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segunda-feira, fevereiro 9

quem conta um conto


Continuando as traduções de Julio Cortázar



Bruxa é o segundo conto de “Historias de Gabriel Medrano”, que, dedicada a Jorge D’Urbano Viau, é a segunda parte, de três, do livro “La otra orilla”. 
As outras partes são "Plagios y traducciones" e "Prolegómenos a la Astronomía".


As traduções dos contos de Cortázar publicados no blog estão nos seguintes links: 

De "Plagios y traduciones":


De "Historias de Gabriel Medrano":




Bruxa

Julio Cortázar

Tradução: Fred Matos
a partir do texto publicado nas páginas 66 a 72 de “Cuentos Completos/1” Decimoquinta reimprésión: junio de 2007, Editora Alfaguara – Buenos Aires – AR



ilustração: Scarlett Johansson
Foto de Annie Leibovitz


Deixou cair as agulhas sobre seu colo. A cadeira de balanço se moveu imperceptivelmente. Paula teve uma das suas estranhas sensações que a acometem de tempos em tempos; a necessidade imperiosa de apreender tudo o que seus sentidos possam alcançar nesse instante. Trata de ordenar imediatamente suas intuições, identificá-las e torná-las conhecimento: movimento da cadeira de balanço, dor no pé esquerdo, coceira na raiz do cabelo, gosto de canela, canto do canário flauta, luz violeta na janela, sombras de ambos os lados da peça, cheiro de velho, a lã, um maço de cartas. Só está concluída a análise quando a invade uma violenta infelicidade, uma opressão física como um bolo histérico que sobe para os maxilares e impulsiona-a a correr, a sair, a mudar de vida; coisas que uma profunda inspiração, fechando dois segundos os olhos e chamando-se a si mesma de estúpida bastam para anular facilmente.
A juventude de Paula era triste e silenciosa, como ocorre a todos os jovens que preferem a leitura aos passeios pela praça, desdenhando pretendentes regularmente e se submetendo ao espaço de uma casa como suficiente dimensão de vida. Por isso, ao afastar agora os olhos claros do tecido - um pulôver cinza simplíssimo -, se acentua em seu rosto a sombria conformidade de quem alcança a paz através da moderação do raciocínio e não com a alegre desordem de uma existência total. É uma menina triste, boa, solitária. Tem vinte e cinco anos, terrores noturnos, alguma melancolia. Toca Schumann no piano e às vezes Mendelssohn; não canta nunca, porém sua mãe, já morta, uma vez recordou havê-la ouvido assobiar fracamente quando tinha quinze anos, à tarde.
- Seja como for - pronunciou Paula -, eu gostaria de ter aqui alguns bombons.
Ela sorri ante a fácil e vantajosa substituição de desejos; sua horrível ansiedade de fuga foi resumida em um modesto capricho. Mas deixa de sorrir como se lhe arrancassem a risada da boca: a recordação da mosca se associa ao seu desejo, trazendo um inquieto tremor a suas mãos vazias. 

    
Paula tem dez anos. A lâmpada da sala de jantar semeias piscadelas vermelhas na sua nuca e no cabelo curto. Acima dela - que os sente altíssimos, distantes, impossíveis - seus pais e o velho tio discutem questões incompreensíveis. A empregada negrinha colocou na frente de Paula o inapelável prato de sopa. É preciso comer, antes que a testa da mãe enrugue com surpreendido desgosto, antes que o pai, à sua esquerda, diga: "Paula", colocando nesta simples nominação uma velada sorte de ameaças.  
Comer a sopa. Não tomá-la: comê-la. É espessa, de sêmola morna; ela odeia a massa esbranquiçada e úmida. Pensa que se a casualidade trouxesse uma mosca e precipitasse-a no grande pântano amarelo do prato, lhe permitiriam suprimi-lo, lhe salvaria do abominável ritual. Uma mosca que caísse no seu prato. Nada mais que uma pequena mísera mosca opalina. 
Intensamente tem os olhos postos na sopa. Pensa em uma mosca, deseja-a, espera-a. 
E então a mosca surge no centro exato da sêmola. Viscosa e lamentável, arrastando-se uns milímetros antes de sucumbir queimada.
Levam o prato e Paula está salva. Mas ela jamais confessará a verdade; jamais dirá que não viu a mosca cair na refeição. A havia visto aparecer, que é diferente.


Porém abalada pela lembrança, Paula se pergunta a razão de não haver insistido, alcançando a segurança do que suspeitamos. Tem medo: essa é a resposta. Toda a sua vida teve medo. Ninguém acredita em bruxas, mas se descobrem uma matam-na. Paula tem guardado no vasto cofre dos seus muitos silêncios uma íntima segurança; algo lhe diz que ela pode. Deixou-se ir na infância entre balbucios e esperanças; está vendo passar sua juventude como uma tristíssima diadema suspensa no ar por mãos vacilantes, desfolhando-se lentamente. Sua vida é assim; tem medo, queria comer bombons. Os pulôveres e as mantas se amontoam nos armários; também as toalhas finamente concebidas com motivos de Puvis de Chavannes (1). Relutante em adaptar-se às pessoas; Raul, Atilio González, o pálido Renê, são testemunhas do passado; quiseram-na, procuraram-na, ela lhes sorriu ao rechaçar-los. Temia-os como a si mesma.
- Seja como for, eu gostaria de ter aqui alguns bombons.
Está sozinha em casa. O velho tio joga bilhar em o Tokio. Paula começa a sentir a tentação, pela primeira vez intensa até dar-lhe náuseas. Por que não, porque não. Afirma perguntando, pergunta ao afirmar. É fatal, deve ser feito. E como aquela vez, concentra seu desejo nos olhos, projeta o olhar sobre a mesa baixa posta ao lado da cadeira de balanço, ela se lança toda atrás do seu olhar até sentir a si mesma como um vazio, um grande molde oco anteriormente ocupado, uma evasão total que a desengaja de seu ser, projeta-a em vontade...
E vê surgir pouco a pouco a materialização do seu desejo. Finas lâminas rosadas, reflexos tênues de papel de prata com listas azuis e vermelhas; brilho de moedas, de nuances polidas; escura concentração de chocolate perfumado. Todo ele transparente, diáfano; o sol que alcança a borda da mesa percute a crescente massa, cheia de translúcidas penetrações; mas Paula corrige infundindo mais vontade em sua obra e irrompe finalmente a opacidade triunfante da matéria criada. O sol é rejeitado em todas as superfícies polidas, as palavras dos invólucros se afirmam categóricas: e revela-se uma pirâmide de bombons finos: Praline, Moka, Nogates, Rhum, Kümmel, Maroc...


A igreja é grande, colada na terra. As mulheres retardam com fofocas a volta da missa, com o apóio da sombra espessa das árvores frondosas ao desejo de ficar. Viram Paula surgir lindamente vestida de azul, e a contemplaram insidiosas em seu furtivo caminhar solitário. O mistério dessa nova vida as altera, as aliena; apenas pode tolerar-se que o mistério resista a tão detalhadas indagações. O velho tio está morto; Paula vive sozinha na casa. Nunca houve fortuna na família, mas esse vestido azul...
E o anel, porque elas viram o anel cintilante que as vezes, nos intervalos do cinema local, brilha insolentemente quando Paula, mecanicamente, leva de volta uma mecha do seu cabelo castanho.


Paula reza diariamente na igreja do povoado. Reza por si, por seu horrível crime. Reza por haver matado um ser humano.
Era um ser humano? Sim ele era, sim ele era. Como ela pôde deixar-se atrair pela tentação, invadir os territórios do anormal, desejar uma estatueta animada que lhe recordava suas bonecas da infância. O anel, o vestido azul, tudo estava bem; não havia pecado em desejá-los. Mas conceber a boneca viva, sem pensar em renúncia... Aquela madrugada, a figura se sentou na ponta da mesa sorrindo timidamente. Tinha cabelo negro, saia vermelha, corselete branco; era sua boneca Nené, mas estava viva. Parecia uma menina, contudo Paula pressentiu que uma terrível maturidade habitava aquele corpo de vinte centímetros de altura. Uma mulher, uma mulher que seu extravio acabara de criar.
 E então matou-a. Foi preciso apagar a obra que fatalmente seria descoberta e atrairia para ela o nome e o castigo das bruxas. Paula conhecia seu povo; não tinha como fugir. Quase ninguém foge das pessoas, e por isso as pessoas triunfam. De noite, quando a figurinha silenciosa e sorridente dormiu sobre o travesseiro, Paula levou-a à cozinha, colocou-a no forno e abriu a torneira do gás.
Estava enterrada no pátio do limoeiro. Por ela e por si mesma, a assassina rezava diariamente na igreja.


É de tarde, chove. É triste viver sozinha em uma casa. Paula lê pouco, apenas toca piano. Quer algo, não sabe o quê. Queria não ter medo, fugir. Pensa em Buenos Aires; possivelmente em Buenos Aires, onde não a conhecem. Talvez em Buenos Aires. Mas sua razão lhe diz que enquanto se leve a si mesma consigo o medo afogará sua felicidade em qualquer lugar. Fica, então, e possivelmente abençoada. Cria-se um início de confusão, envolve-se na execução de mil pequenos desejos, caprichos minuciosamente destruídos em sua infância e na sua juventude. Agora que ela pode, que pode tudo. Dona do mundo, se apenas se animar a...
Porem o medo e a timidez cingem-lhe a garganta. Bruxa. Bruxa.
Para as bruxas, o inferno.


As mulheres não têm toda a culpa. Se crêem que Paula vende secretamente seu corpo é porque a origem de tão insólito bem-estar lhes é incompreensível. É a questão da sua casa de campo. As roupas e o carro, a piscina, os cães de raça e o casaco de martas. Mas o amante não mora no povoado, seguramente; e Paula quase nunca sai de sua residência. Haverá homens tão pouco exigentes?
Ela colhe os olhares, recolhe comentários pela boca de poucos amigos da família que aparecem às vezes, com a língua livre de perguntas, para beber uma xícara de chá. Sorri tristemente e diz que não se importa, que é feliz. Seus amigos, ex-cortejadores convencidos do impossível, comprovam tanta felicidade no olhar de Paula. Agora há um brilho de fósforo nos seus olhos claros. Quando despeja o chá nas xícaras finas seu gesto tem algo de triunfante, contido por um caráter tímido que envergonha a si mesmo de ostentar as realizações. 
A sós, Paula recorda seu trabalho de demiurgo; a lenta, meticulosa realização dos seus desejos. O primeiro problema foi a casa; ter uma casa nos arredores do povoado, com o conforto que seu ócio reclamava. Procurou o lugar, o ambiente; junto à estrada real, mas não excessivamente próximo. Terras altas, águas sem sal. Criou dinheiro para adquirir a terra e esteve por confiar a um arquiteto a construção da residência. Contudo detinha-a o medo de lidar com questões financeiras, acrescentando suspeitas latentes em todas as saudações, mais precisamente nos muitos silêncios desdenhosos. Uma tarde, a sós em seu terreno, pensou criar a casa mas teve medo. Vigiavam-na; seguiam-na; nos povoados uma casa não surge do nada. Não deve brotar do nada. Havia que socorrer-se de um arquiteto, então; Paula duvidava, amedrontando-se ante cada problema. Ir-se do povoado havia concluído contudo; isso e ser valente: são impossíveis.
Então fez algo grande: criar, não a casa, sim a construção da casa. Aplicando-se noite e dia, conseguiu que a residência fosse edificada sem despertar em ninguém o temido espanto. Criou passo a passo a construção de sua fazenda, e embora houvesse dias em que se perguntou que fariam os trabalhadores ao concluí-la, teve no fim a satisfação de ver que aqueles homens iam embora em silêncio, contando seu dinheiro. Então entrou em sua casa, que era verdadeiramente linda, e se dedicou a mobiliá-la pouco a pouco.
Era divertido: tomava uma revista, em busca de um ambiente que a comprazia, escolhia o lugar exato e criava coisa por coisa dessas imagens prediletas. Tinha gobelinos (2); tinha um tapete persa; tinha um quadro de Guido Reni (3); tinha peixes chineses; cães da Pomerânia, uma cegonha. Os poucos amigos que iam à casa eram recebidos em dependências difusas, de discreto gosto burguês; Paula os esperava cordialmente, levava-os a passear pela casa e jardins, mostrado os crisântemos e violetas; e como ela era a própria discrição, os visitantes bebiam seu chá e deixavam a residência sem descobrir nada de novo.
Integrou uma biblioteca com volumes rosa, tinha quase todos os discos de Pedro Vargas (4) e alguns de Elvira Ríos (5); chegou um momento em que já pouco desejava e seu capricho só encontrou exercício em alguma guloseima, um perfume novo, em seguida, um peixe. Mas depois Paula quis ter um homem que a amasse, e embora vacilasse longo tempo entre receber em seu leito qualquer um dos seus fiéis pretendentes ou em criar um ser que cumprisse em tudo suas românticas visões do passado, percebeu que não havia alternativa e que era forçoso decidir-se pela última. Um amante do povoado faria perguntas, inquiriria até descobrir, mais além do sorriso, o poder da bruxa. E então haveria o terror, a perseguição, a loucura.
Criou seu homem. Seu homem a amava. Era bonito, fino, se chamava Esteban, nunca queria sair da casa: assim tinha de ser. Já totalmente isolada de seus semelhantes, Paula recusou o chá aos amigos e eles pressentiram a presença de um homem na casa. Com tristeza no coração, voltaram para o povoado. 


Ela relembra agora seu trabalho de criação. É quase noite; Paula não está triste, contudo há uma mão fria que se apóia em seu peito, cobrindo o espaço entre os seios com uma forte opressão. “Estou cansada”, se diz. “Eu tenho que pensar tanto, que desejar tanto...”. Compreende, sem palavras, a enorme fadiga de Deus. Ela também necessita do seu sétimo dia para ser completamente feliz.
Esteban se reclina ao seu lado, olhando-a com profundos olhos negros; lhe sorri, quase como uma criança.
- Paula - murmura.
Ela lhe acaricia o cabelo mas sem falar. É difícil não sentir-se maternal com esse rapaz demasiadamente sensível, vazio de todo laço humano, integralmente dedicado à tarefa de adorá-la. Esteban não faz perguntas, parece estar sempre esperando sua voz. É melhor assim. 
E de repente, como uma distante chamada de chifres, Paula tem uma débil mas distinta sensação de estar doente, de que morrerá, de que o sétimo dia vem sem possível atraso.


Quando os dois médicos retornaram ao povoado, era bem pouco o que tinham a dizer. A mesma coisa no dia seguinte. Na tarde do terceiro dia, o carro dos médicos rodeou a praça e parou diante da porta principal do cemitério. 
É então que os amigos de Paula devem lutar contra o desatado rancor de todo um povo cristão. As esposas, as irmãs, os professores da moralidade local; há aqueles que desejam que Paula se corrompa na solidão da sua casa, livre e abandonada como sua vida. O que se escolhe neste mundo há de manter-se no outro. E são poucos, apenas cinco homens silenciosos, os que vêm à noite para a sua residência para velar o corpo da amiga.
Os empregados do cemitério e duas mulheres de fazendas vizinhas puseram a morta no caixão e montaram a capela ardente. Os amigos encontraram, quase sem surpresa, Esteban. Vêem-no pela primeira vez, apertam a sua mão. Esteban parece não compreender; está sentado em uma cadeira de respaldo alto, à direita do cadáver. A intervalos se levanta, vai até Paula e a beija na boca; um beijo fresco, forte, que os amigos contemplam com espanto. O beijo de um jovem guerreiro em sua deusa antes da batalha. Depois Esteban volta ao seu lugar e se imobiliza, olhando para a parede por cima do caixão.
Paula morreu ao entardecer e já é meia-noite. Os amigos estão sozinhos, com ela e Esteban. Fora faz frio e alguns pensam no povoado, em garrafas de água quente e de leite, nos boletins de rádio.
Em semicírculo olham Paula que jaz sem esforço, como por fim libertada de um fardo superior aos seus pequenos ombros que conservaram sempre alguma coisa da forma de uma criança. As larguíssimas pestanas vertem uma pequena sombra cinza sobre as bochechas. Os médicos disseram que a sua morte havia sido lenta mas sem luta, como o amadurecimento de um fruto. E pelos cinco amigos passa, alternadamente o mesmo terno e gasto pensamento: “Parece adormecida”.
Por que entra tanto frio na casa? É repentino, em jatos crescentes. Talvez um frio que vem de dentro, pensam os amigos; às vezes sente-se nos velórios. Um pouco de conhaque... E quando um deles olha para Esteban, rígido na sua cadeira, sente como um horror que repentinamente lhe cresce e lhe invade os cabelos, as mãos, a língua; através do tórax de Esteban está vendo os desenhos do respaldo do sofá. Os outros seguem seu olhar e ficam lívidos. O frio aumenta, cresce como uma maré. Mas além da porta fechada se ergue repentinamente a massa espessa do monte de eucaliptos banhado pela lua; e eles compreendem que o estão vendo através da porta fechada. Agora são as paredes que cedem à paisagem do campo, da fazenda vizinha, tudo sob uma crua luz de lua-cheia, e Esteban é agora um aglomerado de gelatina, belo e triste na sua poltrona que cede como ele ante o avanço do nada. Do teto entra um jorro de luz prateada removendo a nitidez dos resplendores da capela ardente. Pela sola dos sapatos sentem agora os cinco amigos filtrar-se uma umidade de terra fresca, com gramíneas e leguminosas, e quando se olham, incapazes de pronunciar a primeira palavra da revelação, estão a sós com Paula, com Paula e a capela ardente que se ergue nua no meio do campo, sob a lua inevitável.

1943



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Notas do Tradutor:

(1)  Puvis de Chavannes - Pintor francês nascido em 14/12/1824 e falecido em 24/10/1898.

(2) Os gobelinos, ou gobelins, são tapeçarias em tecidos ricamente ilustrados com composições da Manufacture Nationale des Gobelins, na França, desde o século XVIII e ainda hoje em funcionamento. Têm este nome em homenagem a Jean e Philibert Gobelin, tintureiros do século XV, cujas oficinas ficavam nas cercanias de Paris.

(3) Guido Reni foi um pintor italiano de cenas religiosas, populares e mitológicas, bastante apreciadas pela crítica. Nasceu em Bolonha e começou a estudar pintura aos nove anos. Ao redor de 1595, tornou-se discípulo dos Carracci, família de pintores de Bolonha. 
Entre 1600 e 1614, trabalhou principalmente em Roma, onde pintou o Martírio de São Pedro (1601-1603). Entre 1608 e 1609, realizou os afrescos da Igreja de São Gregório Magno, em Roma, e em 1613 levou a cabo sua obra mais conhecida, o afresco Febo e Horas, precedidos pela Aurora, no teto do pavilhão de descanso, no jardim do palácio Rospigliosi, em Roma.
Reni sofreu grande influência da arte clássica e o estilo realista de sua primeira época contrasta com a exuberância barroca de seus contemporâneos.
No museu do Prado, em Madri, conservam-se várias obras suas, como Cupido e a Virgem da cadeira.
Em seus últimos anos, voltou a Bolonha, onde criou sua própria academia, abandonando o realismo por um estilo mais suave e sentimental.

(4) Pedro Vargas Mata, cantor e ator mexicano, alcunhado "El Tenor de las Américas", "El Samurái de la canción", "El Rey", Nasceu em San Miguel de Allende a 29 de abril de 1906 e faleceu na Cidade do México em 30 de outubro de 1989.

(5) Elvira Ríos, cantora mexicana, cuja biografia não consegui encontrar.



sábado, janeiro 31

quem conta um conto

Continuando as traduções de Julio Cortázar


Retorno da noite é o primeiro conto de “Historias de Gabriel Medrano”, que é a segunda parte, de três, do livro “La otra orilla”, dedicada a Jorge D’Urbano Viau.
As outras partes são "Plagios y traducciones" e "Prolegómenos a la Astronomía".


Os cinco contos que integram a primeira parte “Plagios y traduciones” - dedicada “A Paco, que gustaba de estos relatos“ - estão publicados no blog, nos seguintes endereços:

1.
O filho do Vampiro
2.
As mãos que crescem
3.
Telefonema, Delia
4.
A profunda siesta de Remi
5.
Puzzle


não sei quem é o autor da ilustração


Retorno da noite

Julio Cortázar


Tradução: Fred Matos
a partir do texto publicado nas páginas 59 a 65 de “Cuentos Completos/1” Decimoquinta reimprésión: junio de 2007,
Editora Alfaguara – Buenos Aires – AR


Dorme-se, isso é tudo. Ninguém dirá jamais o instante em que as portas se abrem aos sonhos. Naquela noite eu dormi como de costume, e como sempre tive um sonho. Só que...*

* Entendo que este relato reclama um prelúdio adequado, com o tom que os romancistas ingleses dão aos seus romances de mistério. Um acorde sombrio que se aloje na medula; uma luz roxa. Ele também teria sido necessário para explicar com detalhes o mal do meu coração e como, qualquer noite destas, eu cairei repentinamente com a última expressão aferrada à máscara facial. Mas eu perdi a fé nas palavras e nos exórdios, e apenas me aproximo da linguagem para dizer estas coisas.


Aquela noite sonhei que me sentia muito mal. Eu estava morrendo lentamente, cada fibra. Uma terrível dor no peito; e quando respirava, a cama se convertia em espadas e vidros. Estava coberto de suor frio, sentia aquele espantoso tremor nas pernas que uma vez, anos atrás... Quis gritar, para que me ouvissem. Tinha sede, medo, febre; uma febre de serpente, viscosa e gelada. À distância se ouvia o canto de um galo e alguém, escandalosamente, assobiava no caminho.
Devo ter sonhado muito tempo, mas sei que os meus pensamentos se tornaram subitamente claros e que me incorporei à obscuridade, tremendo ainda sob o pesadelo. É inexplicável como a vigília e o sono seguem entrelaçados nos primeiros instantes do despertar, negando-se a separar suas águas. Me sentia muito mal; não estava seguro de que aquilo tinha acontecido comigo, mas tampouco me era possível suspirar, aliviado, e voltar a um sonho já livre de sobressaltos. Procurei o castiçal e creio que o acendi porque as cortinas e o armário grande se anunciaram bruscamente ao meus olhos. Tinha a impressão de estar muito pálido. Quase sem saber como, me achei de pé, indo para o espelho do armário com o desejo de olhar para o meu rosto, de sair imediatamente do horror do pesadelo.
Quando estava ante o armário passaram alguns segundos até compreender que meu corpo não se refletia no espelho. Bem desperto, havia sentido eriçar-me o cabelo, mas depois de todas as minhas atitudes automáticas me parecia simples a explicação de que a porta do armário estava fechada e que, portanto, o ângulo do espelho não era suficiente para me incluir. Com a mão direita abri rapidamente a porta.
E então me vi, mas não a mim mesmo. Ou seja, não me vi ante o espelho. Ante o espelho não havia nada. Iluminado cruamente pelo candelabro estava a cama e meu corpo jazia ali, com um braço nu pendurado até o chão e o rosto branco, sem sangue.
Creio que gritei. Mas minhas próprias mãos afogaram o barulho. Não me atrevi a voltar, a despertar de uma vez. Nem sequer se afirmava em minha fraqueza a absurda irrealidade daquilo. De pé na frente do espelho que não me devolvia a minha imagem, fiquei olhando o que havia nas minhas costas. Compreendendo, pouco a pouco, que eu estava na cama e que acabara de morrer.
O pesadelo... Não, não era isso. A realidade da morte. Mas como...
- Como...?
Não cheguei a formular a pergunta. Uma assombrosa sensação de coisa inevitável, consumada, entrou em minha consciência. Pensei ver claramente, me parecia que tudo estava explicado. Mas eu não sabia o que era que via claramente e como isso poderia explicar aquilo. Lentamente me afastei do espelho e olhei para a cama.
Era tão natural. Vi que estava deitado de lado, que tinha um início de rigidez no rosto e nos músculos do braço. Meu cabelo esparramado e brilhante estava úmido de uma agonia que eu havia acreditado sonhar, de desesperada agonia antes da anulação total.
Me aproximei do meu cadáver. Toquei uma mão e sua frieza me repulsou. Na boca havia um fio de espuma e gotas de sangue brilhavam no travesseiro informe, torto, quase debaixo das costas. O nariz, subitamente afilado, mostrava veias que eu desconhecia até então. Compreendi tudo o que ele havia sofrido antes de morrer. Meus lábios estavam apertados, malvadamente duros, e entre as minhas pálpebras entreabertas me olhavam meus olhos azuis esverdeados, censurando-me.
Passei da calma ao estupor, brutalmente. Um segundo depois estava refugiado no ângulo oposto ao que a cama ocupava, convulso e tiritante. Minha severa tranqüilidade, ali na cama, era quase um exemplo, mas não sentia sobre mim a sensação das chicotadas da loucura e me agarrava ao medo como uma reparação. Que isso era possível, que eu estivesse ali, a três metros do meu corpo retraído em sua morte, que a noite e o pesadelo e o espelho e o medo e o relógio marcando as três e dezenove, e o silêncio...
Chega-se ao ápice e se tem que cair. Meus nervos - meus nervos? - se tornaram frouxos; lentamente, voltei à calma de uma doce dor, a um pranto que era como uma mão de amigo surgindo da sombra. Apertei aquela mão e me deixei ir, interminavelmente.
"Então, estou morto. Nada de investigações sobre o absurdo. Aqui estou: sou prova suficiente. Cada vez mais rígido e mais distante. A mola tensa está quebrada e eis que minto nessa cama, ao redor dos olhos ante à luz da noite distante da sua presa. Morto. Nada mais simples. Morto. Que tem de irreal, de pesadelo, de...? Morto. Estou morto. Levanto o braço do meu cadáver e o visto. Assim estará melhor. Nada de perguntas. Tudo é rigorosamente essencial e primitivo: diagrama de morte. Sim, mas... Não, nada de problemas; eu sei, eu sei que além de mim mesmo, morto na cama, estou aqui, neste outro lado. Mas basta, basta disso; agora há outra coisa em que pensar. Nada de perguntas. Uma cama comigo, morto. O resto é simples; tenho que sair daqui e avisar à avó o acontecido. Fazendo-o docemente, contando-lhe as coisas sem excessos, para que jamais saiba de minha angústia e de tudo que sofri sozinho, sozinho na noite... Mas como despertá-la, como dizer-lhe...? Nada de perguntas; o amor assinalará os meios. Tenho que evitar o horror de sua entrada matinal no desjejum e o encontro com o rígido espantalho crispado... Rígido espantalho crispado... Rígido... Rígido espantalho crispado...”
Me senti contente, com um contentamento triste. Era bom que me tivesse ocorrido aquilo. Vovó merecia; tinha de prepará-la para o pior. Docemente, com mimos de homem que volta a ser criança junto da grande cama da venerável.
"Tenho que melhorar o aspecto dessa cara", pensei antes de sair. Às vezes vovó se levantava à noite, fazia longas inspeções nos aposentos. Devia evitar-lhe qualquer surpresa macabra; se ela entrasse de repente e me surpreendesse compondo meu cadáver.
Fechei-me com chave e me pus a trabalhar, em paz comigo mesmo. As perguntas, as horrendas perguntas se agrupavam na garganta mas as rechacei brutalmente, estrangulando-as com estertores, afogando-as em negação. E cumpria entretanto minha tarefa. Ordenei o lençol, alisei o acolchoado; meus dedos me pentearam grosseiramente até recompor o cabelo e alisá-lo para trás. E depois, ah, depois tive valor!, modelei os lábios até a minha cara convulsa aparentar com infinita paciência um sorriso... E fechei as pálpebras, apertando-as até que obedeceram e meu rosto acabou tomando a fisionomia de um jovem santo que havia gozado seu martírio. De um Sebastião, crivado de flechas.
Por que havia tanto silêncio? E por que assoma agora uma voz na minha memória, uma voz ouvida com lágrimas algumas vezes, a voz de uma mulher negra cantando: "Eu sei que o Senhor colocou sua mão sobre mim"? Nada disso tinha motivo algum; acontecia somente. Imagem rompida, eu, ereto ante meu corpo frio e cerimonioso, morto com a falsa dignidade que acabava de dar com a minha destreza.
“Oh, rio profundo, e agora és tu desde a noite”. A voz da mulher negra que chora e repete “Rio profundo, meu coração está no Jordão” - E isto seguirá sempre assim? Será esta primeira noite o espelho da eternidade? Estará morto o tempo dentro do meu cadáver? Aprisionam-no essas mãos levemente abertas para o seu abandono? Estaremos sempre assim meu corpo, a voz da mulher negra e minha consciência que pergunta e pergunta?
Mas já era tarde; a reflexão me trouxe às dimensões de um dever cumprido. O tempo persistia; este o relógio proclamava. Entretanto havia um tufo rebelde de cabelo que regressava para a testa branquíssima do meu cadáver, e sai do quarto.
Fui pelo corredor semeado de manchas cênicas - quadros, bibelôs - até surgir na grande câmara onde repousava vovó. Sua respiração ligeira, um pouco quebrada por repentinos soluços - como conhecia essa respiração, como me havia rodeado em uma infância perdida, desmesuradamente distante e cinza - compassou meu caminho até a cama.
Então compreendi o horror do que ia fazer. Despertar a adormecida com toda doçura possível, roçando-lhe as pálpebras com os dedos, dizer-lhe: “Vovó, você tem que saber...”. Ou: “Não vês que acabo de...” Ou melhor: “Não me leves o desjejum de manhã porque...” Me dei conta de que o exórdio precipitaria a máquina das mais abomináveis revelações. Não, eu não tinha direito de romper um sonho sagrado; não tinha direito de adiantar-me à minha própria morte.
Hesitante, estremecido, ia fugir - para onde, até quando? - e só o que pude fazer foi deixar-me cair junto ao alto leito e mergulhar a cara no cobertor vermelho, mesclando-me a ele e à noite, e a esse sonho profundo, maravilhoso, que vovó guardava sob as pálpebras. Queria levantar-me silenciosamente e voltar ao meu quarto, retornar do pesadelo ou incorporar-me a ele até o fim. Mas então ouvi uma exclamação temerosa e soube que vovó me sentia na escuridão. O silêncio teria sido monstruoso: teria que confessar ou mentir. (E aí, no meu quarto, aquilo esperando...)
- O quê está acontecendo, o que está acontecendo, Gabriel?
- Nada, vovó. Nada. Não está acontecendo nada, vovozinha.
- Por que você levantou? Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu... (“Dizer, dizer. Oh, não, não direi agora, não o direi nunca...”).
Ela havia se sentado na cama e aproximou a sua mão da minha testa. Tremi, porque se ao tocar-me... Mas a carícia foi doce como sempre e compreendi que vovó não se havia dado conta de que eu estava morto.
- Você está se sentindo mal?
- Não, não... É que não pude dormir. Nada mais. Não pude dormir.
- Fique aqui...
- Eu me sinto bem agora. Durma, vovó. Eu voltarei à minha cama.
- Beba água, faz passar a insônia.
- Sim, vovó, beberei. Mas durma, durma.
Já tranqüila, ela se entregou ao seu cansaço. Beijei-a na testa, sobre os olhos - ali, onde era tão doce beijá-la -, e quando me levantei para sair, com o rosto banhado de lágrimas, me chegou remotamente a voz da mulher negra, desde alguma parte antiga, querida e esquecida... “ Minha alma está ancorada no Senhor...”.
É que não pude dormir. A mentira se esmagou aos meu pés enquanto desandava o caminho. Na frente do aposento tive um instante de silenciosa esperança. Tudo aparecia claro, distinto. Me bastaria abrir a porta para desvanecerem os fantasmas. O leito vazio, o espelho fiel... e uma paz de sonhos até amanhecer...
Mas ali eu estava, morto, esperando-me. O sorriso falsamente forjado me recebeu burlescamente. E a mecha de cabelo havia voltado a cair sobre a testa e meus lábios estavam já alijados de sua antiga cor, cinzentos e cruéis em seu arco definitivo.
A presença odiosa me rechaçou. Iluminado pelo castiçal de resplendores crus, meu cadáver se oferecia com volumes espessos, inegáveis. Senti que em minhas mãos se despertava o desejo de decalcar-se à cama e arrancar essa cara com unhas raivosas. Retrocedi com vertigem e chorando me lancei na rua deserta, enluarada.
E então caminhei. Sim, então caminhei quadras e quadras, pelos bairros do meu povo, deslizando sobre veredas familiares. E o sentimento de distancia de meu corpo reclinado me devolveu uma falsa calma resignada, me pôs na consciência a serenidade inútil que convidava a meditar. Assim caminhei indefinidamente, construindo sob a fria lua das altas horas a teoria da minha morte.
E pensei haver encontrado a justa verdade. “Eu dormia e sonhava-me. Sem dúvida minha própria imagem foi pelas dimensões in-espaciais de meu sonho; in-espaciais e intemporais, dimensões únicas, estranhas à nossa limitada prisão da vigília...”.
Eu estava na praça, debaixo da árvore antiga.
“Acordei de repente, quem sabe porquê. Muito rapidamente; ai reside a chave de minha atual condição. Não se desperta para a morte? Eu retornei com tanta rapidez ao meu país humano que minha imagem - a do sonho, aquela que era naquele momento recipiente da minha vida e do meu pensamento - não teve tempo de voltar... E acarretou assim a divisão absurda, minha surpresa da imagem onírica desgarrada de sua origem; e meu corpo, que teve de passar da pequena morte do repouso à morte grande em que sorri agora”.
Apontava uma flecha cinza para paredes distantes.
"Ah, nunca devia despertar tão bruscamente. Esta imagem minha havia voltado para a sua prisão espessa de ossos e carne; se havia de morrer, houvéssemos morrido juntos, sem suportar este desdobramento cujo alcance não posso medir... A vida é o tempo! Por que martelo em mim esta idéia? A vida é o tempo! Mas este tempo meu de agora é mais horrível do que qualquer morte; é morte consciente, é assistir à minha própria decomposição desde a cabeceira de um leito monstruoso..."
E a orquestra do amanhecer afinava lentamente seus instrumentos.
"Estou aqui, espaço absoluto, aqui estou, tempo vivo. Romperam-se as imagens da realidade! Meu cadáver é, não sendo mais nada; enquanto que eu alcanço apenas o meu horror de não ser, tempo puro que não se pode aplicar a nenhuma forma, espectro que a manhã desnudará aos olhos sombrios das pessoas..."
E era já quase dia.
Será que me vêem? Sou invisível? Vovó me falou, me acariciou. Mas o espelho não quis refletir-me, permaneceu inalterado. Quem sou? Que fim vai ter esta farsa abominável?
Descobri que estava outra vez ante as portas de casa. E um estridente canto de galo me banhou na angústia do imediato; era a hora em que vovó me levaria o desjejum. A igreja assestava suas primeiras flechas rumo ao céu; a hora em que vovó entraria em meu quarto e me encontraria morto. E eu, parado na rua, iria ouvir o alarido, as primeiras correrias, o estertor inexprimível da revelação consumada.
Não sei o que aconteceu a mim. Entrei desalado em meu quarto. A luz da manhã se fazia muito branca em meu cadáver quando me agachei aos pés da cama. Cri ouvir um rumor no corredor. Vovó! Caí sobre mim mesmo agarrando aqueles ombros de mármore, sacudindo-me como um louco, apertando a boca contra meus lábios sorridentes, buscando reanimar aquela definitiva imobilidade. Me apertei contra o meu corpo, quis romper-lhe os braços com meus ganchos, chupei desesperadamente a boca rebelde, enfrentei meu horror frente a frente, até que meus olhos deixaram de ver, cegos, e o outro rosto se perdeu em uma névoa branca, e ficou somente uma cortina tenebrosa, e um arquejo, e um aniquilamento...

Abri os olhos. O sol me batia na cara. Respirei penosamente; tinha o peito oprimido como se alguém o houvesse pressionado com todas as suas forças. O canto dos pássaros me devolveu inteiramente à realidade.
Em um só ato fulminante recordei tudo. Olhei os meu pés. Estava na cama, virado para cima. Nada havia mudado exceto a sensação de peso não costumeira, de infinito cansaço...
Com que prazer me afundei no conforto de um suspiro! Voltei dele como do mar, pude mergulhar meus pensamentos em três palavras que silvavam meus lábios secos e sedentos:
- Que pesadelo atroz...
Me incorporava lentamente, gozando a sensação maravilhosa que segue o desmascaramento de um sonho mau. Então eu vi as manchas de sangue no travesseiro e me dei conta de que a porta do espelho do meu armário estava invertida, refletindo o ângulo da cama. E olhei o meu cabelo, penteado cuidadosamente para trás, como se alguém o houvesse alisado durante a noite...
Quis chorar, perder-me em meu abandono total. Mas agora entrava vovó com o desjejum e me pareceu que sua voz vinha de muito longe, como de outro cômodo, mas sempre doce...
- Você está melhor? Não devia ter levantado de noite; fazia frio... Deveria me chamar, se tinha insônia... Não volte novamente a levantar-se assim em plena noite...
Me levou a xícara à boca e bebi. Desde uma remota obscuridade interior retornava a voz da mulher negra. Cantava, cantava... “Eu sei que o Senhor colocou sua mão sobre mim...” A xícara estava vazia, agora. Olhei vovó e tomei-lhe as mãos.
Ela devia acreditar que era a luz do sol que me enchia os olhos de lágrimas.

1941

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