre d. hélder. porra, eu dou maior valor, claro. "o melhor do ceará, é o cearense" ;)

beijos, fredito.

Fred Matos disse...

Que bom te ver aqui, Nina.
Pois é, parece que valoramos as mesmas coisas, com as naturais diferenças, obviamente.
Xêro, querida.

pesquisar nas horas e horas e meias