segunda-feira, agosto 10

Adeus, Mariozinho





Fotos de Capa do Livro "Salvador"
de Mário Cravo Neto - 1999


Mais um amigo que parte: faleceu ontem em Salvador, vítima de câncer de pele, o fotógrafo Mario Cravo Neto, 62 anos.

Conheci Mariozinho em 1973. Na época eu era um dos editores da revista ViverBahia, editada pela BAHIATURSA, a empresa que cuida do turismo na Bahia. Em 1974 o nosso convívio estreitou-se: Mário foi contratado para produzir um audiovisual que seria exibido na “Feira da Bahia”, evento realizado no Anhembi, São Paulo. Na mesma época me casei e fui morar na Boca do Rio, mesmo bairro onde Mariozinho morava e tinha o seu ateliê. Éramos, eu e Dila, visita quase diária. Em 75 Mariozinho sofreu um grave acidente que o prendeu na cama por quase um ano. Neste mesmo ano nasceu Amon, meu primogênito, e as vicissitudes da vida tornaram raros os nossos encontros, mas nunca apagou o afeto por este amigo querido que ontem se despediu da vida.

"Coração" - Foto de Mário Cravo Neto


BIOGRAFIA

Mario Cravo Neto, o Mariozinho, nasceu em 1947 em Salvador. Iniciou suas primeiras experiências em escultura e fotografia aos dezoito anos quando o seu pai, o escultor Mario Cravo Júnior, convidado pelo programa "Artists in Residence" patrocinado pela "Ford Foundation" e pelo Senado de Berlim Ocidental, viaja para a Alemanha com toda a família.

Em Berlim, Mariozinho, além de dedicar a maior parte do seu tempo ao trabalho criativo, tem contato com artistas e intelectuais vindos de outras partes do mundo, entre os quais Emilio Vedova e o fotógrafo Max Jakob, tambem residentes em Berlim. Em 1965, retorna ao Brasil e conclui os estudos secundários.

Muda-se para New York, em 1968, para estudar na Art Student League sob a orientação do artista plástico Jack Krueger, um dos precursores da arte conceitual em New York. Este período de dois anos foi de importância fundamental para o delineamento de sua vida futura como homem e artista. São desta época, as séries de fotografias em cores intituladas "On the Subway" e as fotografias em preto e branco relacionadas ao aspecto da solidão humana na grande metrópole. É em seu estúdio no Soho que desenvolve, paralelo à fotografia, as esculturas em acrílico, baseadas no processo do "terrarium" que envolve o crescimento de plantas vivas em ambientes fechados.

Retorna ao Brasil em 1970, vítima de um esgotamento nervoso e pela primeira vez mostra na IX Bienal Internacional de São Paulo a instalação das esculturas vivas realizados em New York.

Em razão de acidente automobilístico ocorrido em 31 de março de 1975, interrompe a sua atividade profissional, forçado a permanecer na cama com ambas as pernas quebradas. Após um ano de convalescença, direciona a sua atenção para a fotografia de estúdio e começa a utilizar nas suas instalações os objetos achados, íntimos do seu cotidiano. São desta fase a continuidade do trabalho que o artista vem mostrando no Brasil e no exterior.

Mario Cravo Neto publicou, entre outros, os livros “Ex-Votos“, 1986; “Salvador“, 1999, com cento e oitenta fotografias coloridas de página inteira e texto de Jorge Amado, Padre Antônio Vieira e Wilson Rocha; “Laróyè“, 2000, com cento e quarenta fotografias em cores de pagina inteira e texto de Edward Leffingwell e Mario Cravo Júnior; “Na Terra sob Meus Pés”, 2003, com 55 imagens digitais, em cores e em preto e branco, e texto de Ligia Canongia; e “O Tigre do Dahomey - A Serpente de Whydah”, 2004, com 59 fotografias, com textos de Mario Cravo Junior, Ildásio Tavares, Otun Oba Aré do Axé Opô Afonjá, e do próprio autor.

Nas fotografias de Mario Cravo Neto testemunha-se uma tentativa de recuperar para o tempo contemporâneo aquilo que seriam as palavras, o pensamento, e as ações humanas primordiais, numa constante junção entre arte e mito. Tal indicação deve-se à ligação forte do artista com todo o universo religioso afro-cristão existente na cidade onde reside, Salvador (Bahia). Suas fotografias possuem, ao mesmo tempo, influências dos mitos religiosos do candomblé e da cristandade, e também do saber ocidental, como as pinturas rupestres, Brancusi, Pierre Verger, Faulkner, Ezra Pound e Carl Jung.

4 comentários:

Mirse disse...

É triste ver partir um amigo, ainda tão moço!

Uma carreira linda, mas mais que isso, ficam os momentos compartilhados e os não vividos.

Sinto muito, Fred

Beijos

Mirse

Fred Matos disse...

E com cada amigo que parte, partimos um pouco também.
Obrigado, Mirse.
Beijos

Adriana Godoy disse...

Não sei o que dizer diante da morte. Mas me solidarizo com vc nesse momento. O cara tinha um trabalho incrível, pelo menos foi o que deu pra sentir em seu texto.. Que ele descanse em outras plagas, se houver. Beijo.

Fred Matos disse...

Eu sei como é, Adriana. Também fico cheio de dedos quando se trata de pêsames. Encaro a morte com muita naturalidade, mas sei que a maior parte das pessoas são bem mais emotivas que eu, daí advém, creio, esta dificuldade. Ainda assim, fiquei triste. Não pelo Mário, que vinha sofrendo muito e descansou, mas pelos seus familiares e, sobretudo, pela grande perda que representa para o mundo artístico, a fotografia em particular.
Quem conhece fotografia, e a obra de Mário, coloca-o entre os grandes fotógrafos contemporâneos do mundo. Evidentemente que morando em Salvador, longe dos grandes centros, não alcançou a projeção que a sua obra merece.
Agradeço-lhe a visita e as palavras.
Beijos

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