segunda-feira, novembro 30

duas paisagens *


para Armindo J. C. Bião

ilustração: Paulo Ito
Cidade Vermelha
encontrada no bog do autor



a primeira paisagem
cheira a pólvora
o absurdo dança frenético
na atmosfera vermelha
chaminés esfumam o espaço
luzem prédios de vidro e aço
roncam motores
soam buzinas
silvam projéteis
a boca da arma fuma
um peito sangra
o sangue escorre
se mistura
ao pó progresso
desce a calçada
inunda o asfalto

forma vermelha abstrata
nova plasticidade
moderna arte das esquinas




ilustração: Van Gogh
Trees and Undergrowth



a segunda paisagem
é verde de todos os tons
inclusive os tons jobins
o vento dança e lança além
o cheiro verde do mato úmido
cheiro de flores
cheiro de frutos maduros
e sons de grilos e de sapos
sons de pássaros e de cavalos
sons de todos os bichos
e do homem que sonha
à sombra de árvore frondosa

sonha e ronca
raízes saindo pelos olhos
tronco pela boca elástica



Fred Matos

* poemas publicados em "Eu, Meu Outro"
Editora Poesia Diária
Maio/1999

reescritos em 30/11/2009





domingo, novembro 29

fado antigo


para marina

não sei quem é o autor da foto

ouço, se não me traem os sentidos,
soando das cordilheiras líquidas do mar,
cordas de aço cantando um fado antigo.

ouço mulheres chorando a saudade dos filhos,
dos amantes, dos maridos:
marinheiros que nunca vão voltar.

na esperança de que voltem,
trocam as flores secas das grinaldas
as noivas que nunca vão casar.

são vozes gregas, fenícias, portuguesas...
que em comum toam, com a mesma melancolia,
a dor de quem vive só. só por esperar.




Fred Matos
publicado em "Eu, Meu Outro"
Editora Poesia Diária
Maio/1999

sexta-feira, novembro 27

um piquenique



ilustração: James Tissot



num piquenique no asfalto
a moça de salto alto
mastiga o sanduíche
ao lado da lata do lixo

no outro lado da praça
uma fashion-girl se maquia
equilibrada sobre esferas
na órbita de um crucifixo

o fotografo arma a cena
porém no instante do flash
abriram a jaula do bicho
e soou um estampido

de smoking no galho mais alto
o executivo prolixo
quiçá pensando que é pássaro
abre as asas, assobia

atenta ao cântico do chefe
a secretária anota e não nota
que faz papel de idiota
na rota de fuga do bicho

o executivo contudo
encontrou a bala perdida
caiu morto na grama
com os miolos à mostra

é a secretária que grita
e a fashion-girl simplifica
caindo na gargalhada
achando que é palhaçada

o fotografo vendo aquilo
procura o ângulo exato
que enquadre no retrato
o cadáver e a cadavérica

mas na foto revelada
a única coisa que havia
era a moça de salto alto
passando patê no asfalto.


Fred Matos

quarta-feira, novembro 25

alternativas


Para Mariana


ilustração: Magritte - The False Mirror


Perde a vida quem a ata a laço,
crédulo numa verdade definitiva,
quando tantas são as alternativas,
quanto astros há, no infinito espaço.

E, no perdê-la, a faz cativa
do traçá-la, traço a traço,
forjando, a régua e compasso,
as cadeias em que a escraviza.

Quem à ambição de glória ou ouro
empenha a existência, renuncia
ao seu único e verdadeiro tesouro.

Mas quem, ao sabor do acaso,
vive intensamente cada dia,
fada-se à insídia do fracasso.



Fred Matos
publicado em "Eu, Meu Outro"
Maio/1999

terça-feira, novembro 24

mas é como eu disse antes



Ilustração: Alessandro Bavari


certeza eu não tenho nenhuma
mas como se trata de novidade
vim correndo lhes contar
que ouvi alguém dizer
que vaga na via láctea
ou na via crucis
- eu não sei distinguir entre elas -
um espermatozóide semiótico
que teria
dizem uns
fertilizado um óvulo gigante
no centro de um buraco negro
cujo resultado previsto
na opinião dos acadêmicos hedônicos
é a emersão de um pop-star brilhante
em uma epopéia apoteótica
algo assim
quem diria?
como desfile de escola de samba
na marques de sapucaí
ou como um palmeiras e corinthians
no estádio do morumbi

mas há controvérsia

afirmam outros
que o tal errou a rota
segue agora para andrômeda
onde pacientemente aguardará
que as duas galáxias se fundam
algo assim
quem diria?
como a praça castro alves
às cinco da madrugada
antes de mudarem para a barra
o encontro dos trios elétricos:
de um lado os tapajós
de outro a caetanave
armandinho dodô e osmar
descendo de são bento
o céu clareando atrás da ilha
que maravilha...

mas é como eu disse antes
certeza eu não tenho nenhuma
exceto que se fecunda
assim,
à-toa,
por nada,
uma alegria malvada
ou tristeza benfazeja
sempre que o pé na estrada
a mão na mala
o olhar na lua
anuncia uma canção
uma nova revolução
algo assim
quem diria?
como uma imensa procissão
de astros
destros
astutos
sinistros
meninos nus
nitrato de prata
rosas
rubis
diamantes
solitários
ninfas
sátiros
cabras
cobras...

mas é como eu disse antes...


Fred Matos

segunda-feira, novembro 23

pretexto


não sei quem é o autor da ilustração


entre o chão e as estrelas
quando a noite está quieta
voam os meus pensamentos
mas o corpo fica alerta

e equilibrado no limbo
entre o que sinto e o que penso
a alma arde desejos
mas o corpo fica atento

se a noite é de lua e o vento
sussurra melancolias
o corpo mantém-se cauto

mas a mente fantasia
que o corpo vigilante
é pretexto pra poesia


Fred Matos

domingo, novembro 22

dilúvio



ilustração: Caravaggio
A incredulidade de São Tomé



"Sic illa ad arcam reversa est" *
[Divisa da Cidade do Salvador - Bahia]

“Si sapis, quod scis nescis.” **
[Terêncio, Eunuchus 721]



se o meu nome fosse José
e eu tivesse nascido
em Quixeramobim
[pássaro verde, carne gorda, serrote d'água]

ou se me chamasse Edmilson
e fosse natural
de Pindamonhangaba

[onde o rio faz a curva]

eu talvez soubesse
quantos dias e noites,
Noé esperou que a pomba voltasse à arca
com o ramo de oliveira no bico


mas eu nasci em Itajibá,
[rio pedregoso de frutos]
o meu nome é Tomé
e só creio no que vejo.


por via das dúvidas, porém,
vou mudar pra Piatã

[persistente]
antes do próximo dilúvio.


Fred Matos




* "Assim ela (a pomba) voltou à arca (de Noé)"
** Se tens juízo, não sabes o que sabes

sábado, novembro 21

talvez



ilustração: Olga Serova


t
alvez vá gritar teu nome
nas caladas da madrugada


talvez

talvez ele acorde em ti
desejos de namorada

talvez

talvez sim
talvez nada






Fred Matos
publicado em "Anomalias".
Editora Kelps
Setembro/2002

quinta-feira, novembro 19

o mundo é um moinho



“Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó”

Cartola, em “O mundo é um moinho”



ilustração: Jan Saudeck


palavras tais grossas negras grades - disseste-me:
todos os nossos melhores caminhos levam à cidade
todas as portas fechadas que abrirmos ao paraíso
poetas morrem miseráveis, tristes e tísicos

tens sempre muita certeza de tudo
do tempo exato da cocção do milho
do tempo exato da correta respiração
do tempo exato das coisas complexas

treze tempos teus depois descíamos descalços
o leito seco de um riacho em cuja margem
imaginávamos encontrar quaresmeiras
roxas e rosas - no tempo exato da floração

a mata atlântica dançou, neném, ardeu
caiu e ninguém derramou uma só lágrima - lágrimas
que obviamente estão guardadas para chorar
o destino da heroína da novela da televisão

dois quintos de tempo do teu tempo antes
época do início da metafísica midiática
especulavas o preço de uma viola de arco
para tocar o sexto concerto de brandemburgo

mas poupas-te bach - e felizmente aos meus ouvidos -
porque achastes que era um desmesurado absurdo
gastar numa viola o dinheiro que poupáramos
e que gastamos em um mês numa viagem a copenhague

foram depois dias alegres aqueles quando ganhei a loteria
e caminhávamos como crianças sorridentes e saudáveis
preocupados apenas com a escolha do vinho
e se encontraríamos ingressos para o teatro

para que não fossemos afetados por inúteis dramas de consciência,
convencemo-nos que o cinismo da humanidade é irremediável:
todos clamam por justiça social quando estão na merda
e quando se dão bem só lembram dela por hipocrisia ou marketing

um terço de tempo do teu tempo depois
época da dieta com abóbora e cereais integrais
convenceste-me a ingressar numa seita oriental
e fomos à índia estudar seus épicos em sânscrito

no tibet internamo-nos num monastério budista
onde nos convencemos da inutilidade de qualquer ação
mas a soma das tuas certezas com as minhas dúvidas
levou-nos a adotar uma criança vietnamita paraplégica

assim, com a certeza de que remíramos os nossos carmas
com tal força que livrar-nos-íamos do ciclo do samsara,
internamos o órfão em um bom colégio anglicano na suíça
fomos à frança, caímos na farra, torramos o resto da grana.

no tempo muito tempo anterior ao tempo teu - no meu -
tempo de poesia, sonhos, e quase sempre de barriga vazia,
eu jamais imaginaria que conheceria quase todo o mundo,
nem que conhecê-lo me tornaria este tipo triste e blasé

quando conhecemo-nos na travessia da velha balsa de niterói,
eu não tinha maturidade para compreender certas abstrações
que decorrem de subordinarmo-nos ao tic e tac das horas,
aos eteceteras que se entranham nas almas dadas às histerias

insistes em negar que lias um livro de auto-ajuda cujo título,
após tanto exato e inexato tempo, é natural que não me recorde,
mas que se destinava a ensinar, em rápidas e eficazes lições,
a capturar marido bonito, rico e, preferencialmente, obtuso

precisávamos achar meios de faturar quando a grana acabou
lembrei-me do livro que negas, escrevi em inglês um parecido,
colando trechos de uns semelhantes que mandei buscar no brasil
e, como dizias que não daria certo, só à sorte atribuis o meu êxito

jamais pude compreender porque torces contra o meu sucesso,
fato que evidentemente negas veementemente, lágrimas nos olhos,
mas do qual não tenho dúvida desde aquele dia em barcelona
no qual disseste-me, sem meias palavras, que sozinho sou um incapaz

é certo que tenho sempre muita dúvida acerca de qualquer assunto
dúvida do tempo exato da cocção do milho e da mandioca
dúvida do tempo exato da correta respiração
dúvida do tempo exato das coisas complexas e das simples

mas seja por sorte, competência, quiçá por proteção divina,
valeu-nos cada centavo investido no livro que ensina a catar marido,
termo-nos conhecido naquela tarde na travessia da balsa de niterói,
exatamente no dia que eu tinha decidido que seria o do meu suicídio.


Fred Matos




quarta-feira, novembro 18

advertência


para olegario schmitt

não sei quem é o autor da ilustração


os que me lêem precisam
de antemão saber que eu sei
que não sei nada.

não direi absolutamente nada,
mas digo:
nada absolutamente.

porque é assim
eu gostaria que entendessem
sempre um talvez implícito,
quando, talvez, não explicitado.

assim é, por exemplo, se afirmo
que isto é um poema
apesar de toda esta prosa
talvez amarrada.

talvez seja, sim, uma prosa,
pois para poema lhe falta o mínimo:
"a fala ritmada".

falta, talvez, o ser conciso.
falta, é certo, juízo,
mas de rimas não me farto.

falta o metro, que não é mais requisito:
emprestei-o a um mestre-de-obras,
um negro gordo, todo sorriso,
que constrói um prédio aqui ao lado.

mas é, talvez, um poema
porque poema eu o sinto,
talvez porque queira sentir isto
e em o sentindo
seu destino assim o traço.

talvez, se eu não o publicar,
rasgar, jogar no lixo,
não será poema nem prosa:
será literalmente
o que, de outra forma,
metaforicamente será,
por alguns, considerado.

mas é, talvez, um poema
porque é disto que me ocupo
quando estou desocupado,
ou quando, talvez, para mim
nada faça mais sentido
que manipular palavras,
meu elo com o divino,
que, talvez, exceto nelas
eu não acredito em nada.



Fred Matos

segunda-feira, novembro 16

sinal fechado



“Tanta coisa que eu tinha a dizer,
mas eu sumi na poeira das ruas...”
Paulinho da Viola, em Sinal Fechado



ilustração: Rubens - Allegory on the Blessings of Peace


levava a passear os meus fantasmas
de carruagem às margens do Tamisa
no tempo que Shakespeare escrevia
o sonho de uma noite de verão.
mas, naquela época,
eu não sabia nada de Ovídio

eu era absolutamente estúpido
naquela época
e tinha certeza absoluta
que o mundo se resumia à minha ilha
e que nada poderia ser mais importante
que levar os meus fantasmas
para passear de carruagem
às margens do Tamisa

a vida, contudo, é só uma sombra móvel
e, quando Drake queimou no porto de Cádiz
37 navios espanhóis,
a sombra caiu sobre os meus olhos
e pressenti que dias negros viriam
mas, naquela época,
eu não sabia nada de Ovídio

ó filho desventurado levado ao mar
sem pastor que o guie,
sem líder que dê o peito à lâmina inimiga
sem um deus que o erga na mão
no momento exato do golpe fatal
no momento exato que eu estava
com os meus fantasmas
às margens do Tamisa

decretaram-me louco:
nunca tivestes um filho
nunca às margens do Tamisa
fantasmas jamais
carruagem alguma
e acreditei no que me diziam
porque, naquela época,
eu era absolutamente estúpido
e não sabia nada de Ovídio

acreditei no que diziam
e, no limite do esquecimento,
da minha boca saíam palavras estranhas
palavras de um idioma inédito
um idioma no qual as palavras eram flechas
os meus pulmões o arco
meus fantasmas alvos
correndo amedrontados
às margens do Tamisa:

quizá yo sea un pájaro viejo,
pero apuesto a que aún
puedo enseñarle un par de tretas.

acusado de espionagem,
Sir Francis Walsingham me levou
à sala do trono da fanática
caí de joelhos
e antes que a louca virgem me condenasse
metamorfoseei-me em barata
na época eu não sabia nada acerca de Gregor Samsa
e, podem crer nos que lhes digo:
eu não sabia nada de Ovídio

foi naquele estranho dia, porém,
que Ovídio entrou em cena
puxando um séquito de criaturas míticas
que cantavam em coro,
como no teatro grego no século de Péricles:
"cidadão, cidadão
só o alucinado do Mallarmé
acreditava em uma semântica sem sintaxe"
foi assim que, evocado pelo romano,
Stephane pousou no meu poema:
"seria
pior
não
mais nem menos
indiferentemente mas tanto quanto"
mas os meus fantasmas
estupidamente neo-conservadores
ainda não entendiam nada
e passeavam de carruagem
às margens do Tamisa.

Ovídio, meu querido,
eu disse assim mesmo,
com a maior intimidade,
o braço sobre o ombro do poeta,
como se fossemos velhos amigos:
Ovídio, meu querido,
ajude-me a safar-me desta
navegue comigo nestas amargas páginas
ajude-me a encontrar Homero
que, coitado, está perdido,
tentando decifrar hieróglifos
dadaisticamente atirados
nos poemas de um baiano analfabeto
que côa metáforas
nas ânforas sagradas.

inesperadamente
um terceto rolou escada abaixo
causando pânico na platéia:
"ah! formidável lei cruel da vida,
lei da matéria, da mudez das lousas,
da eterna noite atroz, indefinida;"
perseguido-o, Cruz e Sousa,
que é um apenas,
não um mais outro,
como talvez alguém suponha,
mas que é um imenso na poesia,
um tal estes tantos afamados
que escreveram em idiomas mais chiques

Ovídio, meu caro Ovídio,
onde estás que não te encontro
terás descido ao Estige?
talvez tenha me abandonado aos fanáticos
talvez também tenha se metamorfoseado
talvez esteja mais uma vez no exílio
talvez jamais tenha vindo aqui
talvez eu tenha apenas sonhado
talvez eu nunca o tenha conhecido
talvez esteja com os meus fantasmas
passeando de carruagem
às margens do Tamisa

"Eu também tenho algo a dizer,
mas me foge à lembrança!"


Fred Matos

domingo, novembro 15

dança patética



foto: Mário Cravo Neto



na rede só algas e areia...

as palavras seguem submersas
e os bêbados mordem gravatas
enquanto dançam frenéticos
os esqueletos descalços

o sol não tarda que nasça...

as palavras seguem aladas
e os sóbrios sugam silêncios
enquanto correm elétricos
os fantasmas famintos

a cidade está desperta...

as palavras seguem ocas
e as crianças cheiram cola
enquanto voam patéticos
os discursos políticos.


Fred Matos

sexta-feira, novembro 13

ossos no saco do frade


ilustração encontrada na Internet, sem crédito


das lendas que por casualidade
caíram nos meus agrados
lembro-me a atipicidade
do caso dos ossos quebrados
encontrados no saco do frade
tio dos célebres antepassados
cuja excepcionalidade
foi terem sido julgados
por furtarem uma quantidade
não esclarecida de alcatifados
que pertenciam ao abade
pelo que foram condenados
com maior severidade
que a destinada aos celerados

sem dó nem piedade
os dois foram emparedados
nos pilares da irmandade
mas antes foram castrados
para que a moralidade
que mantinha resignados
os homens de responsabilidade
além dos mais elevados
píncaros da nossa cidade
não somassem aos seus pecados
o pecado da lubricidade
mas os falos arrancados
por erro ou fatalidade
não foram bem guardados

não se sabe a identidade
nem quantos degenerados
ou com qual finalidade
furtaram os falos cortados
que com larga publicidade
foram então cognominados
de falos da fertilidade
que passaram a ser venerados
por gente de toda idade
por solteiros por casados
que sentem dificuldade
ou foram prejudicados
uns por antiguidade
outros por outros falhados

com a possível rentabilidade
dos negócios pouco explorados
não foi mera casualidade
que imediatamente os mercados
aderissem à novidade
e logo foram tomados
de falos com tal diversidade
que havia para todos agrados:
falos de pano, falos de jade
pequenos, médios, alongados
jamais a humanidade
vira tantos desvendados
e com grande facilidade
todos foram contagiados

um século de sexualidade
imaginaram os extremados
vivida em fraternidade
que não criasse culpados
por atos de afetividade
sepultaria passados
de ignorância e crueldade
de hipocrisia e seviciados
floresceria a autenticidade
e outros valores sufocados
desde que a religiosidade
nos trouxe noções de pecados
não obstante a ambigüidade
entre atos e recados

mas a grande autoridade
temendo ver afetados
seus poderes sobre a cidade
onerou com impostos pesados
os falos e qualquer atividade
em que eles fossem usados
e culminando a arbitrariedade
à força alguns magistrados
foram recolhidos à grade
por aceitarem nos seus julgados
a tese da inconstitucionalidade
levantada pelos advogados
decretou-se a excepcionalidade
e os falos foram confiscados




a história é longa e será continuada oportunamente.

Fred Matos

quinta-feira, novembro 12

excelentíssimo senhor




foto: retirada do blog de Diogo Tourino de Sousa


primeiro comeu um dedo
com molho de estricnina
disse que estava insosso
bebeu o cloro da piscina

depois engoliu o braço
e cuspiu marimbondos de fogo
tinha tantos desejos
que nada o contentava

tal indescritível apetite
era a causa de problemas
anatômicos e psicossomáticos

nem macumba nem medicina
tinham solução pra o seu caso
: só a presidência do senado



apenso:

não há chá de camomila que baste
eu murcho como flor sem haste.



Fred Matos

quarta-feira, novembro 11

bom ofício


foto: Emil Schildt



Fosse eu, Narciso ou marinheiro,
perdido no mar ou num espelho,
cujo grito ecoasse no seu seio,
romperia, pé a pé, cada horizonte
para me prostrar ao pé do monte,
onde são seus braços cordilheiras.

Afogar-me-ia em ondas gigantes,
nas vagas vis onde de ti distante
perdi o rumo, a nau, a vida inteira,
para me entregar ao bom ofício
de aplacar, do teu corpo, o vício
do coito louco sem eira ou beira.




Fred Matos
publicado em "Ins
Piração Erótica"
Editora Literarte
Março de 2000

terça-feira, novembro 10

partituras



ultra aequinoxialem non peccari

foto: Mário Cravo Neto


saberias decifrar partituras
sem a ciência do tempo?

sem a percepção geométrica
da vibração no vôo do som?

se não pudesses compreender
que todo sinal é metáfora?

eu nada sei de partituras

mas hás de convir comigo
que nada deve fazer sentido
pra quem não cantou conosco
que vale qualquer sacrifício
e que não existe pecado
no lado de baixo do equador.


Fred Matos

segunda-feira, novembro 9

falando sério. ou não?



suma sumaríssima de uma micro-epopéia ao som de tamborins.

Jules Le Fevre: "Mary Magdalene in the cave"


"Esqueci no piano as bobagens de amor
que eu iria dizer"

Chico Buarque, em “Lígia”


"Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão"

Caetano Veloso, em “Língua”




era tal o peso dos dogmas
naquela antiga civilização
que o céu ficou ao alcance das mãos
as crianças desatarraxaram as estrelas
como se fossem lâmpadas de brinquedo
e fez-se a escuridão
da qual ainda não escapamos
não obstante a ilusão iluminista
o gênio de Espinoza
e a sua concepção da substância divina

mas a natureza preserva os seus mistérios
e eu preferiria não tratar de temas sérios



Fred Matos

domingo, novembro 8

dionisíaca



para Carla Souto


ilustração: Rubens


a borboleta voa
rota que jamais percorri
meus olhos incrustados nas asas
vêem geografias inusitadas:
um corpo tornado palco
dentes em spotlights
os braços densas cortinas
sobre as pernas platéia de sátiros

pluma pousa baila sorri
sabe que o mundo é teatro
que a tragédia é o balido de um bode
e que quando fecho meus braços
a dicotomia não cessa
segue latente nas almas
dos que beberam o sangue
do herói irredimível.

nada que lhes disse é fato
mas tudo na peça é possível.


Fred Matos

sábado, novembro 7

clown


não sei quem é o autor da ilustração


à academia,

prefiro ser

clown

saltimbanco

anônimo e anômalo

cuja muda

eloqüência dos gestos

germine não palavras cavas

mas covas de mandioca e milho

tijolos livros arados

fantasias e sorrisos

coisas com serventia


mesmo as covas que guardam

as [acadêmicas]

carnes da humanidade


sendo clown eu póço

iscrever iço e a kilo

quinem pó

emas chão

mas que xamo do que

karo

quero ao meu cora

são

 

Fred Matos

 

sexta-feira, novembro 6

numa noite quente em são francisco



ao dobrar uma esquina
numa noite quente em são francisco
dei de cara com bob dylan
violão enfiado no saco

com o dedo apontando
o baseado apagado na boca,
me perguntou se eu tinha fogo

saquei rápido o isqueiro
e pedi que tocasse algo
ele não se fez de rogado

tirou uma gaita do bolso
e me deixou encabulado
porque em vez de um folk-rock
tocou um samba sincopado



Fred Matos

quinta-feira, novembro 5

rapadoce


Ilustração:
"Saturno", de Rubens


a rapa é dura, mas doce.
e tanto mais a vida rapa,
mais rapidamente a foice
ceifa-nos.
e a vida foi-se.


Fred Matos

quarta-feira, novembro 4

tudo o que quero é rimar



ilustração: Francesca Woodman


marazul luzamar
não quero que se me entenda
tudo o que quero é rimar

se a rima não lhe agrada
não a fiz pra lhe agradar
ela é a troco de nada

este meu nada é profundo
não quero que se me entenda
quem pode entender o mundo?



Fred Matos

terça-feira, novembro 3

carpintaria


foto: Fred Matos


a solitária carpintaria da emoção
aqui um entalhe na pedra alva
cá um gris acentuando a ausência
acolá um pássaro de outra história

e tudo o que fica não se inscreve
porque é indelével,
lento,
leve.



Fred Matos

segunda-feira, novembro 2

se é que vocês me entendem


ilustração: "Childhood" - Jan Saudek


é apenas escolher
entre a calça jeans
e uma de sarja cinza
entre a mala e a mochila
entre o busão e a caminhada
entre uns trocados e a liberdade

nada muito complicado
nenhuma metafísica
sim, creiam, nenhuma metafísica

ninguém porém se convence
de que não há entrelinhas a ler
além ou aquém da acepção literal
desta literatura que neste momento
precisava de uma pausa

ufa!


é apenas escolher
ainda que para fazê-lo seja necessário
despetalar um flor:
mal-me-quer, bem-me-quer,
mal-me-quer, bem-me,quer,

ou, então:
unidunitêsalomémingué
um sorvete colorido
unidunitê

se é que vocês me entendem.

não terá nenhuma importância o método
desde que a escolha seja feita
até porque se trata apenas de escolher os meios
pois o destino está escrito

sei lá, tenho dúvidas disso
mas calhou cair no poema


e caso não esteja não muda nada
porque só se sabe se a escolha foi correta
quando acaba a caminhada.



Fred Matos

pesquisar nas horas e horas e meias