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terça-feira, setembro 23

as palavras


“As palavras são para mim corpos
tocáveis, sereias visíveis,
sensualidades incorporadas...”


Fernando Pessoa, ou, melhor dizendo
Bernardo Soares no Livro do Desassossego.

segunda-feira, setembro 22

a coisa


“A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.”

Mário Quintana
No “Caderno H”

domingo, setembro 21

antípodas do prazer


“... quanto mais pleno é o gozo erótico, menos preocupados ficamos com as crianças que podem dele resultar. Por outro lado, a tristeza que se segue ao espasmo final pode provocar um gosto antecipado da morte, mas a angústia da morte e a morte estão nas antípodas do prazer.”

Georges Bataille
Em “O Erotismo”

sexta-feira, setembro 19

solidão


     “O pior não é tanto estarmos sós, pois isso já é sabido e nem tem solução. Estar só é definitivamente estar só dentro de certo plano, no qual outras solidões poderiam comunicar-se conosco se a coisa fosse possível. Todavia, qualquer conflito, um acidente de rua ou uma declaração de guerra, provoca o brutal cruzamento de planos diferentes, e um homem, que talvez seja uma eminência do sânscrito ou da física dos quanta, converte-se num pépère para o enfermeiro que o assiste num acidente. Edgar Poe metido numa ambulância, Verlaine nas mãos de um médico qualquer, Nerval e Artaud diante dos psiquiatras. Que podia saber de Keats o Galeno italiano que o sangrava e matava de fome?”


Cortázar
Em “O Jogo da Amarelinha”

finalidade


“...o universo onde vivemos não responde a nenhuma finalidade delimitada pela razão.”



Georges Bataille
Em “O Erotismo”

quinta-feira, setembro 18

traição


“... a essência da traição não consiste em o traidor levantar de repente e deixar o fechado recinto dos devotos e fiéis. Só o traidor superficial faz isso. O traidor real, profundo, é aquele que está bem lá dentro. Dentro do coração do coração: aquele que mais se parece e mais pertence, o que está mais envolvido. Aquele que é mais como os outros, Aquele que realmente ama àqueles que trai, pois se não amar, como vai trair?”


Amós Oz.
Em “Pantera no porão”

quarta-feira, setembro 17

axiomas


“Os axiomas matemáticos não são axiomas de uma verdade geral. O que é verdade com respeito à relação - de forma ou quantidade - é, com freqüência, geralmente falso quanto ao que respeita à moral, por exemplo.”



Edgar Allan Poe
Em “ A Carta Roubada”

terça-feira, setembro 16

o inconcebível


“Queremos ter acesso ao além sem dar o passo, mantendo-nos ajuizadamente do lado de cá. Não podemos nada conceber, nada imaginar, a não ser dentro dos limites de nossa vida, além dos quais parece-nos que tudo se apaga. Além da morte, com efeito, começa o inconcebível, que não temos ordinariamente a coragem de enfrentar.”

Georges Bataille
Em “O Erotismo”


imaginação

“Reduzir a imaginação  à escravidão, mesmo que estivesse em jogo aquilo a que grosseiramente se chama felicidade, é privarmo-nos de tudo o que encontramos, no nosso íntimo mais profundo, de justiça suprema. Somente a imaginação me diz o que pode ser”.

 

André Breton

Em “Les Manifestes Du Surréalisme”.

 

 

quinta-feira, setembro 11

egoismo

 

“A vida do avarento é um constante exercício da potência humana colocada a serviço da personalidade. Ele só se apóia sobre dois sentimentos: o amor-próprio e o interesse; mas, como o interesse é de certo modo o amor-próprio sólido e bem compreendido, a comprovação permanente de uma superioridade real, o amor-próprio  e o interesse são duas partes de um mesmo todo, o egoísmo.”

 

Honoré de Balzac

Em “Eugênia Grandet”

 

 

quarta-feira, setembro 10

retrato de um hipócrita idiota

“...nunca sabia ao certo como deveria responder a alguém, se seu interlocutor queria rir ou estava sério. E, ao acaso, ele acrescentava a todas as suas expressões fisionômicas o oferecimento de um sorriso condicional e provisório cuja finura expectante o desculparia da censura de ingenuidade, se as palavras que lhe dirigiam fossem de fato espirituosas. Porém como tinha de enfrentar a hipótese oposta, nunca deixava o sorriso se afirmar nitidamente no rosto, onde se via flutuar perpetuamente uma incerteza em que se lia a pergunta que não tinha coragem de fazer: “O senhor fala isto a sério?””.

Marcel Proust

Em “No Caminho de Swann”

terça-feira, setembro 9

banal




“ - As casa novas, redargüiu o Sr. Bergeret, são mais cômodas do que as velhas. Mas, não gosto delas, talvez porque sinta melhor, num luxo que se pode medir, a vulgaridade de uma vida estreita. Não é que eu sofra, mesmo por vocês, com a mediocridade da minha situação. É o banal e o comum que me desagradam. Vão-me achar absurdo.

- Oh! Não, papai!

- Na casa nova, o que me é odioso, é a exatidão das disposições correspondentes, a estrutura muito aparente dos alojamentos, que se nota de fora. Há longo tempo que os citadinos vivem empilhados. E uma vez que sua tia não quer ouvir falar de uma casinha de arrabalde, desejo acomodar-me bem num terceiro ou quarto andar e é por isso que renuncio com pena às velhas casas...”

 

Anatole France

Em “O Sr. Bergeret em Paris”

 

segunda-feira, setembro 8

vírtude e vício

“Era sua opinião não haver senão duas fontes do vício humano: a ociosidade e a superstição, e senão duas virtudes: a atividade e a inteligência”.

 

Leão Tolstoi

Em “Guerra e Paz”

domingo, setembro 7

civilização

 

“Ao que parece, somos quase forçados a aceitar a terrível hipótese de que na própria estrutura e substância de todos os esforços humanos de construção social está incorporado um princípio de morte; de que não há impulso progressivo que não deva tornar-se fatigado; de que o intelecto não pode fornecer uma defesa permanente contra um vigoroso barbarismo.”

 

Wilfred Trotter

In “Instincts of the Herd in Peace and War”

 

 

os homens

“Conheci já bastantes homens para saber o que devemos pensar dos seus caprichos: nada é sem importância para um homem, uma vez que o seu orgulho esteja em causa, e o prazer é a palavra que mais depressa e mais vezes lhe permite satisfazê-lo.“

 

André Malraux

Em “A Condição Humana”

 

 

alma romanesca

“Teria sacrificado sua vida sem hesitar para salvar a de seu marido, se a visse em perigo. Era uma destas almas romanescas , para quem perceber a possibilidade de uma ação generosa e não a realizar provocava remorsos iguais aos decorrentes de um crime cometido. Havia dias funestos, contudo, em que não podia afastar a imagem do excesso de felicidade que gozaria se, tornando-se de repente viúva, pudesse casar com Julien.”

 

Stendhal

Em “O Vermelho e o Negro”

 

sábado, setembro 6

amor-próprio

“O amor-próprio é um animal estranho que pode dormir até sob os golpes mais rudes, para depois acordar ferido de morte por um simples arranhão”

 

Alberto Moravia

Em “A Romana”

 

dinheiro

“Observei mais tarde na minha vida que mesmo aqueles cujo dinheiro tem origem lícita não gostam de falar nele nem com estranhos nem com os íntimos. Provavelmente o dinheiro está ligado a uma sensação de vergonha, ou pelo menos de pudor, que o apaga do rol dos assuntos normais e o relega às coisas das quais não é bom falar, secretas e inconfessáveis; como se fosse mal ganho, independente da sua origem. Mas talvez seja verdade também que ninguém gosta de mostrar o sentimento despertado pelo dinheiro, sentimento violento que vem sempre acompanhado de uma sombra de culpa.”

 

Alberto Moravia

Em “A Romana”

 

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