terça-feira, setembro 30

poetas de outras horas – Lord Byron (George Gordon)


Ilustração: Viscount Castlereagh
Por Philip Gurrey -2008



EPITAPH

Posterity will ne'er survey
A nobler grave than this:
Here lie the bones of Castlereagh:
Stop, traveler -

[and piss]I mention this, just in case...




Tradução: José Lino Grünewald


EPITÁFIO

Posteridade nunca há de rever
Sepultura mais nobre do que esta:
Aqui fazem os ossos de Castlereagh
Pare, viajante -

[e mije] Digo isto, se for o caso...


madrugada


ilustração: foto promocional de Winona Ryder


um dia a madrugada me caiu nas pálpebras
desde então sou esta ave noturna e melancólica
de asas atrofiadas e incomensuráveis fantasias

assim tem sido e nada mais que isto almejo
porque vivo ainda o momento do seu beijo



Fred Matos

O Beato de Canudos



Ilustração: desenho de Angelo Agostini,
“Antônio Conselheiro rechaça a República”
Revista Ilustrada - 1896


[Para Maria da Conceição Carneiro Oliveira]


A chuva,
primeiro gota a gota,
depois tempestuosa,
transbordando o Vaza Barris,
sua água escarlate, sanguinolenta,
escamando torrões, coágulos da terra,
enlameando os caminhos,
lavando o pó das pedras,
inundando o Belo Monte,
inundando o império,
submergindo o mundo,
molhava os sonhos do Conselheiro.

Da infância, semente da loucura e da razão,
pouco se sabe, quase tudo é suposição.
O sertão sabe da seca, da fome, da sede.
O sertão sabe de Deus, da esperança, da fé.
O sertão sabe da dor, carpida sem lágrimas,
sem esperdício d’água.
O sertão sabe da estiagem,
dos horários da missa, dos dias do padre,
da submissão.

O menino, órfão de mãe, do pai que bebia,
da madrasta maltratos, criado descalço,
sonhava o mar, e sonhava com Cristo,
que morreu na cruz para nos salvar.
Sonhava com leite e mel
escorrendo dos veios da terra.
Ainda sonha, e espera por Dom Sebastião
que sairá das ondas, à frente do seu exército,
para a nossa redenção.

No Ceará, aqui, acolá,
foi professor e caixeiro,
foi rábula, foi vaqueiro,
teve mulher e dois filhos,
que pelo sonho largou.
Pois um dia, quarenta dias,
iguais uns aos outros de sua sina peregrina,
Antônio recebeu a revelação divina:
” Vai meu filho, ergue minha casa,
conduz meu rebanho à terra prometida,
que é teu sonho”

Antônio obedeceu,
plantou catedrais de pedra e adobe
para que dobrem os sinos da fé,
despertando a eternidade.
Antônio prega onde não há padre,
ensina a Lei, leva o batismo e o mito do Cristo.
Antônio é conselheiro, é amigo,
meigo companheiro na última unção.
Antônio é pai, é filho, é irmão.

Do Ceará à Bahia, onde passou foi ouvido,
fez-se do povo querido e do Capeta inimigo.
Uns diziam que era jagunço fugido do Ceará,
onde, por crime da morte, da mãe e da mulher,
não podia mais voltar e que, vivendo de esmolas,
vagava de casa em casa, de arraial em arraial,
de Chorochó à Vila do Conde,
de Geremoabo à Itapicuru,
nos grotões do sertão baiano,
pregando a rudes ouvintes,
purgando pública contrição do pecado do sangue,
para o qual não há perdão.

Um dia, sem reação,
por ser a monarquia poder de Deus emanado,
em Itapicuru foi preso, pra Salvador foi levado,
inquirido, torturado.
De lá pra Fortaleza, depois Quixeramobim,
chegando, então, por fim, na sua terra natal,
onde foi logo liberto,
que contra ele a lei nada tinha a cobrar.
Mas a lenda ainda corre
nas mil bocas dos Barrabás.

Foi um dia de festa, ladainhas e foguetório
quando Antônio voltou e convocou sua grei.
Era chegada a hora por todos ansiada
de reunir o rebanho na terra anunciada.
Em cada canto nordestino a boa nova chegou.
Quem tinha propriedade, botou preço sem apreço
vendeu por poucos trocados,
na pressa de ser o primeiro
nas terras do Nosso Senhor.

Nas terras miseráveis do Arraial de Canudos,
onde nada se plantava, nem criação se fazia,
fincou enfim sua cruz,
plantou uma cidade às ordens do Senhor.

Para cá, diariamente, demandam os desesperados,
pois sua palavra santa, é a Lei, é a Verdade,
e onde era deserto, trinta mil vidas vinculam
ao dele seus destinos, em santa felicidade.

Trovejam das tropas tropel de burros
abarrotados de trapos, tralhas velhas,
nas trilhas onde chocalham cascavéis.

É uma estranha procissão:
homens, mulheres, crianças, anciões,
ansiando vida nova na nova Canaã.

Os coronéis do sertão,
mal refeitos da perda dos escravos libertos,
vêem sumir apavorados
os braços que os nutrem.

Para eles é um mistério como tantas bocas podem
encontrar o de comer em sítio tão inóspito.
Somente com Deus a prover
é possível o impossível.

E a notícia voou, nas asas do ódio e do medo,
da inveja e da infâmia.

Chegou a Salvador, ao governador e ao bispo:
”Põe esse homem no hospício,
lá é que é lugar de louco”,
disse fazendo pouco, o de batina ao de fraque.

Agora é a República, há no trono do Imperador,
um governo de anticristos Maçons,
desafiando a Lei que o beato Conselheiro ensina.

Foi quando a guerra começou.
Primeiro chegou a polícia, facilmente escorraçada,
que em cada moita do mato,
em cada fresta de pedra, em cada buraco do chão,
há um cabra nordestino armado de foice ou facão.
Mais que isso, armado de fé
e do amor no Santo irmão.

Dos macacos decapitados
ficamos com as armas de fogo
e com toda munição.
Alguns dos que chegam passam pra nosso lado,
preferem morrer com Cristo
que viver com o diabo.

Mas o tinhoso é teimoso
e manda pra esparrela novas levas de praças.
São tantos os que matamos
que em cada arbusto da estrada
há uma cabeça espetada
e o sangue na terra vermelha
é aqui mais farto que água.

Agora é o exército nacional,
soldado, cabo, sargento, tenente, coronel, general,
até o Ministro da Guerra vindo do Rio de Janeiro.

Vem soldado do Norte,
vem soldado do Sul,
vêm com obus e canhões,
metralhadoras, granadas,
mas Canudos não se rende,
e em dois anos de batalhas,
aqui se cozeu a mortalha
do exército brasileiro.

Quem é da terra não verga,
faz de fagulha braseiro.

Aqui da minha trincheira,
a boca cheia de terra,
os olhos molhados de sangue,
vejo uma túnica azul,
um chapéus de abas largas,
cabelos até os ombros,
barba inculta desgrenhada,
olhar de sóis nascentes,
numa mão o livro santo,
na outra, qual cetro, um porrete,
caminhando sobre nuvens,
pastoreando as almas
dos cadáveres insepultos,
Santo Antônio Conselheiro,
em cujos pés me agarro.



Fred Matos
publicado em "Anomalias".
Editora Kelps
Setembro/2002

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Rachael Leigh Cook
Fotos promocionais

Madrugada – Joeldo Holanda

Joeldo Holanda ©

ilustração: foto de Luiz Fonseca

Madrugada

Há um instante em que se suprimem
Todas as faculdades da alma,
Todo o gozo e o pensamento,
Toda a emoção e a metafísica,
Todo e qualquer som de prenúncio,
E toda a vida

E enquanto o universo se reconstrói
Naquele exato instante,
Um nada se desvela em diálogos infindos,
E as mentes, que não mais eram, se entretêm,
Absortas,
Num espaço de silêncio.

lero-lero (cinco)



ilustração: "A fortuna", não sei quem é o autor.


Do alto de uma avaliação positiva de 80%, segundo a última pesquisa do IBOP patrocinada pela CNI - Central Nacional da Indústria, Lula assinou ontem o decreto com o cronograma de implantação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa no Brasil. O evento foi realizado na ABL - Academia Brasileira de Letras, durante uma sessão solene em homenagem ao centenário da morte do escritor Machado de Assis.

Pausa para dizer que sinto sempre uma sensação esquisita quando leio, ou, no caso, escrevo que a morte de alguém é homenageada.

As mudanças da ortografia entram em vigor, no Brasil, em janeiro de 2009 e a implantação do acordo será feita de forma gradual, com um período de transição até 2012, quando os concursos públicos e vestibulares vão aceitar as duas formas de escrita: a atual e a modificada. Entre as mudanças na escrita estão o fim do trema, mudanças no emprego do hífen, inclusão das letras w, k e y no idioma, além de novas regras de acentuação.

Eu já disse, em outro lero-lero, que não vou esquentar a cabeça com isso, que vou continuar escrevendo exatamente como escrevo, mas não consigo me convencer da necessidade de unificação ortográfica do idioma, exceto para os lucros das editoras que trabalham com dicionários e livros didáticos.

No Brasil, talvez isso ocorra também em outros países, há leis que pegam e leis que não pegam. Esta me parece que não vai pegar. Esperemos pra ver.

Enquanto isso, como os congressistas norte-americanos estão de olho nas eleições que se aproximam, e o eleitorado é contra o pacote que transfere dinheiro dos cofres públicos para salvar a banca irresponsável, as bolsas despencam em todos os cassinos do mundo, e caem os preços das commodities e aumenta a preocupação com a iminência de um longo período de recessão mundial, o que significa desemprego e, para muitos, fome. O fato é que, infelizmente, o mundo real sofre a influencia da má gestão – se não da gestão fraudulenta – que resultou nesta gravíssima crise.

Como não posso simplesmente concordar com a socialização do prejuízo, mas também não acho que se deve deixar que a conta seja paga com o agravamento da miséria universal, creio que o mais justo e humano seria a estatização dos grupos financeiros que não conseguirem cozer com as suas próprias linhas e que os administradores destas casas de tolerância sejam indiciados para que respondam na justiça pelos atos de improbidade que tenham porventura cometido.

Bom dia, galera.

segunda-feira, setembro 29

poetas de outras horas - Federico Garcia Lorca


ilustração: foto de Mário Cravo Neto


VENUS

Así te vi

La joven muerta
en la concha de la cama,
desnuda de flor y brisa
surgía el la luz perenne.

   Quedaba el mundo,
lirio de algodón y sombra,
asomado a los cristales,
viendo el tránsito infinito.

   La joven muerta,
surcaba el amor por dentro.
Entre la espuma de las sábanas
se perdía su cabellera.



Tradução: William Agel de Mello


VENUS

Assim te vi

A jovem morta
na concha da cama,
despida de flor e brisa
surgia na luz perene.

   Ficava o mundo,
lírio de algodão e sombra,
assomado às vidraças,
vendo o trânsito infinito.

   A jovem morta
surcava o amor por dentro.
Entre a espuma dos lençóis
perdia-se a sua cabeleira.


noites


ilustração: Van Gogh - Starry Night - 1889


a saudade
inscrita no musgo da pedra marinha
onde um dia deixei meus olhos
vem em sonhos
e me desperta no meio da noite
insistindo por uma lágrima

nego-a

como de resto tenho negado
qualquer sinal de emoção
qualquer ato que possa me comover
além do suportável limite da razão

bebo água
fumo um cigarro
torno à cama.




Fred Matos

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Estella Warren
Fotos promocionais

enquanto houver controvérsias


ilustração:
Salvador Dali - “Mulher com cabeça de rosas”


na noite dos pássaros loucos
quando nada mais se esperava
puseram nomes nas coisas
que não tinham proprietários

às coisas mais singelas
deram nomes complicados
e para as coisas complexas
pequenos nomes sem nexo

quem me contou esta história
achava que foram sábios
os deuses dos alfabetos

eu nunca pensei a respeito
e prefiro me manter cético
enquanto houver controvérsias


Fred Matos


A fotossíntese do Mal - Antônio Adriano de Medeiros


Antônio Adriano de Medeiros ©




ilustração: foto de Mário Cravo Neto



A inveja, a traição, o furto, o assassinato,
o seqüestro, a extorsão, o linchamento, a curra,
o sadismo inveterado e até a simples surra,
atraem minha atenção e arrepiam-me o tato.

Haverá algo melhor que ouvir a voz que urra
contemplando o par de olhos a suplicar clemência,
da indefesa vítima que em sua pura inocência
confiou nas promessas do patife que a esmurra?

Fazer o mal é tão bom que às vezes até machuca!
E a maldade que há em mim, tão antiga, já caduca,
não se cansa de renascer toda manhã, bem cedinho.

É que vem a luz do sol e desvia-me do caminho,
provocando em meu íntimo a Fotossíntese do Mal...
E eu já acordo tramando algum Pecado Mortal.




O médico psiquiatra Antônio Adriano de Medeiros é Paraibano, mas vive em Natal, Rio Grande do Norte. Publicou, em 1995, “Sonetos Para O Diabo”, na revista holandesa Sur; em 1999, “7 Sonetos de Um Amor Muito Safado”, na Antologia Eros, da Editora Poesia Diária e, em 2000, pela Editora Papel Virtual, o livro “Zoológico Fantástico”.
Faz muito tempo que não tenho notícia do AAM, e sinto falta disso.

quem conta um conto...


FREI SIMÃO

Machado de Assis

V (última parte)

(A quarta parte foi publicada ontem)


O delírio de frei Simão durou alguns dias. Graças aos cuidados, pôde melhorar, e pareceu a todos que estava bom, menos ao médico, que queria continuar a cura. Mas o frade disse positivamente que se retirava ao convento, e não houve forças humanas que o detivessem.

O leitor compreende naturalmente que o casamento de Helena fora obrigado pelos tios.

A pobre senhora não resistiu à comoção. Dois meses depois morreu, deixando inconsolável o marido, que a amava com veras.

Frei Simão, recolhido ao convento, tornou-se mais solitário e taciturno. Restava-lhe ainda um pouco da alienação.

Já conhecemos o acontecimento de sua morte e a impressão que ela causara ao abade.

A cela de frei Simão de Santa Águeda esteve muito tempo religiosamente fechada. Só se abriu, algum tempo depois, para dar entrada a um velho secular, que por esmola alcançou do abade acabar os seus dias na convivência dos médicos da alma. Era o pai de Simão. A mãe tinha morrido.

Foi crença, nos últimos anos de vida deste velho, que ele não estava menos doido que frei Simão de Santa Águeda.

FIM



Completa-se hoje cem anos do falecimento de Machado de Assis (Joaquim Maria M. de A.), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nascido no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839.
“Frei Simão” é o último conto da coletânea “Contos Fluminenses”, publicado em 1870, cerca de dez anos antes do romance “Memórias póstumas de Brás Cubas”, cuja publicação daria uma nova direção à carreira literária.

domingo, setembro 28

galeria das musas das horas e horas e meias






Romy Schneider
Fotos promocionais

poetas de outras horas - Paul Éluard


ilustração: Liv Tyler - foto promocional.


LEURS YEUX TOUJOURS PURS

Jours de lenteur, jours de pluie,
Jours de miroirs brisés e d'aiguilles perdues,
Jours de paupières closes a l'horizon des mers,
D'heures toutes semblables, jours de captivité,

Mon esprit qui brillait encore sur les feuilles
E les fleurs, mon esprit est nu comme l'amour,
L'aurore qu'il oublie lui fait baisser la tête
Et contempler son corps obéissant et vain.

Pourtant, j'ai vu les plus beux yeaux du monde,
Dieux d'argent qui tenaient des saphirs dans
[ leurs mains,
De véritables dieux, des oiseaux dans la terre
E dans l'eau, je les ai vus.

Leus ailes sont les miennes, rien n'existe
Que leur vol qui secoue ma misère,
Leur vol d'étoile e de lumière
Leur vol de terre, leur vol de pierre
Sur les flots de leurs ailes,

Ma pensée soutenue par la vie e la mort.


Tradução: José Paulo Paes


SEUS OLHOS SEMPRE PUROS

Dias de lentidão, dias de chuva,
Dias de espelhos quebrados e agulhas perdidas,
Dias de pálpebras fechadas ao horizonte
[ dos mares,
De horas em tudo semelhantes, dias de cativeiro.

Meu espírito que brilhava ainda sobre as folhas
E as flores, meu espírito é desnudo feito o amor,
A aurora que ele esquece o faz baixar a cabeça
E contemplar seu próprio corpo obediente e vão.

Vi, no entanto, os olhos mais belos do mundo,
Deuses de prata que tinham safiras nas mãos,
Deuses verdadeiros, pássaros na terra
E na água, vi-os.

Suas asas são as minhas, nada mais existe
Senão o seu vôo a sacudir minha miséria.
Seu vôo de estrela e luz,
Seu vôo de terra, seu vôo de pedra
Sobre as vagas de suas asas.

Meu pensamento sustido pela vida e pela morte.

arqueologia miúda



ilustração: Degas "Femme nue étendue"


nos guardados da casa
arqueologia miúda
de um passado recente.

cartas, velhos cadernos
pejados de poemas, sonhos, projetos.
uma pétala seca de rosa, talvez, ou de açucena.

uma declaração de amor eterno
infinitamente mais breve
que o papel que a promessa encerra.

assina Lúcia, de cuja feição não me lembro,
sequer das circunstâncias da paixão
que a carta testemunha.

documentos, traças, pó de papel, mofo...
de que me serve guardar
a Certidão de Óbito do meu pai?

centenas de fotos esbranquiçadas
o texto juvenil de uma comédia
que nunca será encenada.

nem tudo vai para o lixo sem lágrimas,
mas é preciso esvaziar os armários,
atulhados de ontens,
para dar espaço ao novo.


Fred Matos
Salvador, BA.
02/03/2002

publicado em "Anomalias".
Editora Kelps
Setembro/2002
com o título
"nos guardados da casa"

pedaços – Márcia Leite

Márcia Leite ©


ilustração: foto de Luiz Fonseca



Os dedos tropeçam em maiúsculas duplas
A noite traz fantasmas - mendigos de amor
Estamos todos no mesmo mar eletrônico
Sonhos sem face da humanidade pós-moderna
Coroam delírios do Poeta Biônico

Poemas supersônicos cruzam oceanos de carências
Rimas sempre lentas lembram barcos à vapor
Calcanhares alados recolhem-se
- curvam-se ao período reumático
O poema volteia entre janelas
Fragmentos dourados do poeta extático

Poesia à deriva - sinal dos tempos
Prisioneiros de vírus mortais
Nos revelamos aos pedaços
Escrevendo todos ao mesmo tempo
- frenéticos semi-deuses no anonimato
Falamos de guerras, amor e vento
Mutilamos-nos em busca de emoção
Olhos, boca, sorriso - simulam vôo de sanhaço
Feixe de elétrons no peito substituem o coração.


entre mim e mim



ilustração: Salvador Dali

“Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos"
.

Cecília Meireles


não sei quem destes

tantos sou agora
se o que ri,
se o que chora,
se o que não chora nem ri,

mas pouco importa porque

qualquer deles sou passageiro
tenho neles

a dimensão do mundo inteiro
tendo todas as idades percorrido


”entre mim e mim
há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos”.



Fred Matos





lero-lero (quatro)



Ilustração: Paul Newman e Liz Taylor
Em “Gata em teto de zinco quente”


Como já faz muito tempo que o Senhor do Bonfim pendurou as chuteiras, e os Orixás decidiram em assembléia-geral que há assuntos mais importantes necessitando de intervenção extra-terrena, o Bahia, jogando ontem à tarde em Florianópolis, levou uma cacetada e está cada dia mais distante do grupo dos quatro primeiros que disputarão a primeira divisão em 2009. Há pessoas que atribuem a má-sorte da equipe ao acúmulo de promessas não cumpridas, mas este time é muito fraco mesmo, nem macumba, nem reza braba resolvem problemas de incompetência. Agora, faltando dez rodadas para o final do campeonato, o Bahia está 9 pontos atrás do quarto colocado. Possibilidades matemáticas existem, mas a matemática é uma ciência exata e o futebol não presta tributo à régua e ao compasso. Além disso, os próximos adversários são: o ABC lá em Natal, o Vila-Nova e o Corinthians -- os dois melhores do campeonato -- em Feira de Santana. Se há milagre a ser feito precisa ser agora ganhando nove pontos dificílimos. Eu continua torcendo, mas não acendo vela.

Em Cingapura, na primeira corrida noturna da Formula 1, a Ferrari protagonizou outra lambança graças à qual Felipe Massa, que tinha tudo para vencer e assumir a liderança do campeonato, terminou na décima terceira posição, enquanto Lewis Hamilton marcou 6 pontos chegando em terceiro, aumentando para sete a vantagem. Não foi a primeira vez este sistema, criado para substitui o homem do lollipop (que Galvão Bueno -- e sua turma -- chama de homem do pirulito, que dá indicação ao piloto na frente do carro, quando o reabastecimento está concluído) atesta que nem sempre as novas tecnologias são superiores aos mecanismos mais simples. Já havia acontecido com Raikkonen, acho que na corrida da Espanha, mas, desta vez, o prejuízo foi maior: além do tempo parado para retirar a mangueira, Felipe foi punido com um passeio a 80 quilômetros por hora na área dos boxes. Faltam três corridas (Japão, China e Brasil) e basta a Hamilton chegar em segundo lugar nas três para vencer o campeonato deste ano. Quem ganhou a corrida foi Fernando Alonso, da Renault.

Esportes à parte, mas nem tanto, porque Paul Newman era apaixonado pelo automobilismo, lamento o falecimento, ontem, vítima de câncer de pulmão, aos 83 anos, do grande ator e ser humano. Paul Leonard Newman nasceu no subúrbio de Cleveland, em Shaker Heights, Ohio, em 26 de janeiro de 1925. Iniciou a carreira artística no Broadway Theater com a peça “Picnic” de William Inge.

O primeiro contato de Newman com o mundo artístico veio apenas na universidade. Ele estudou artes em Yale. Após sair da faculdade, se formou em outro curso para teatro. Sua estréia no cinema foi, em 1954, com o filme “The Silver Chalice“, mas o primeiro papel de destaque aconteceu dois anos depois com o longa-metragem “Marcado pela Sarjeta“.

Quatro anos após a estréia foi indicado pela primeira vez ao Oscar graças à atuação em “Gata em Teto de Zinco Quente“, não venceu. Preterido outras cinco vezes, venceu uma vez, com o papel de Eddy, um jogador de bilhar profissional em “A Cor do Dinheiro“, de Martin Scorsese. Recebeu também um Oscar por Conjunto da Obra.

Além de grande ator, Newman teve sucesso também como diretor e produtor. Nestes cargos, ele participou de nove filmes. Em 1968, foi premiado com um Globo de Ouro por sua direção no filme “Rachel, Rachel“, obra que concorreu ao Oscar de Melhor Filme do ano.

Para completar a lista de atuações, o ator trabalhou também com dublagem, dando voz a Doc Hudson no longa-metragem Carros, da Disney.

Quando saía da frente das câmeras, em sua vida pessoal, ele era um apaixonado por automóveis e velocidade. Começou a participar de corridas profissionais em 1972 e, em 1979, ficou em segundo lugar na 24 Horas de Le Mans.

Além disso, Newman também conquistou vitórias em categorias americanas como a classe D-Production da SCCA em 1976, a C-Production em 1979 e o bicampeonato da GT1 em 1985 e 1986.
Em 1978 criou a equipe Newman Racing para competir na Can-Am e cinco anos depois se juntou com Carl Haas para criar a Newman-Haas, que venceu oito campeonatos da Fórmula Indy e da Champ Car.

Bom domingo, galera.

quem conta um conto...


FREI SIMÃO

Machado de Assis


IV

(a terceira parte foi publicada ontem)


Frei Simão de Santa Águeda foi obrigado a ir à província natal em missão religiosa, tempos depois dos fatos que acabo de narrar.

Preparou-se e embarcou.

A missão não era na capital, mas no interior. Entrando na capital, pareceu-lhe dever ir visitar seus pais. Estavam mudados física e moralmente. Era com certeza a dor e o remorso de terem precipitado seu filho à resolução que tomou. Tinham vendido a casa comercial e viviam de suas rendas.

Receberam o filho com alvoroço e verdadeiro amor. Depois das lágrimas e das consolações, vieram ao fim da viagem de Simão.

- A que vens tu, meu filho?

- Venho cumprir uma missão do sacerdócio que abracei. Venho pregar, para que o rebanho do Senhor não se arrede nunca do bom caminho.

- Aqui na capital?

- Não, no interior. Começo pela vila de ***.

Os dois velhos estremeceram; mas Simão nada viu. No dia seguinte partiu Simão, não sem algumas instâncias de seus pais para que ficasse. Notaram eles que seu filho nem de leve tocara em Helena. Também eles não quiseram magoá-lo falando em tal assunto.

Daí a dias, na vila de que falara frei Simão, era um alvoroço para ouvir as prédicas do missionário.

A velha igreja do lugar estava atopetada de povo.

À hora anunciada, frei Simão subiu ao púlpito e começou o discurso religioso. Metade do povo saiu aborrecido no meio do sermão. A razão era simples. Avezado à pintura viva dos caldeirões de Pedro Botelho e outros pedacinhos de ouro da maioria dos pregadores, o povo não podia ouvir com prazer a linguagem simples, branda, persuasiva, a que serviam de modelo as conferências do fundador da nossa religião.

O pregador estava a terminar, quando entrou apressadamente na igreja um par, marido e mulher: ele, honrado lavrador, meio remediado com o sítio que possuía e a boa vontade de trabalhar; ela, senhora estimada por suas virtudes, mas de uma melancolia invencível.

Depois de tomarem água benta, colocaram-se ambos em lugar donde pudessem ver facilmente o pregador.

Ouviu-se então um grito, e todos correram para a recém-chegada, que acabava de desmaiar. Frei Simão teve de parar o seu discurso, enquanto se punha termo ao incidente. Mas, por uma aberta que a turba deixava, pôde ele ver o rosto da desmaiada.

Era Helena.

No manuscrito do frade há uma série de reticências dispostas em oito linhas. Ele próprio não sabe o que se passou. Mas o que se passou foi que, mal conhecera Helena, continuou o frade o discurso. Era então outra coisa: era um discurso sem nexo, sem assunto, um verdadeiro delírio. A consternação foi geral.


Amanhã completa-se cem anos do falecimento de Machado de Assis (Joaquim Maria M. de A.), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nascido no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839.
“Frei Simão” é o último conto da coletânea “Contos Fluminenses”, publicado em 1870, cerca de dez anos antes do romance “Memórias póstumas de Brás Cubas”, cuja publicação daria uma nova direção à carreira literária.

Se nada atrapalhar, publicarei amanhã a quinta e última parte.

sábado, setembro 27

galeria das musas das horas e horas e meias






Anna Sophia Folch

Fotos promocionais

efígie


não sei que é o autor desta foto

decifrar sinais da sua boca um beijo

da madrugada o quase silêncio sufocado

ler um poema oculto na bruma apenas um

um lume apenas da madrugada e nada mais


Fred Matos

publicado em "Anomalias".

Editora Kelps

Setembro/2002

pontos de vista


ilustração: foto de Mário Cravo Neto


o demônio estendeu seu manto negro
abriu-me as portas do mundo ardente
porque, coitado, muito velho e doente
precisa com urgência de um substituto
 
eu lhes digo francamente
que não foi o baixo salário
nem as más condições de trabalho
que me fizeram recusar o cargo
 
o que me incomodou foi o chocalho
que eu teria pendurado ao pescoço
e também que no horário do almoço
eu não teria tempo para a sesta
 
no céu me tomaram por bom moço
e deus me chamou para uma entrevista
só espero que ele não insista
que eu use roupas de vigário
 
eu tenho meus pontos de vista
não aceito regras anacrônicas
muito menos reger a filarmônica
e um coro de anjos desdentados.


Fred Matos



A busca – Clarisse Müller

Clarisse Müller ©

ilustração: Renoir - bathers-1887 (detalhe)


Direi a verdade: me seduzes
mais ainda: me instigas
Não posso deixar de te caçar
como não podes deixar de me devorar
Assim, te persigo - e foges
te espero - e me evitas
te perco , te encontro
Me pergunto: duvidas?
Se me confundes, te apago
se te afirmo, me refutas
se te renego, te impões
Te odeio: me exaures!
Me desmascaras: mentes.
Te amo: me exaltas
Te clamo. Exclamas!
Te quero, me crês?
Me rendo: te escrevo
Queres mais?
Então, à luta!
Me submeto, me subjugas
torturas
Me perguntam: o que buscas?
Palavra que não sei, palavra.

quem conta um conto...


FREI SIMÃO

Machado de Assis

III

(a segunda parte foi publicada ontem)


Passaram-se dias e dias, e nada de chegar o momento de voltar à casa paterna. O ex-romancista era na verdade fértil, e não se cansava de inventar pretextos que deixavam convencido o pobre rapaz.

Entretanto, como o espírito dos amantes não é menos engenhoso que o dos romancistas, Simão e Helena acharam um meio de se escreverem, e deste modo podiam consolar-se da ausência, com presença das letras e do papel. Bem diz Heloísa que a arte de escrever foi inventada por alguma amante separada do seu amante. Nestas cartas juravam-se os dois sua eterna fidelidade.

No fim de dois meses de espera baldada e de ativa correspondência, a tia de Helena surpreendeu uma carta de Simão. Era a vigésima, creio eu. Houve grande temporal em casa. O tio, que estava no escritório, saiu precipitadamente e tomou conhecimento do negócio. O resultado foi proscrever de casa tinta, penas e papel, e instituir vigilância rigorosa sobre a infeliz rapariga.

Começaram pois a escassear as cartas ao pobre deportado. Inquiriu a causa disto em cartas choradas e compridas; mas como o rigor fiscal da casa de seu pai adquiria proporções descomunais, acontecia que todas as cartas de Simão iam parar às mãos do velho, que, depois de apreciar o estilo amoroso de seu filho, fazia queimar as ardentes epístolas.

Passaram-se dias e meses. Carta de Helena, nenhuma. O correspondente ia esgotando a veia inventadora, e já não sabia como reter finalmente o rapaz.

Chega uma carta a Simão. Era letra do pai. Só diferençava das outras que recebia do velho em ser esta mais longa, muito mais longa. O rapaz abriu a carta, e leu trêmulo e pálido. Contava nesta carta o honrado comerciante que a Helena, a boa rapariga que ele destinava a ser sua filha casando-se com Simão, a boa Helena tinha morrido. O velho copiara algum dos últimos necrológios que vira nos jornais, e ajuntara algumas consolações de casa. A última consolação foi dizer-lhe que embarcasse e fosse ter com ele.

O período final da carta dizia:

"Assim como assim, não se realizam os meus negócios; não te pude casar com Helena, visto que Deus a levou. Mas volta, filho, vem; poderás consolar-te casando com outra, a filha do conselheiro ***. Está moça feita e é um bom partido. Não te desalentas; lembra-te de mim".

O pai de Simão não conhecia bem o amor do filho, nem era grande águia para avaliá-lo, ainda que o conhecesse. Dores tais não se consolidam com uma carta nem com um casamento. Era melhor mandá-lo chamar, e depois preparar-lhe a notícia; mas dada assim friamente em uma carta, era expor o rapaz a uma morte certa.

Ficou Simão vivo em corpo e morto moralmente, tão morto que por sua própria idéia foi dali procurar uma sepultura. Era melhor dar aqui alguns dos papéis escritos por Simão relativamente ao que sofreu depois da carta; mas há muitas falhas, e eu não quero corrigir a exposição ingênua e sincera do frade.

A sepultura que Simão escolheu foi um convento. Respondeu ao pai que agradecia a filha do conselheiro, mas que daquele dia em diante pertencia ao serviço de Deus.

O pai ficou maravilhado. Nunca suspeitou que o filho pudesse vir a ter semelhante resolução. Escreveu às pressas para ver se o desviava da idéia; mas não pôde conseguir.

Quanto ao correspondente, para quem tudo se embrulhava cada vez mais, deixou o rapaz seguir para o claustro, disposto a não figurar em um negócio do qual nada realmente sabia.


No próximo dia 29 completa-se cem anos do falecimento de Machado de Assis (Joaquim Maria M. de A.), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nascido no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839.
“Frei Simão” é o último conto da coletânea “Contos Fluminenses”, publicado em 1870, cerca de dez anos antes do romance “Memórias póstumas de Brás Cubas”, cuja publicação daria uma nova direção à carreira literária.


Amanhã, se nada atrapalhar, publicarei a quarta parte.

sexta-feira, setembro 26

galeria das musas das horas e horas e meias





Ana Paula Arósio
Fotos de divulgação

bloomsday



ilustração: Fred Matos - traços do arquiteto


enquanto em Dublin os rins de Joyce
eram servidos no Bloomsday
meu fígado estava sendo consumido
em ordinário prato de flandres

não vale a pena ir adiante
quando se crê o mundo perdido
na cega idolatria que eu sei
e não me será imposta a coices

na sobremesa uma fatia de doce
no jantar um novo Decreto-Lei
será inevitavelmente digerido

à noite uma leitura narcotizante
depois o nó górdio de Alexandre
e o oriente ao ocidente submetido

não preciso que se entenda o que digo
nem saber se a estupidez se expande
para as fronteiras além do meu umbigo

ah! aqui faz um belo domingo
somente isto deveria ser importante
não a lembrança de um junho antigo

que, contudo, não me saí da cabeça
porque meu fígado foi digerido
no balcão de um pub irlandês:

Leopold Bloom estava bêbado
e berrava para que todos ouvissem:
“ah! como é gostoso o meu Ulisses”

quando acabou o estoque de uísque
bebeu o meu sangue numa taça
e no meio do disse-que-disse
queria ainda que eu sorrisse
mas não me tirou a mordaça

lembranças antigas, meu bem,
lembranças que preciso esquecer
porque nada pode ocupar espaço
no espaço que dei a você.


Fred Matos


poetas de outras horas - Manuel Bandeira


ilustração: Fred Matos - Dila em Inhotim


Madrigal Melancólico



O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Não é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai

O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.

O que eu adoro em ti
- lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.


galeria




Gustav Klimt - Death and Life -1911

lero-lero (três)


Ilustração: pit stop da Ferrari

Como todo mundo, eu tenho as minhas manias, mas, como poucos, cultivo-as, divirto-me com elas, não me incomodam. Uma mania, se é que se pode chamar de mania, é não gostar de transformar em rotina, em obrigação, as atividades que abraço apenas por prazer. Não se surpreendam, hipotéticos leitores, se este blog desaparecer, ou ficar períodos sem atualização. Hoje, por exemplo, eu não pretendia escrever este lero-lero, mas senti uma irresistível vontade de registrar que falta pouco, muito pouco, uma mísera gota de orvalho, uma pluma, um fio de cabelo, infinitas outras metáforas que exprimam o triz que falta para que eu decida me abster absoluta e completamente da leitura de qualquer revista, jornal, web-site, que insista nos seguintes assuntos:

 

  1. Se Kimi Raikkonen deve ou não ajudar Felipe Massa a vencer o Campeonato de Formula um.
  2. Se o Brasil está ou não blindado contra a crise financeira internacional.
  3. Se a ABIN tem ou não tem equipamentos capazes de fazer escuta telefônica.

 

Boa tarde galera.

o absurdo - Almandrade

Almandrade ©



ilustração: Monet - "Water Lilies" - 1914

 

 O absurdo
ronda
um céu de metáforas
sombra imóvel
empoeirada
namora
o ar dos museus
palavras desertas
soltas
no colorido
 dos jardins de Monet.

 

Almandrade, ou Antonio Luiz M. Andrade, é artista plástico, arquiteto e poeta. É um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia, que publicou a revista "Semiótica", em 1974. Seus trabalhos estão publicados nos livros "O Sacrifício do Sentido", "Obscuridades do Riso", "Poemas", "Suor Noturno" e "Arquitetura de Algodão". Prêmio Copene de cultura e arte, 1997.

a música das horas e horas e meias


como diz Caetano Veloso:
"melhor do que o silêncio só João"


quem conta um conto...

FREI SIMÃO

Machado de Assis           

 II 

(a primeira parte foi publicada ontem)


As notas de frei Simão nada dizem do lugar do seu nascimento nem do nome de seus pais. O que se pôde saber dos seus princípios é que, tendo concluído os estudos preparatórios, não pôde seguir a carreira das letras, como desejava, e foi obrigado a entrar como guarda-livros na casa comercial de seu pai.

Morava então em casa de seu pai uma prima de Simão, órfã de pai e mãe, que haviam por morte deixado ao pai de Simão o cuidado de a educarem e manterem. Parece que os cabedais deste deram para isto. Quanto ao pai da prima órfã, tendo sido rico, perdera tudo ao jogo e nos azares do comércio, ficando reduzido à última miséria.

A órfã chamava-se Helena; era bela, meiga e extremamente boa. Simão, que se educara com ela, e juntamente vivia debaixo do mesmo teto, não pôde resistir às elevadas qualidades e à beleza de sua prima. Amaram-se. Em seus sonhos de futuro contavam ambos o casamento, coisa que parece o mais natural do mundo para corações amantes.

Não tardou muito que os pais de Simão descobrissem o amor dos dois. Ora é preciso dizer, apesar de não haver declaração formal disto nos apontamentos do frade, é preciso dizer que os referidos pais eram de um egoísmo descomunal. Davam de boa vontade o pão da subsistência a Helena; mas lá casar o filho com a pobre órfã é que não podiam consentir. Tinham posto a mira em uma herdeira rica, e dispunham de si para si que o rapaz se casaria com ela.

Uma tarde, como estivesse o rapaz a adiantar a escrituração do livro mestre, entrou no escritório o pai com ar grave e risonho ao mesmo tempo, e disse ao filho que largasse o trabalho e o ouvisse. O rapaz obedeceu. O pai falou assim:

- Vais partir para a província de ***. Preciso mandar umas cartas ao meu correspondente Amaral, e ,como sejam elas de grande importância, não quero confiá-las ao nosso desleixado correio. Queres ir no vapor ou preferes o nosso brigue?

Esta pergunta era feita com grande tino.

Obrigado a responder-lhe, o velho comerciante não dera lugar a que seu filho apresentasse objeções.

O rapaz enfiou, abaixou os olhos e respondeu:

- Vou onde meu pai quiser.

O pai agradeceu mentalmente a submissão do filho, que lhe poupava o dinheiro da passagem no vapor, e foi muito contente dar parte à mulher de que o rapaz não fizera objeção alguma.

Nessa noite os dois amantes tiveram ocasião de encontrar-se a sós na sala de jantar.

Simão contou a Helena o que se passara. Choraram ambos algumas lágrimas furtivas, e ficaram na esperança de que a viagem fosse de um mês, quando muito.

À mesa do chá, o pai de Simão conversou sobre a viagem do rapaz, que devia ser de poucos dias. Isto reanimou as esperanças dos dois amantes. O resto da noite passou-se em conselhos da parte do velho ao filho sobre a maneira de portar-se na casa do correspondente. Às dez horas, como de costume, todos se recolheram aos aposentos.

Os dias passaram-se depressa. Finalmente raiou aquele em que devia partir o brigue. Helena saiu do seu quarto com os olhos vermelhos de chorar. Interrogada bruscamente pela tia, disse que era uma inflamação adquirida pelo muito que lera na noite anterior. A tia prescreveu-lhe abstenção da leitura e banhos de água de malvas.

Quanto ao tio, tendo chamado Simão, entregou-lhe uma carta para o correspondente, e abraçou-o. A mala e um criado estavam prontos. A despedida foi triste. Os dois pais sempre choraram alguma coisa, a rapariga muito. 

Quanto a Simão, levava os olhos secos e ardentes. Era refratário às lágrimas; por isso mesmo padecia mais.

O brigue partiu. Simão, enquanto pôde ver terra, não se retirou de cima; quando finalmente se fecharam de todo as paredes do cárcere que anda, na frase pitoresca de Ribeyrolles, Simão desceu ao seu camarote, triste e com o coração apertado. Havia como um pressentimento que lhe dizia interiormente ser impossível tornar a ver sua prima. Parecia que ia para um degredo. 

Chegando ao lugar do seu destino, procurou Simão o correspondente de seu pai e entregou-lhe a carta. O Sr. Amaral leu a carta, fitou o rapaz, e, depois de algum silêncio, disse-lhe, volvendo a carta:

- Bem, agora é preciso esperar que eu cumpra esta ordem de seu pai. Entretanto venha morar para a minha casa.

- Quando poderei voltar? perguntou Simão.

- Em poucos dias, salvo se as coisas se complicarem.

Este salvo, posto na boca de Amaral como incidente, era a oração principal. A carta do pai de Simão versava assim:

"Meu caro Amaral,

"Motivos ponderosos me obrigam a mandar meu filho desta cidade. Retenha-o por lá como puder. O pretexto da viagem é ter eu necessidade de ultimar alguns negócios com você, o que dirá ao pequeno, fazendo-lhe sempre crer que a demora é pouca ou nenhuma. Você, que teve na sua adolescência a triste idéia de engendrar romances, vá inventando circunstâncias e ocorrências imprevistas, de modo que o rapaz não me torne cá antes de segunda ordem. Sou, como sempre" ,etc.

 

No próximo dia 29 completa-se cem anos do falecimento de Machado de Assis (Joaquim Maria M. de A.), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nascido no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839.

“Frei Simão” é o último conto da coletânea “Contos Fluminenses”, publicado em 1870, cerca de dez anos antes do romance “Memórias póstumas de Brás Cubas”, cuja publicação daria uma nova direção à carreira literária.

 

Amanhã, se nada atrapalhar, publicarei a terceira parte.

quinta-feira, setembro 25

galeria




Umberto Boccioni
States of mind in the farewells

quem conta um conto...



FREI SIMÃO
Machado de Assis


ilustração: 
cena do filme "O monge e a feiticeira"

I

Frei Simão era um frade da ordem dos Beneditinos. Tinha, quando morreu, cinqüenta anos em aparência, mas na realidade trinta e oito. A causa desta velhice prematura derivava da que o levou ao claustro na idade de trinta anos, e, tanto quanto se pode saber por uns fragmentos de Memórias que ele deixou, a causa era justa.

Era frei Simão de caráter taciturno e desconfiado. Passava dias inteiros na sua cela, donde apenas saía na hora do refeitório e dos ofícios divinos. Não contava amizade alguma no convento, porque não era possível entreter com ele os preliminares que fundam e consolidam as afeições.

Em um convento, onde a comunhão das almas deve ser mais pronta e mais profunda, frei Simão parecia fugir à regra geral. Um dos noviços pôs-lhe alcunha de urso, que lhe ficou, mas só entre os noviços, bem entendido. Os frades professos, esses, apesar do desgosto que o gênio solitário de frei Simão lhes inspirava, sentiam por ele certo respeito e veneração.

Um dia anuncia-se que frei Simão adoecera gravemente. Chamaram-se os socorros e prestou-se ao enfermo todos os cuidados necessários. A moléstia era mortal: depois de cinco dias frei Simão expirou.

Durante estes cinco dias de moléstia, a cela de frei Simão esteve cheia de frades. Frei Simão não disse uma palavra durante esses cinco dias; só no último, quando se aproximava o minuto fatal, sentou-se no leito, fez chamar para mais perto o abade, e disse-lhe ao ouvido com voz sufocada e em tom estranho:

- Morro odiando a humanidade!

O abade recuou até a parede ao ouvir estas palavras, e no tom em que foram ditas. Quanto a frei Simão, caiu sobre o travesseiro e passou à eternidade.

Depois de feitas ao irmão finado as honras que se lhe deviam, a comunidade perguntou ao seu chefe que palavras ouvira tão sinistras que o assustaram. O abade referiu-as, persignando-se. Mas os frades não viram nessas palavras senão um segredo do passado, sem dúvida importante, mas não tal que pudesse lançar o terror no espírito do abade. Este explicou-lhes a idéia que tivera quando ouviu as palavras de frei Simão, no tom em que foram ditas, e acompanhadas do olhar com que o fulminou: acreditara que frei Simão estivesse doido; mais ainda, que tivesse entrado já doido para a ordem. Os hábitos da solidão e taciturnidade a que se votara o frade pareciam sintomas de uma alienação mental de caráter brando e pacífico; mas durante oito anos parecia impossível aos frades que frei Simão não tivesse um dia revelado de modo positivo a sua loucura; objetaram isso ao abade; mas este persistia na sua crença.

Entretanto procedeu-se ao inventário dos objetos que pertenciam ao finado, e entre eles achou-se um rolo de papéis convenientemente enlaçados, com este rótulo: "Memórias que há de escrever frei Simão de Santa Águeda, frade beneditino".

Este rolo de papéis foi um grande achado para a comunidade curiosa. Iam finalmente penetrar alguma coisa no véu misterioso que envolvia o passado de frei Simão, e talvez confirmar as suspeitas do abade.

O rolo foi aberto e lido perante todos.

Eram, pela maior parte, fragmentos incompletos, apontamentos truncados e notas insuficientes; mas de tudo junto pôde-se colher que realmente frei Simão estivera louco durante certo tempo.

O autor desta narrativa despreza aquela parte das Memórias que não tiver absolutamente importância; mas procura aproveitar a que for menos inútil ou menos obscura.



No próximo dia 29 completa-se cem anos do falecimento de Machado de Assis (Joaquim Maria M. de A.), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nascido no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839.
“Frei Simão” é o último conto da coletânea “Contos Fluminenses”, publicado em 1870, cerca de dez anos antes do romance “Memórias póstumas de Brás Cubas”, cuja publicação daria uma nova direção à sua carreira literária.


Amanhã, se nada atrapalhar, publicarei a segunda parte.

poetas de outras horas - Augusto dos Anjos


Ilustração: foto de Mário Cravo Neto



ÚLTIMO CREDO



Como ama o homem adúltero o adultério
E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
Amo o coveiro -- este ladrão comum
Que arrasta a gente para o cemitério!

É o transcendentalíssimo mistério!
É o nous , é o pneuma , é o ego sum qui sum ,
É a morte, é esse danado número Um
Que matou Cristo e que matou Tibério!

Creio, como o filósofo mais crente,
na generalidade descrente
Com que a substância cósmica evolui...

Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular eu que ontem fui!



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