“Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó”
Cartola, em “O mundo é um moinho”

ilustração: Jan Saudeck
palavras tais grossas negras grades - disseste-me:
todos os nossos melhores caminhos levam à cidade
todas as portas fechadas que abrirmos ao paraíso
poetas morrem miseráveis, tristes e tísicos
tens sempre muita certeza de tudo
do tempo exato da cocção do milho
do tempo exato da correta respiração
do tempo exato das coisas complexas
treze tempos teus depois descíamos descalços
o leito seco de um riacho em cuja margem
imaginávamos encontrar quaresmeiras
roxas e rosas - no tempo exato da floração
a mata atlântica dançou, neném, ardeu
caiu e ninguém derramou uma só lágrima - lágrimas
que obviamente estão guardadas para chorar
o destino da heroína da novela da televisão
dois quintos de tempo do teu tempo antes
época do início da metafísica midiática
especulavas o preço de uma viola de arco
para tocar o sexto concerto de brandemburgo
mas poupas-te bach - e felizmente aos meus ouvidos -
porque achastes que era um desmesurado absurdo
gastar numa viola o dinheiro que poupáramos
e que gastamos em um mês numa viagem a copenhague
foram depois dias alegres aqueles quando ganhei a loteria
e caminhávamos como crianças sorridentes e saudáveis
preocupados apenas com a escolha do vinho
e se encontraríamos ingressos para o teatro
para que não fossemos afetados por inúteis dramas de consciência,
convencemo-nos que o cinismo da humanidade é irremediável:
todos clamam por justiça social quando estão na merda
e quando se dão bem só lembram dela por hipocrisia ou marketing
um terço de tempo do teu tempo depois
época da dieta com abóbora e cereais integrais
convenceste-me a ingressar numa seita oriental
e fomos à índia estudar seus épicos em sânscrito
no tibet internamo-nos num monastério budista
onde nos convencemos da inutilidade de qualquer ação
mas a soma das tuas certezas com as minhas dúvidas
levou-nos a adotar uma criança vietnamita paraplégica
assim, com a certeza de que remíramos os nossos carmas
com tal força que livrar-nos-íamos do ciclo do samsara,
internamos o órfão em um bom colégio anglicano na suíça
fomos à frança, caímos na farra, torramos o resto da grana.
no tempo muito tempo anterior ao tempo teu - no meu -
tempo de poesia, sonhos, e quase sempre de barriga vazia,
eu jamais imaginaria que conheceria quase todo o mundo,
nem que conhecê-lo me tornaria este tipo triste e blasé
quando conhecemo-nos na travessia da velha balsa de niterói,
eu não tinha maturidade para compreender certas abstrações
que decorrem de subordinarmo-nos ao tic e tac das horas,
aos eteceteras que se entranham nas almas dadas às histerias
insistes em negar que lias um livro de auto-ajuda cujo título,
após tanto exato e inexato tempo, é natural que não me recorde,
mas que se destinava a ensinar, em rápidas e eficazes lições,
a capturar marido bonito, rico e, preferencialmente, obtuso
precisávamos achar meios de faturar quando a grana acabou
lembrei-me do livro que negas, escrevi em inglês um parecido,
colando trechos de uns semelhantes que mandei buscar no brasil
e, como dizias que não daria certo, só à sorte atribuis o meu êxito
jamais pude compreender porque torces contra o meu sucesso,
fato que evidentemente negas veementemente, lágrimas nos olhos,
mas do qual não tenho dúvida desde aquele dia em barcelona
no qual disseste-me, sem meias palavras, que sozinho sou um incapaz
é certo que tenho sempre muita dúvida acerca de qualquer assunto
dúvida do tempo exato da cocção do milho e da mandioca
dúvida do tempo exato da correta respiração
dúvida do tempo exato das coisas complexas e das simples
mas seja por sorte, competência, quiçá por proteção divina,
valeu-nos cada centavo investido no livro que ensina a catar marido,
termo-nos conhecido naquela tarde na travessia da balsa de niterói,
exatamente no dia que eu tinha decidido que seria o do meu suicídio.
Fred Matos