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domingo, outubro 12

lero-lero (oito)


ilustração: foto de Mário Cravo Neto


Estou em Salvador até quinta-feira. Na sexta vou para Buenos-Aires, volto no dia 25. Lendo o jornal daqui, deparo-me com a notícia de que Caetano Veloso teria se posicionado, no seu blog Obra em Progresso ao lado do candidato petista, contra a reeleição do atual prefeito. Eu não sabia que Caetano tem blog e a curiosidade me levou lá pra conferir. Valeu a visita. Quanto ao noticiado pelo jornal, é verdade e eu concordo com muitas das opiniões de Caetano, entre tantas, a sobre o instituto da reeleição e, como ele, prefiro o candidato do PT na eleição de Salvador, mas justificar a sua opção apenas por conta da troca do calçamento do Porto da Barra e pelas barracas das praias é desconhecer que Salvador tem problemas muito mais sérios nas áreas de saúde, transportes, educação, habitação, coleta de lixo, manutenção do patrimônio histórico etc, para as quais o candidato do PT tem melhores propostas e condições de realização.

Já este meu blog ficará ao sabor das circunstâncias até o meu retorno a Maceió no fim deste mês. Tentarei vir, mas sei que nem sempre será possível.

Bom dia, galera.


domingo, outubro 5

lero-lero (sete)


Ulysses Guimarães


Hoje os 5.563 municípios brasileiros estão escolhendo novos prefeitos e vereadores para o quadriênio 2009 - 2012.

O dia 5 de outubro é, também, o dia do aniversário da promulgação da Constituição de 1988. Completa-se, hoje, portanto, o 20o aniversário da nossa Carta Magna 

De lá para cá, a Constituição sofreu 62 emendas. Algumas necessárias, outras, lamentavelmente, para fazer valer os interesses de fortes grupos econômicos.

Emblemática foi a retirada da Carta, através de ação direta de inconstitucionalidade  (ADI), do dispositivo que limitava em 12% ao ano os juros reais nos empréstimos bancários.
 
Paulo Brossard, voto vencido na sessão plenária em que o STF julgou a ADI, observou,  durante a sessão de julgamento do caso, em 1991, que os deputados constituintes desejavam, com aquele dispositivo, combater o "paraíso da usura" no Brasil. "A usura encontrou o seu paraíso no Brasil, e foi exatamente isto que os constituintes quiseram enfrentar quando aprovaram a limitação dos juros reais em 12% ao ano". 

Por outro lado, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que diariamente tem na Carta seu maior instrumento de trabalho, avaliam que a Constituição Federal em boa parte não saiu do papel, especialmente no que diz respeito aos direitos sociais, como saúde, educação, segurança e, mais especificamente, direito de greve para servidores públicos e participação dos trabalhadores no conselho gestor das empresas. Eles apontam que cerca de 40% de todos os dispositivos que precisariam de regulamentação para serem colocados em prática não o foram e dificilmente serão.

 Em comemoração à data, sem mais lero-lero, reproduzo a seguir trechos do brilhante e vibrante discurso proferido pelo saudoso Deputado Ulysses Guimarães, presidente da Assembléia Nacional Constituinte, na sessão de promulgação: 

Hoje, cinco de outubro de 1988, no que tange à Constituição, a Nação mudou.

A Constituição mudou na sua elaboração, mudou na definição dos poderes, mudou restaurando a Federação, mudou quando quer mudar o homem em cidadão, e só é cidadão quem ganha justo e suficiente salário, lê e escreve, mora, tem hospital e remédio, lazer quando descansa.

Num país de 30.401.000 analfabetos, afrontosos 25% da população, cabe advertir: a cidadania começa com o alfabeto.

Chegamos! Esperamos a Constituição como o vigia espera a aurora.

Bem-aventurados os que chegam. Não nos desencaminhamos na longa marcha, não nos desmoralizamos capitulando ante pressões aliciadoras e comprometedoras, não desertamos, não caímos no caminho. 

A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a reforma.

Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da Pátria. Conhecemos o caminho maldito: rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio, o cemitério. 

A persistência da Constituição é a sobrevivência da democracia.

Quando, após tantos anos de lutas e sacrifícios, promulgamos o estatuto do homem, da liberdade e da democracia, bradamos por imposição de sua honra: temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e nações, principalmente na América Latina.

A Assembléia Nacional Constituinte rompeu contra o establishment, investiu contra a inércia, desafiou tabus. Não ouviu o refrão saudosista do velho do Restelo, no genial canto de Camões. Suportou a ira e perigosa campanha mercenária dos que se atreveram na tentativa de aviltar legisladores em guardas de suas burras abarrotadas com o ouro de seus privilégios e especulações.

Foi de audácia inovadora a arquitetura da Constituinte, recusando anteprojeto forâneo ou de elaboração interna.

O inimigo mortal do homem é a miséria. O estado de direito, consectário da igualdade, não pode conviver com estado de miséria. Mais miserável do que os miseráveis é a sociedade que não acaba com a miséria.

No Brasil, desde o Império, o Estado ultraja a geografia. Espantoso despautério: o Estado contra o País, quando o País é a geografia, a base física da Nação, portanto, do Estado. É elementar: não existe Estado sem país, nem país sem geografia. Esta antinomia é fator de nosso atraso e de muitos de nossos problemas, pois somos um arquipélago social, econômico, ambiental e de costumes, não uma ilha.

A civilização e a grandeza do Brasil percorreram rotas centrífugas e não centrípetas. Os bandeirantes não ficaram arranhando o litoral como caranguejos, na imagem pitoresca mas exata de Frei Vicente do Salvador. Cavalgaram os rios e marcharam para o oeste e para a História, na conquista de um continente.

A Federação é a unidade na desigualdade, é a coesão pela autonomia das províncias. Comprimidas pelo centralismo, há o perigo de serem empurradas para a secessão. É a irmandade entre as regiões. Para que não se rompa o elo, as mais prósperas devem colaborar com as menos desenvolvidas. Enquanto houver Norte e Nordeste fracos, não haverá na União Estado forte, pois fraco é o Brasil.

As necessidades básicas do homem estão nos Estados e nos Municípios. Neles deve estar o dinheiro para atendê-las.

Democracia é a vontade da lei, que é plural e igual para todos, e não a do príncipe, que é unipessoal e desigual para os favorecimentos e os privilégios. Se a democracia é o governo da lei, não só ao elaborá-la, mas também para cumpri-la, são governo o Executivo e o Legislativo.

Não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem roube, eis o primeiro mandamento da moral pública.

Não é a Constituição perfeita, mas será útil, pioneira, desbravadora. Será luz, ainda que de lamparina, na noite dos desgraçados. É caminhando que se abrem os caminhos. Ela vai caminhar e abri-los. Será redentor o caminho que penetrar nos bolsões sujos, escuros e ignorados da miséria.

O imperativo de “Muda Brasil”, desafio de nossa geração, não se processará sem o conseqüente “Muda Justiça”, que se instrumentalizou na Carta Magna. 

Político, sou caçador de nuvens. Já fui caçado por tempestades. Uma delas, benfazeja, me colocou no topo desta montanha de sonho e de glória. Tive mais do que pedi, cheguei mais longe do que mereço. Que o bem que os Constituintes me fizeram frutifique em paz, êxito e alegria para cada um deles.

Adeus, meus irmãos. É despedida definitiva, sem o desejo de retorno.

Nosso desejo é o da Nação: que este Plenário não abrigue outra Assembléia Nacional Constituinte. Porque, antes da Constituinte, a ditadura já teria trancado as portas desta Casa.

A sociedade sempre acaba vencendo, mesmo ante a inércia ou antagonismo do Estado.

O Estado autoritário prendeu e exilou. A sociedade, com Teotônio Vilela, pela anistia, libertou e repatriou. 

A sociedade foi Rubens Paiva, não os facínoras que o mataram. 

Foi a sociedade, mobilizada nos colossais comícios das Diretas-já, que, pela transição e pela mudança, derrotou o Estado usurpador.

Termino com as palavras com que comecei esta fala: a Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar.

A Constituição pretende ser a voz, a letra, a vontade política da sociedade rumo à mudança.

Que a promulgação seja nosso grito:

– Mudar para vencer!

Muda, Brasil!



Bom dia, Galera.

sexta-feira, outubro 3

lero-lero (seis)





Como o meu título eleitoral é de Salvador, e antes de vir para Maceió morava em Belo Horizonte, não votei nas duas últimas eleições e não votarei na que se realizará no próximo domingo.

Eu gosto de política e o período eleitoral me deixa excitado, nestas eleições, contudo, estou me sentindo diferente. Talvez seja porque faz apenas nove meses que estou em Maceió e não me empolguei com a política daqui, violenta, violentíssima, apesar de me parecer que completamente destituída de paixão ideológica, movida, portanto, apenas à consecução de projetos e ambições pessoais.

Evidentemente que isto deve colaborar para o meu desânimo, pois é muito mais civilizado o reacionário por convicção que o revolucionário por oportunismo.

Hoje eu não vejo na disputa política o debate de idéias, sinto que os candidatos se apresentam como produtos adaptados à ocupação de um nicho de mercado, meros produtos de marketing.
A coisa vai tão chocha que os “cientistas políticos”, que eu prefiro chamar de palpiteiros profissionais, tentam passar a idéia de que estas eleições serão fundamentais para as de 2010, quando será escolhido um novo presidente para substituir Lula.

Até o jornal britânico Financial Times entrou na onda e publicou que um cientista político de Brasília, um tal de David Fleischer, declarou que "o partido que eleger mais vereadores e prefeitos terá a base que precisa para eleger mais deputados e senadores em 2010".

Isso é bobagem grossa. Qualquer pessoa que conheça um mínimo de política brasileira sabe que os arranjos políticos de uma eleição obedecem a uma outra lógica, na qual os partidos políticos têm pouca influência. Se não fosse assim, ao PMDB, que costuma eleger o maior contingente de prefeitos, vereadores e deputados, estaria assegurado eleger o substituto de Lula.

Talvez a tv a cabo seja, também, responsável pelo meu desânimo: estou muito melhor informado acerca das eleições presidenciais norte-americanas que das nossas eleições municipais. Das nossas eleições, o que sei pelos telejornais da tv a cabo são apenas os resultados das pesquisas dos diversos institutos. Das eleições norte-americanas transmitiram até o debate – chatíssimo por sinal – entre o senador democrata Joe Biden e a governadora republicana Sarah Palin, candidatos à vice-presidente dos senadores Barack Obama e John McCain, respectivamente. Talvez seja o caso de mudar o meu domicilio eleitoral para os States, já que estou mais bem informado das coisas de lá que das de cá.

Bom dia, galera.



Ilustração: não sei quem é o autor, encontrei no site http://www.bestlinux.com.br/

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