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segunda-feira, junho 1

Cura - Patrícia Clemente



Cura
Patrícia Clemente


ilustração: Joan Miró - Dutch Interior I


O coco quando é bem verde,
A água quando está pura,
A vida quando é traçada,
Sobre o passo da aventura,
É gosto que se adquire,
É paladar que se apura,
Como rir da própria sorte
Ou dormir em cama dura

O café quando é amargo,
A lágrima sem mistura
A paixão quando é trilhada
Na navalha da loucura,
É gosto que se adquire,
É paladar que se apura,
É doce que dói nos dentes,
Como o mel e a rapadura.

O beijo quando é salgado,
O amor quando é tortura.
Desejo que queima os nervos,
Excitação que satura,
É gosto que se adquire
É paladar que se apura
É prazer que se cultiva
É a alma que se cura.



Patrícia Clemente foi um heterônimo do grande poeta e amigo, prematuramente falecido, Marco Aurélio Vieira Pais.
Poema publicado no livro "Submissão", obra prima da moderna poesia brasileira.



terça-feira, maio 5

Luto - Patrícia Clemente


Luto
Patrícia Clemente ©


Ilustração:
Camilla Belle e Elisha Cuthbert, em «The Quiet»




Você me ama mas nunca me disse
No tempo em que eu ainda te queria
Se agora eu me aconchego junto a outro
Me chama fria?

E fez que pelo meio eu me sentisse
Pediu-me mãe mas não tornou-me filha
Se agora ao ser completa me comovo
Me insulta, tia?

Mandou que à sua lente me despisse
Mas não desnuda sua alma à minha
Se vejo em meu espelho que sou ouro,
Me ofende.
Mas como eu poderia?

Diz: velha, fraca, feia, bruxa, puta.
Diz que sou falsa, acusa hipocrisia,
Mas não recuse ao morto amor seu luto
Posso ser tudo, mas por ser Sofia.

Porque o desejo seu me atormenta
Mas seu desejo é só me ver sentida
Se vivo ao sobressaltos seus quereres,
É vida?

E sei que o meu carinho só te tenta
Se nego-te favores, decidida.
E não me entrego à dor dos seus prazeres,
Vencida.



Patrícia Clemente foi um heterônimo do grande poeta e amigo, prematuramente falecido, Marco Aurélio Vieira Pais.
Poema publicado no livro "Submissão", obra prima da moderna poesia brasileira.

quarta-feira, abril 29

suruba poética




Faz já uns dez anos, eu freqüentava assiduamente alguns fóruns de poesia pela Internet. Em um deles criamos as “surubas poéticas”: alguém começava e, mesmo sendo uma brincadeira, os demais dávamos seqüência tentando manter a mesma estrutura da estrofe inicial.
Encontrei uma iniciada pela Patrícia Clemente (heterônimo do grande poeta e amigo, prematuramente falecido, Marco Aurélio Vieira Pais) da qual participei juntamente com o Mágico (pseudônimo, se não estou enganado, do Eduardo Weller) e com o AL Boechat.


1. Pat Clemente:

Na intimidade sei que sou maldita:
Me dá prazer ver toda carne aflita,
Correr o sangue pela pele nua.

2. Fred Matos:

No teu pescoço cravo os meus dentes
Enquanto as mãos nos teus seios quentes
Maceram os frutos de carne crua.


3 - Mágico:

E sinto tua ânsia arranhar minhas costas,
o teu ronronar me garante que gostas
de ser intensa, agressiva e felina.


4. Fred Matos:

Lanhada, sangra rubra a carne fina,
Montado em teu dorso, fera menina,
melo teu cabelo com o mel do meu gozo.


5. AL Boechat:

Íntimas na pele nossas vozes
abraçam suspiros incontidos
acesos por dedos quebra-nozes.

6. Fred Matos:

Mas se após o gozo dá de costas
cansada de prazer e cai no sono,
sou eu quem lavo: pratos e panos.

domingo, setembro 21

Sensatez - Patrícia Clemente (Marco Aurélio Pais)




Patrícia Clemente ©



(Para Sofia)

Se eu fosse sóbria e séria, se sensata,
Do amor tomava um trago a cada dia,
Com calma, em paz, em cálida alegria,
Se eu fosse sóbria, sim,
Isso eu faria.

Se eu fosse sóbria e séria, se sensata,
Dos cultos a verdade aceitaria,
Um bom pastor, não Deus pra ser meu guia,
Se eu fosse sábia, sim,
Eu buscaria.

Se eu fosse sóbria e séria, se sensata,
Casada e gorda, comportada e fria,
Um mundo bom, o amor de uma família,
Se eu fosse séria, sim,
Eu já teria.

Mas a paixão não quer a sobriedade
Nem seriedade sabe o coração
E quem busca o calor da divindade
Não se consola com religião.

E não sou sóbria e séria e nem sensata,
Eu meço a hipocrisia dos contentes
E ao justo criador nada mais peço
Que a luz do Sol pra me afiar os dentes.





Patrícia Clemente foi um heterônimo do grande poeta e amigo, prematuramente falecido, Marco Aurélio Vieira Pais. Estes poemas estão publicados no livro "Submissão", obra prima da moderna poesia brasileira.

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