Cura
Patrícia Clemente

ilustração: Joan Miró - Dutch Interior I
O coco quando é bem verde,
A água quando está pura,
A vida quando é traçada,
Sobre o passo da aventura,
É gosto que se adquire,
É paladar que se apura,
Como rir da própria sorte
Ou dormir em cama dura
O café quando é amargo,
A lágrima sem mistura
A paixão quando é trilhada
Na navalha da loucura,
É gosto que se adquire,
É paladar que se apura,
É doce que dói nos dentes,
Como o mel e a rapadura.
O beijo quando é salgado,
O amor quando é tortura.
Desejo que queima os nervos,
Excitação que satura,
É gosto que se adquire
É paladar que se apura
É prazer que se cultiva
É a alma que se cura.
Patrícia Clemente foi um heterônimo do grande poeta e amigo, prematuramente falecido, Marco Aurélio Vieira Pais.
Poema publicado no livro "Submissão", obra prima da moderna poesia brasileira.


