quinta-feira, julho 15

cangalha



foto: Mário Cravo Neto


jamais me perguntei
porque tenho apascentado esta manada
cujos olhos perfuram meus silêncios.

gostava que não me apertassem o pescoço
nem que me exigissem manter limpos
os meus sapatos de mármore.

mas nunca, jamais, nenhum pio.

caminho ereto e sorridente como um asno
cuja felicidade é a ausência da cangalha.

contudo, tenho intimamente gritado
que todos os meus sonhos se diluem
como a neblina após a alvorada.

mas não.

estão todos surdos
nunca serei ouvido
exceto na opacidade dos meus olhos
cobertos de musgos.



Fred Matos

64 comentários:

Batom e poesias disse...

Seremos nós, a manada?
Os que te leem?

Eu ouço o grito forte da sua poesia instigante, e gosto do que ouço.

bjs, Fred.

Rossana

Liene disse...

Eis que a liberdade está sob os musgos fáceis de se ver e nem tão previsíveis de se abster. E os gritos precisam ecoar primeiro dentro da gente.

Poema cheio de enigmas... tão reias.

Gostei do que li e senti.

Beijo Fred!

myra disse...

realmente devo gostar muito - e gosto - de te ler, porque é muito dificil entrar no teu blog.Demora mto!!!!
desculpa,-uma pergunta - meu portugues anda ruim, que quer dizer "cangalha"? o que se poe nos bois?
mas gostei como sempre das tuas "imagens metaforas"!!!!aquela dos olhos , adorei
abraço,

Lara Amaral disse...

Uau! Muito bom poema.

Beijos.

Bípede Falante disse...

sensação de solidão...

Mirze Souza disse...

Nunca é tarde!

Está feito o questiomamento!

Olhos ouvem melhor quando cobertos de musgos.

Bela imagem!

Bravo poeta!

Beijos

Mirze

Lídia Borges disse...

É bom que a cangalha se mantenha afastada... E, já agora, que os gritos se façam ouvir.

Assim se faz poesia!

L.B.

Paula: pesponteando disse...

às vezes, nos sentimos assim, nem livre nem preso, cheio de sonhos e sentimentos, sei lá como...é muito estranho, mas vc consegue por este sentimento no texto. Gosto muito!

Abraços

Fred Matos disse...

"Seremos nós, a manada?
Os que te leem?"


Não, Rossana. Claro que não.

Sempre que posso, evito explicar poemas, um dos motivos é que a poesia, assim como um truque de mágica, perde a graça depois de explicada. Outro motivo é que, muitas vezes, na maior parte das vezes, a voz que fala no poema não é a voz do individuo Fred Matos, é a voz, sim, de Fred Matos, mas exercendo a função de "cavalo" de sentimentos e inquietações coletivas.
Não consigo identificar entre os que me lêem pessoas que não exercem o pensamento próprio e que apenas repetem os refrões das manadas, e cujas ações são determinadas apenas pelo sentimento de pertencimento a um grupo que decide as suas ações e que impõem dogmas que aceitam como verdades absolutas.
É a esta manada que me refiro.

Agradeço-lhe por vir e comentar.
Beijos

Fred Matos disse...

Como já me demorei na resposta ao comentário de Rossana, limitar-me-ei a agradecer-lhe, Liene, por vir e comentar.
Beijos

Fred Matos disse...

Eu achava que isso era coisa resolvida, Myra. Verei se há algo que eu possa fazer pra melhorar.
Cangalha é um tipo de sela rudimentar que se usa em jumentos, burros e bois.
Obrigado, amiga.
Beijos

Fred Matos disse...

Obrigado, Lara. Deixa-me contente que você goste.
Beijos

Fred Matos disse...

"sensação de solidão..."

Penso que se sente(m) assim aquele(s) que fala(m) para surdos.
Agradeço-lhe por vir e comentar.
Beijos

Fred Matos disse...

Grato por sua visita e comentário, Mirze.
Beijos

Fred Matos disse...

Obrigado, Lídia.
Beijos

Fred Matos disse...

"é muito estranho, mas vc consegue por este sentimento no texto. Gosto muito!"

Deixa-me contente que goste, Paula.
Obrigado
Beijos

Zana disse...

Beijo!

Fred Matos disse...

Beijos, Zana.
E um ótimo fim de semana.

VALVESTA disse...

Olá querido Fred, saudades, o tempo e a net não se entendem...
Mas os nossos sonhos, dormem acordam, diluem-se e voltam a tomar forma, eu os tenho segurado em redéas curtas. Um agrádavel fim de semana com os teus, bjos no coração.

Fred Matos disse...

"o tempo e a net não se entendem..."

Aqui também não, amiga.
Grato pela visita.
Ótimo fim de semana.
Beijos

Rafael Castellar das Neves disse...

Caramba, Fred...que paulada!! Muuuuuuito bom, muito bem feito!!

[]sss

Talita Prates disse...

Olá, Fred.
Vim agradecer a visita e também desejar um fim de semana maravilhoso.

Um abraço,
grande poeta.

Talita
História da minha alma

Insana disse...

Sentindo suas palavras..

bjs
Insana

Fred Matos disse...

Bom ver você aqui, Rafael. Agradeço-lhe pelo comentário.
Ótimo fim de semana.
Grande abraço

Fred Matos disse...

Qu que te agradeço, Talita.
Ótimo fim de semana.
Beijos

Fred Matos disse...

Obrigado, Insana.
Beijos

Rascunhando Sentimentos disse...

Po Fred.
O novo espaço do essencia e palavras.. To te esperando lá.

beejao amigo!

Fred Matos disse...

Já estou indo lá.
Ótimo fim de semana.
Beijos

Vanessa Souza Moraes disse...

A eterna incompreensão...

Fred Matos disse...

Vanessa, o seu sobrenome sugere a paródia:

que não seja eterna, posto que é chama, e que não seja infinita enquanto dure

Grato pela visita e comentário.
Ótimo fim de semana.
Beijos

Zélia Guardiano disse...

Muito lindo, Fred, o teu poema Cangalha, bem como todo o teu blog.
Adorei!
Virei sempre...
Abraço

Fred Matos disse...

Será sempre bem vinda, Zélia.
Agradeço-lhe pela visita e comentário.
Abraços

Tania regina Contreiras disse...

Fred, verdadeiramente, poemas não devem e nem precisam ser explicados. São captados dentro do universo de cada um. E a mim o poema fala de IMPOSSIBILIDADE de comunicar um mundo que só tem podido ser visto na sua superfície. Mas essa é apenas a minha leitura.
Abraços, querido

Fred Matos disse...

Achei maravilhosa a sua leitura, Tânia.
Grato por vir e comentar.
Ótimo fim de semana.
Beijos

Mirze Souza disse...

Fred!

O que vem a ser cangalha mesmo?

Desculpe se incomodo, mas parece´me um regionalismo e sempre pensei que fosse a carga que os jumentos antigamente levavam.

Se puder me dar o sentido dele aqui intrínseco, agradeço.

Beijos

Mirze

Fred Matos disse...

Mirze,

Cangalha ou cambito é um anteparo de madeira usado no lombo de animais de carga para fixar os caçuás.

Caçuá, palavra de origem tupi, é o cesto de vime ou cipó que serve para carregar mantimentos e é transportado por animais de carga no interior do nordeste brasileiro.

Você nunca incomoda, querida amiga.

Beijos

Gerana Damulakis disse...

Excelente poema, querido amigo. Abraço e bjo.

Fred Matos disse...

Que bom que você gostou, Gerana.
Saudades de você.
Agradeço-lhe por vir e comentar.
Ótimo fim de semana.
Beijos

Márcia Cristina Lio Magalhães disse...

Lindo!

"contudo, tenho intimamente gritado
que todos os meus sonhos se diluem
como a neblina após a alvorada."

bj.

Fred Matos disse...

Agradeço-lhe pela visita e comentário, Márcia.
Ótimo fim de semana.
Beijos

Mirze Souza disse...

Obrigada, Fred!

Minha avó sempre falava sobre cangalha. Mas concluia numa linguagem que ainda criança, não entendia.

Grata mais uma vez, poeta!

Beijos

Mirze

Fred Matos disse...

Eu que agradeço pelo seu interesse, Mirze.
Ótimo sábado.
Beijos

Thaís Winck disse...

nossa
que profundo esse poema. Posso chamar de poema né?
gostei muito
beijão!

Wania disse...

Fred

"Libertos e Cativos"...
As cangalhas sufocam e abafam os gritos e um grito abafado destrói toda a possiilidade de sonhar! Eu prisioneiro de mim!


Linda poesia!
Fala alto!

Bjs

Fred Matos disse...

Claro que pode Thaís, porque é um poema.
Agradeço-lhe pela visita e comentário.
Volte sempre.
Ótimo domingo
Beijos

Fred Matos disse...

Obrigado, Wania. Fico contente vendo você aqui.
Ótimo domingo
Beijos

Andrea de Godoy Neto disse...

Que poema mais lindo, Fred!
chamou-me atenção os sapatos de mármore...eu já usei botas de concreto. Cada coisa que nos sai, não é?

esse grito que não se ouve, solto no vácuo que nos habita...lá não há som, lá ninguém nos alcança.

beijos pra ti

Fred Matos disse...

"Cada coisa que nos sai, não é?"

É sim, Andrea... cada coisa.

Grato pela visita e comentário.
Bom domingo.
Beijos

Paula: pesponteando disse...

Deixei um selinho p ti em meu blog...bjs

Fred Matos disse...

Obrigado, Paula.
Ótimo domingo.
Beijos

Tuca Zamagna disse...

Engraçado, Fred, entrar no seu blog justo hoje. Essa madrugada, em conversa com uma moça - baiana! - que eu acabara de conhecer atráves de uns amigos, falei sobre manada. Brinquei com ela a respeito do fato de, sendo ela torcedora do Bahia, tornar-se também flamenguista depois que veio morar no Rio. Disse-lhe que, se algum dia ela for morar em São Paulo, certamente se tornará corintiana. Ela confessou que o Corinthians já era o seu time em São Paulo, e perguntou, espantada, por que eu dissera isso. Então expliquei-lhe minha tese provocativa: muitas pessoas só conseguem funcionar na vida como parte da manada... mesmo que isso implique contrariar, como no caso dela, sua própria essência anti-rubro-negra (me referindo ao Vitória, claro).

Desculpe se você for torcedor do Bahia (e do Flamengo!) pois, como eu dissw, é só uma provocação.

Falando sério: já na leitura das duas primeiras estrofes deste poema fiquei tão bem impressionado com o seu estilo que cheguei a pensar que você fosse português. O "ereto" sem o c é que me deu a certeza de que se tratava mesmo de um bom poeta brasileiro cuja obra eu não conhecia. A impressão inicial deve-se ao "facto" de que, nas minhas viagens pelos blogs daqui e de Portugal, tenho conhecido muito mais gente tratando bem o idioma por lá do que por aqui. Talvez isso seja, infelizmente, verdade; e se dê, suponho, em razão de os patrícios ainda cultivarem o costume, meio obsoleto entre nós, de aprender o português antes de se alfabetizarem na língua "oficial" do mundo atual.

Um abraço

Fred Matos disse...

Sou, sim, torcedor do Bahia, Tuca, mas no Rio prefiro o Fluminense e, o São Paulo em São Paulo. Isso indica que sou integrante da manada tricolor (risos).

Deixou-me contente a sua visita e bem-humorado comentário.

Não sei se tenho especial habilidade com o nosso idioma, que, contudo, não aprendi nos bancos escolares, mas em infindáveis horas de leituras, cuja contra-indicação foi adquirir este estilo anacrônico que talvez se modernize quando eu ampliar a leitura com os autores do século XX.

Volte sempre.
Ótimo domingo.
Grande abraço

Moni. disse...

Viagem no espaço e no tempo... E num olhar que se desvenda...

Excelente, Fred!

Beijos

Renata Diniz disse...

Fred. Obrigada por prestigiar o Memórias Reveladas seguindo-o. Parabéns pelas suas obras. Saudações.

Fred Matos disse...

Obrigado, Moni.
Ótima semana.
Beijos

Fred Matos disse...

É um prazer, Renata.
Grato por vir, comentar e acompanhar o blog.
Ótima semana.
Beijos

Enigma disse...

Às vezes não somos bem compreendidos, parece que o mundo é mesmo surdo. Gostei imenso, parabéns Fred. Milhões de beijinhos. Kiss!! Kiss!!

Solange Maia disse...

sua poesia gritou em meus ouvidos, e seus olhos brilham... brilham como luz...

lindo Fred...
lindo...


beijos

Fred Matos disse...

Lamentavelmente, Enigma , a incompreensão é bem mais comum que a compreensão. Isso se dá porque é natural que as pessoas estejam condicionadas pelos seus pressupostos, pelos seus preconceitos, pelas suas ideologias. Não chego ao ponto de dizer, como disse Fernando Pessoa, na Nota Preliminar das Ficções do Interlúdio, que "a estupidez humana é grande, e a bondade humana não é notável".
Agradeço-lhe por vir e comentar.
Beijos

Fred Matos disse...

Agradeço-lhe a visita e gentil comentário, Solange.
Beijos

Sylvio de Alencar. disse...

caminho ereto e sorridente como um asno
cuja felicidade é a ausência da cangalha


Isso só, já justifica qualquer felicidade!

Abrçs.

Fred Matos disse...

Assim sendo, Sylvio, poderíamos definir a felicidade como sendo "a ausência da cangalha"?
Grato por sua visita e comentário.
Grande abraço

Milena Martins disse...

O meu é apenas um a mais entre os 62, agora 3, comentários.

Apenas pra dizer que o silêncio não se deixa apaziguar.

Victoria gosta muito de te ler.
Grande abraço.

Fred Matos disse...

Não é "apenas" mais um, Milena. Todos os comentários são importantes para mim. Agradeço-lhe por vir e comentar.
Beijos

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